O que me levou a pegar O Amigo, de Sigrid Nunez, para ler foi a descrição de uma pessoa que disse que esse era um livro com o plot mais surpreendente que muitos livros de suspense que já tinha lido. Isso me chamou a atenção. No entanto, ao terminar a leitura, senti que esse tal “plot” teve muito menos significado para mim do que o próprio decorrer da narrativa. Porque este não é um livro de suspense. Não é um livro sobre um cachorro. E não é exatamente um livro sobre suicídio.
O mote da história é sobre uma escritora/professora que, ao perder um amigo, acaba “herdando” seu cachorro Apollo, um grande dogue alemão arlequim. Mas, como disse antes, este não é um livro sobre um cachorro; é um livro sobre repensar a vida, a amizade, o luto, a solidão, a crueldade, a escrita e o ensino. É sobre como superar a perda de alguém que não quis mais viver.
Diria que este é um livro paradoxalmente triste e, ainda assim, cheio de vida. O coração dele está nas digressões da narradora: quando ela fala sobre suas aulas de escrita criativa, sobre seus alunos, sobre refugiadas traumatizadas, mulheres marcadas por violências invisíveis, sobre seus gatos que já morreram; e esse capítulo, em especial, me levou às lágrimas. Tudo isso acaba formando um mosaico que parece meio errante, mas que termina sendo profundamente coerente emocionalmente.
O livro é cheio de micro-histórias que me causaram um certo êxtase, porque eu adoro quando um narrador nos conta as histórias que conhece. Aqui, isso funciona perfeitamente: são histórias de escritores famosos, de sobreviventes de guerras, de mulheres que sofreram abusos e tentam, por meio da escrita, se restabelecer, assim como histórias de cachorros, gatos, filmes, música. Tudo se entrelaça.
Assim como Virginia Woolf, a narradora escreve sobre sua perda tentando resolvê-la, entender o que ela significa e, sobretudo, tentar não perdê-la no tempo, não deixá-la cair no esquecimento. Mas sempre com a consciência inquietante de que, ao escrever sobre quem perdemos, ou ao falar demais sobre essa pessoa, talvez estejamos também enterrando-a para sempre.
Na parte cinco, chorei horrores com o relato sobre os gatos. Talvez porque eu tenha passado por algo semelhante recentemente com a minha cachorrinha. Senti-me incapaz de evitar que ela sofresse bem diante dos meus olhos; foi devastador me confrontar com ela tentando não me incomodar enquanto sentia dores tão terríveis. Esse capítulo acabou comigo.
Gosto muito quando a narradora tenta encontrar a música certa para colocar para Apollo ouvir, como se isso pudesse ajudá-lo a lidar com o luto pela perda de seu dono. Logo depois, ela mesma reconhece que esse gesto é idiotamente antropomórfico, mas admite que, às vezes, é assim que o amor se manifesta. E certamente eu concordo com ela.
Em resumo, este é um livro em que a narradora entrega uma voz única: intimista, pensativa, com humor sutil e profundidade existencial. Sigrid Nunez apresenta o luto sem glamour: não idealiza, não dramatiza. Ela observa, pensa, questiona e, ao longo do livro, me fez pensar e questionar na mesma intensidade. Para mim, a narradora escreve para manter algum sentido em sua vida, o que faz de sua escrita quase um espelho de sua mente.
E quanto a Apollo, o grande cachorro, ele não é apenas um animal de estimação: ele termina por se tornar uma metáfora de presença, perda e continuidade. E, no final, não consegui deixar de sentir que O Amigo é um livro sobre aprender a conviver com as perguntas difíceis e com o mundo que continua, mesmo na ausência de quem amamos.