Pela porta aberta entrou uma lufada de ar, trazendo os cheiros do manguezal. A chama da vela tremeu, ficou baixinha, como se fosse apagar, mas depois recuperou a força e voltou a se erguer. Somente o som do quebrar das ondas, misturado à cantoria dos grilos, concorria com o silêncio da noite. Arthur fechou os olhos, viu o rosto de seu pai se desenhar na memória e pensou no quanto sentia a sua falta. A mãe o ignorava. Parecia estar sempre ocupada com coisas mais importantes e sem paciência para conversar. Era bem difícil conversar com a mãe. Na verdade, era tão difícil que já nem tentava mais. Trovejou no mar. O vento chegou antes da chuva, levantando as folhas secas do quintal. Os primeiros pingos grossos logo se transformaram em um cortinado de água e quando a corrida de um relâmpago acendeu o céu, a árvore gigante se envolveu em brilhos fosforescentes. Uma visão sobrenatural na paisagem borrada. Diante da janela, imóvel, Arthur viu a figueira enfrentar a tempestade como um bicho acuado, se contorcendo, rangendo e estalando os galhos. A solidão daquela criatura singular fez com que Arthur pensasse em sua própria singularidade e solidão. Diante de mudanças irreversíveis, Arthur, um garoto autista, precisa enfrentar suas angústias mais profundas. Aos poucos, com a leitura da Odisseia de Homero, o apoio do avô e a companhia de um grupo de velhos apaixonados por barcos, Arthur aprenderá a refletir sobre os mistérios da vida. Mas será a descoberta de um espaço labiríntico entre as raízes de uma imensa figueira, de onde resgata objetos antigos, que o levará a compreender melhor suas próprias raízes, seus vínculos familiares, e o colocará diante dos mistérios da morte. A travessia pelas sombras do labirinto levará Arthur a descobrir, por si só, o quanto de medo um homem precisa sentir para aprender a ter coragem. E aprenderá a contar as histórias guardadas na memória das águas do velho mar. Ele saberá que a vida se faz de pequenos e grandes enfrentamentos e que nada no universo é tão simples como pode parecer aos que não têm o dom de se maravilhar.
Três Luas de Verão - E uma Figueira Encantada
Maria de Regino
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2018
313 páginas
10h 26m
ISBN-10: B07HBRGLXQ
Português Brasileiro
Edições (1)
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