João Miramar era um poeta na prosa. Ou antes, Oswald de Andrade o era. Lançado em 1924, a obra deu o pontapé no que iria sacolejar a pretensa safra literária modernista do primeiro período.
Joãozinho é apreciador da doleta monetária, uma das modéstias que um homem de sua estirpe representa àquele presente (ou passado, agora): os ajeitados sociais que continham necessária vontade de parafrasear suas vivências quase feudais.
Vívido pela herança cafeeira, passagem pela Europa, casamento bem posto com Célinha, e por fim, nos entraves empresariais com uma indústria fílmica precária - de bandeja, uma amante italiana -, Miramar não soa completamente janota, ele é satirizado pelo seu criador ao mesmo tempo que o restante da sociedade paulistana pós-monarquia.
Nos 163 fragmentos-neologistas, Oswald ousou como prometeu em seu manifesto-quase-mandamento Pau-Brasil, ao inteirar a linguística em um único quadrado: pontuações, nexo, formalismos, a sintaxe?, às favas.
Oswald deixou João se lançar nas letras, a graça é esta, a metalinguagem memorialística da sua invenção, e este homem pormenorizado que inculta e prescreve o coloquialismo na ponta da língua, desconectando sentenças para soarem líricas, até, representa mais uma inovação estilística na literatura, cuja cadência procuraram os modernistas ultrapassar, que um romance comum: cabe o status de experiência.
Essa escolha narrativa desconstrói o modelo tradicional de memórias, aproximando-se de uma "memória ficcional" que questiona a autenticidade e a linearidade da experiência pessoal (MARTINS, 2008). Porém, nem sempre será sobre todos nós, como o autor premeditou.