“Vasto e tenso lugar da maternidade” – é o que define O filho é da mãe? e suas sutis nuances sobre a potência de ser mãe, seus percalços e suas singularidades. Dando voz e vez a mulheres-mães que são acima de tudo mulheres em busca da compreensão da maternidade e todos os esforços e forças para se lutar contra uma sociedade machista, o livro é um achado. Desses que você encontra quando já leu uma vasta literatura sobre o tema, e que te surpreende. Surpreende por trazer um olhar feminista sobre a questão da maternidade, não apenas a maternidade em si.
A busca por individualidade, o anseio por não perder identidade, a corda bamba de ser várias em uma só são pontos retratos com generosidade na narrativa, nos fazendo refletir sobre escolhas, culpa e sobrevivência. Maternidade não é, nem deveria ser um encerrar sobre o ser, mas – nas palavras da autora – uma “lente para que através dela eu veja o mundo”.
Repleto de vivências e vozes de mulheres que são múltiplas, não apenas mães, o livro também toca num assunto que não é muito discutido, como o fato de ser mãe recai sobre a mulher um julgamento. Quantas vezes as mulheres perdem oportunidades profissionais ou acadêmicas quando informam que também possuem a maternidade em seu currículo? Quantos julgamentos são impostos na academia e na vida sobre mulheres-mães? Ela dará conta? Quem ficará com os filhos?
Tocando no cerne da questão, a pergunta ainda paira no ar: mas então o filho é da mãe? Ele não é um ser que será preparado para o futuro pela sociedade, pelo pai, pelo restante da família? Por que a mãe é aquela que tem que ser salvadora de tudo, menos dela mesma?
Ser mãe e atuar no mundo é um longo caminho, uma grande jornada. “Daí a necessidade de discutir, refletir e problematizar tais dificuldades”, conclui a autora. E mais, como ela indica: “Precisamos lutar para que nossa escolha relativa à maternidade não pese em nossas vidas como uma âncora que nos aliena compulsoriamente de perspectivas outras.”
Para finalizar, faço das palavras da autora as minhas de leitora: “Por tudo que foi e ainda tem sido pensado por mim sobre mulheres e maternidades, pergunto a você, leitora e leitor, não se é possível ser uma mulher, mãe e atuar na esfera pública da vida, mas sim, a que custo, ainda hoje, essa mulher tem a possibilidade de tal atuação?”
Citações preferidas:
– O que digo a todas elas é que compreendam que não há nada no mundo que nos obrigue a ser o que não desejamos.
– As tantas histórias que esta mulher me contou naquela tarde, em conjunto com tudo o que eu vivera até ali, me fizeram perceber que comumente passamos a vida aprisionadas a construções que nos atormentam.
– Minhas tentativas de diálogo são inúteis e eu faço aquilo que posso, me calo e aguardo.
– Assim, a partir de outras, vejo o meu reflexo, um bocado de mim em cada uma delas.
– Cada vez mais tenho percebido que a maternidade é uma eterna e tensa disputa entre o ideal e o real possível.
– Todas nós, essas mulheres com as quais dialoguei ao longo da pesquisa e eu, temos em comum, além da culpa, a superação desta.
– O que muitos não perceberam ainda é que, na realidade da vida maternal, gritam-me Mãe da mesma forma que gritam-me Negra.