"A faca brilhava no chão,ainda ensanguentada,e atraiu os olhos de Chico Bento.Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa;mas foi o ímpeto confuso e rápido.Ao gesto de com o sangue,pusera no ombro o animal sumariamente envolvido no couro e marchava para a casa cujo telhado vermelhyava,lá além"
O Quinze -
Rachel de Queiroz
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Ver maisA solidão de ser leitor
Me surpreendeu, a leitura flui muito bem, a linguagem é simples e intimista, sem exageros regionais ou enfeites da falsa literatura brasileira. A representação da seca é verdadeira, sem aqueles assombros exagerados que outros livros propõem. Ao invés disso, Rachel explora o psicológico dos personagens, esse aspecto é muito interessante, por exemplo, como a personagem Chico Bento sofre uma mudança de sanidade quando mata o animal devido às condições do ambiente, hostil e marcado pela fome, quem já leu Carolina Maria de Jesus sabe o que a fome faz com as pessoas. A escrita nessa cena em particular se torna até mesmo um pouco pertubadora, criando tensão, mas não deixa de ser linda. Outros aspectos também são explorados, a personagem Conceição, protagonista, me chamou muito a atenção pois ela é leitora e sente isolada dos outros por essa sua característica, mas não de um jeito esnobe e sim de uma maneira simples, os outros não entendem suas ideias e paixões por livro e pela educação e por isso ela se sente só e fica pra titia (no pensamento da época isso era a pior coisa que podia acontecer com uma mulher: não casar e não ter filhos, mas para Conceição vemos que esse não é o fim do mundo) Spoiler: ela não fica com Vicente no final, confesso que eu esperava que eles ficassem juntos e se casassem, mas depois de refletir sobre o livro percebi que ele não é um livro convencional, nem sobre a seca e nem sobre casamento, na verdade depois de um tempo senti até um alívio que ela não ficou ele, como um respiro depois de tantos livros que acabam assim. Vicente é um personagem que também chama a atenção, o discurso dele sobre suas paixões e como ele não quis abdicar de seus desejos para estudar me fez refletir. Rachel viveu a seca, e por isso retratou de maneira tão realista. Devidamente merecida, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, eleita para a Cadeira 5 em 4 de agosto de 1977 e tomou posse em 4 de novembro de 1977. Calou a boca de Cândido Motta que tinha se manifestado publicamente contra a entrada de mulheres na ABL (A Academia é uma instituição de homens. Por mais que admire a inteligência e o talento de Rachel de Queiroz, não votaria nela.) Me fez pensar o que Machado pensaria sobre isso, o próprio "bruxo do cosme" sofreu com as implicâncias dos outros com a sua pele. Inclusive há vídeos disponíveis no youtube sobre o dia de sua posse na ABL. Nada mais há dizer, apenas: grandiosa Rachel de Queiroz.
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