Conversa Mole, Vida Dura

    Manoel Lobato

    Dubolsinho
    2019
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788587728418
    Português Brasileiro
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    Thiago29/11/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Na terra dos simulacros

    Estarei usando essa entrada para falar, na verdade, de outro livro do autor no qual não consta no catálogo do Skoob. Aliás, muitos livros não constam e em geral esse aplicativo é bem inferior ao seu correlato fílmico (Letterboxd), mas minha paixão é literatura e meu projetinho requer este espaço de escrita então, conforme a expressão mais brasileira possível, "fazer o quê, né?". Tratarei de Cartas na Mesa, da coleção Memórias, cuja construção é ambos literária e autobiográfica. Difícil avaliar ou discutir um livro deste tipo, que se encontra no limiar. Procuremos, de qualquer modo, lidar com essas aporias de gênero e tratemos do livro propriamente. O corpo de obras mais próximo deste livro que já li foram as autobiografias de Zélia Gattai. A meu ver, este tipo de literatura carrega consigo sempre um duplo problema no qual deve resolver: primeiro, sua escrita deve ser magistral, fluida e imersiva. Não pode cair no burburinho maçante da detalhação interminável, tampouco se permite ser deveras coloquial, com risco de soar farsesco. É preciso saber como falar de si mesmo. O segundo, é a própria pessoa. Ora, trata-se de um autor interessante? Instiga a imaginação no decorrer de sua vida (re)contada? Nisto, surge uma terceira questão: sequer vale a pena estar atento à "realidade" de si? Pelo que parece, não sei se por se julgar desinteressante ou, visto seu amor por línguas em geral, por seu impulso criador, Manoel Lobato decidiu inventar ao máximo a sua própria figura. Adornou, reconfigurou, adicionou e subtraiu - enfim, criou. Como Holbein, seu interlocutor, diz, seus instintos o compelem a uma fantasmagoria da realidade assim como sua subsequente - ou quem sabe latente, sob uma forma ou outra - destruição. E com plena consciência, pois nosso autor, embebido em psicanálise, está sempre se colocando no divã, falando consigo, se determinando mediante conceitos freudianos e assim por diante. É divertido, torna-se algo como a crônica alinear de um esquizofrênico; com Holbein, claro, sendo o suspeito número um. Quanto à escrita, ela cumpre o primeiro requisito. Ah se cumpre! Sua prosa é riquíssima de vocábulos sem restar um pingo de linguagem truncada, garbosa ao excesso e que culminaria numa artificialidade incômoda, sobretudo por ser este texto "autêntico" e "sincero". Gostaria de puxar esse fio (quem ainda se lembra que "texto" significa tecido?). A todo momento, mais ou menos a partir do miolo, somos atingidos com um bastão no qual exprime reiteradas vezes: "agora escrevo espontaneamente!". Será? Não acredito que o próprio Lobato - ou lobinho, se fôssemos traduzir para nossos diminutivos cotidianos - se acredite habilidoso ou importante para ser digno o bastante do "livro sobre o Nada", de que falava Flaubert, talvez o único livro genuíno e ainda por surgir no mundo. E dado o caráter de auto-análise, cumpre refletir se esses elementos por onde se faz clamar uma verdade literária não sejam justamente a denúncia de seus limites; como se, tendo chamado atenção para o que desejo, fosse automaticamente atirado para longe do objeto desejado, justamente no ato de enunciação, escrita, enfim, linguagem, este signo sempre a me constranger. Talvez, de fato, seja o contrário: talvez Cartas na Mesa seja artifício puro, mera construção estruturada, espacializada, ordenada de signos mais ou menos poéticos. E quiçá, num lance inusitado, Manoel Lobato tenha sido o primeiro a transformar a si mesmo em pura obra, não nos moldes artaudianos, mas afogado nos perfumes sedutores da França setecentista. Habilidoso, nosso farmacêutico-advogado-escritor resolve ambas as questões num só golpe: escreve bem porque inventa, e escreve sobre alguém interessante... porque a inventa. Estamos na terra dos simulacros, aqui só se fala em literatura. Só funciona com quem não teme se perder...

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