O Homem entre a História e Deus.
“Sou solicitado por tendências que se contradizem”. Se fosse necessário resumir sua vida em uma frase, essa poderia descrever Jean Barois. Por possuir uma inclinação excessiva para a reflexão, é impulsionado por forças opostas que geram constante conflito interior, o qual reflete a crise de valores da sociedade em que vive. Crescido em um ambiente majoritariamente católico, exceto pelo exemplo de seu pai, um ateu que pouca influência exercia sobre ele, Barois muito cedo sofreu com as dúvidas que permeavam sua consciência, a maior parte delas referente à religião na qual fora criado. À medida que tenta racionalizar sua fé, começa a questionar os fundamentos da doutrina cristã. Pergunta-se sobre o mal e o sofrimento no mundo, a existência de um Deus perfeito e a exclusividade do cristianismo, temas que revelam suas inquietações com a rigidez dogmática e a moralidade religiosa. Suas dúvidas envolvem questões fundamentais da fé cristã: se Deus é perfeito, como poderia um mundo imperfeito ser obra Dele? Como pode ser um homem condenado apenas por não partilhar da fé, quando todas as suas outras qualidades e contribuições ao mundo superam em muito os seus defeitos? Haveria mais de um modo de ser cristão, não seria isso incompatível com a unicidade da religião? Existe diferentes níveis de fé para determinadas épocas da vida? Sem dúvidas, essas são perguntas que todos nós fazemos. Suas concepções de Deus mudam, porém adentra a vida de homem ainda com a religião da criança que tinha sido. Em meio a toda essa confusão interna, Jean Barois inicialmente luta para preservar sua fé. No entanto, “ao procurar justificar a sua fé, ele a abala”. Duvidar do catolicismo é, para Barois, como estremecer os fundamentos, a estrutura sobre a qual sua existência foi firmada. Ele nota que a única probabilidade de equilíbrio que lhe resta é “que o sentido do dogma seja conciliado com as exigências da razão”. Para Barois, certos argumentos só podem convencer àqueles que já pretendem ser convencidos. No decorrer do livro, nos perguntamos se a fé pode de fato ser compreendida apenas através do raciocínio ou se há alguma predisposição em nosso espírito que independa disso, que seria a razão pela qual cremos. No caso de Jean, de “um lado está sua razão, que se sente ferida por certos pontos do dogma e recusa aceitá-los; e, de outro lado, a sensibilidade religiosa, que já provou Deus e que não pode mais prescindir dele”. É feita, portanto, uma distinção entre sentimento religioso e elemento dogmático, dois pontos da fé: aquele seria relacionado a própria aliança divina e ao relacionamento estabelecido com Deus, enquanto este se refere as teorias de noções cultuais, de forma. Barois entende que com o avanço cultural, o sentimento religioso permaneceu o mesmo, ainda forte, mas o equilíbrio da religião foi perturbado em razão do elemento dogmático, que perdeu força e parece ser incompatível com a realidade moderna. O questionamento que se delineia é: as crenças devem obedecer à evolução, devem parar de resistir em virtude de seus aspectos humanos? Barois considera que a religião não deve se submeter ou se sujeitar à modernidade, sob pena de perder sua razão de ser. Para ele, "despojar a religião de suas formas tradicionais seria amesquinhá-la"; seu interlocutor, por outro lado, que vê a religião como algo maleável, argumenta que é preciso adaptar a forma para preservar a essência da doutrina. Ao passo que a sociedade moderna estaria “orientada para uma sociedade sem Deus, para uma concepção puramente científica do universo”, a religião, mais especificamente o catolicismo, encontra dificuldade de se reinventar, pois para isso teria de negar a si mesma, seus próprios fundamentos. Constata-se então que as doutrinas religiosas e dogmáticas não podem ser completamente adaptadas ao contexto moderno, já que a própria essência da religião entra em choque com o avanço cultural e científico. Na primeira divisão do livro evidencia-se que seu casamento é o que o ampara em meio a tantas dúvidas, o contato com a fé de sua esposa sendo o último laço que o ligava a religião que ainda professava. Contudo, não demora muito tempo até que ele renuncie completamente a crença que continuava a utilizar quase que como uma armadura. É a negação definitiva. Simultaneamente, se sente renegado pelo credo descartou, essa “velha ama que o repeliu, que considera criminosos os esforços que fazem para permanecerem com ela”. Igualmente, seu casamento começa a ruir. Ele passa a nutrir uma condescendência, e até desprezo, pela fé antiquada e ingênua de sua esposa, crendo que ela tenta "dominá-lo, do alto de sua certeza". Barois, no entanto, não percebe que, hipocritamente, também se vangloria por julgar-se superior e livre de egoísmos. Com o colapso de seu matrimônio, Barois mergulha no cientificismo e é absorvido pelo mundo material, se afastando completamente de sua antiga fé. Na segunda parte da obra começa a ser desenhada a crise moral da época em que ele vive. É quando se constrói o Barois intolerante, que defende que uma “convicção que admite a legitimidade de outra contrária é ineficaz”. Conjuntamente, tem-se início a introdução do caso Dreyfus, que simboliza o embate entre a justiça real e a justiça dos homens, facilmente manipulada diante de instituições falhas. A corrupção moral é simbolizada nas entrelinhas do caso. A decadência intelectual da França é bem expressa, bem como a manipulação da mídia e a facilidade do desvirtuamento das convicções individuais. Barois e um grupo de amigos tornam-se então revolucionários por desempenharem ativamente um combate contra o sistema. São tidos como “uma dessas poucas gerações às quais incumbe a tarefa de operar a evolução científica, um dos minutos trágicos da dolorosa agonia do passado”. O caso Dreyfus é descrito como a linha ante a degradação final do direito e do mundo civilizado. No fim, apesar de todos os esforços, há um retrocesso; a sociedade não estava pronta a pagar o preço do progresso, a geração não queria renunciar aos privilégios que sabia ter. Na terceira parte do livro ocorre a fenda, onde todos os novos ideais de Barois, aos quais ele dedicou sua vida, desmoronam. Um acidente que podia ter lhe tirado a vida coloca em xeque a sua vida intelectual falha, a ineficiência de sua luta no caso Dreyfus, a dúvida dos benefícios de seu trabalho para a sociedade, a religião que renegou. No momento do desespero, quase que em um rompante, se apegou justo a doutrina que ele empregou sua vida a negar. O que Barois mais desejava era ter um juízo definitivo sobre a vida, mas nesse ponto ele observa a inutilidade disso, a incapacidade de ter essa vontade satisfeita. O sentimento é de impotência, de descobrir que nenhum dos seus atos valeu. A sensação aterradora de ter o sustentáculo de sua vida mais uma vez desestruturado é um infortúnio dolorido. Percebemos que ele teme a religião, mais que qualquer outra coisa. Buscando contraditar esse impulso, escreve, em um ato exasperado, um testemunho que objeta novamente a religião antiga, de modo a preservar qualquer uma de suas “irreflexões” futuras e a nova religião que elegera para si: a ciência. Para selar a tragicidade, a filha que abonou em prol de sua intelectualidade, de sua rejeição ao credo e que nunca tinha visto se apresenta a ele e é anunciada como mais um golpe aos seus preceitos já debilitados, posto que vocacionada a fé que ele abomina. Ela busca o pai para conviver com ele e com sua obra, para então ter a certeza definitiva de seu voto. Já tendo abdicado da intolerância de outrora, Barois aceita sem resistência o caminho escolhido pela filha. Diferentemente do elemento dogmático, ele respeita o sentimento religioso e o preserva, até por fim admiti-lo em si próprio. À vista disso, compreende que a vida é repleta de contradições, e que a obra de sua existência foi o exemplo máximo disso. Posteriormente, já na velhice e próximo a morte, “corroído pela dúvida do que julgava verdadeiro”, sente a necessidade de apoiar-se em algo: “aferra-se às suas convicções passadas: mas essas não são mais para ele senão motivo de angústia”. De todo modo, mais uma vez ele se submete a doutrina, e a religião que ele havia tomado para si, a ciência, nada faz para apaziguar sua aflição; esse novo caminho, que para ele parecia mais sólido, demonstra-se igualmente falho. No fim, resta a dúvida se houve real conversão ou se o derradeiro momento de sua morte não passou de senilidade, dado o testemunho que escrevera antes já para se resguardar de suas atitudes diante do medo do momento derradeiro de sua existência. Du Gard pretendia em suas obras ser fiel a vida de seus personagens. Enfeitá-los, amenizar seus vícios ou exaltar as virtudes dos homens que escreveu nunca foi um de seus objetivos, por ser um escritor crítico de si mesmo. Assim, as personalidades que criou têm biografias próprias. Em O Drama de Jean Barois, escrito em partes e diálogos, com recursos de uma peça de teatro, Du Gard explora a psicologia de um homem enquanto desenvolve uma trama cientificista através do uso de documentos oficiais do caso Dreyfus. A discussão sobre os livres-pensadores, que desafiavam e criticavam as regras, é um dos pontos fortes da obra. Camus, em uma análise da criação de Du Gard, diz: “sua obra é também a obra da dúvida, da razão decepcionada e perseverante, da ignorância reconhecida e da aposta do homem que não tem outro futuro senão ele mesmo”, razão pela qual a tornaria uma obra que pertence ao nosso tempo; para ele, Jean Barois seria o único grande romance da época cientificista. Camus nos diz ainda que em Du Gard falta a fé, e por esse motivo é que suas personagens não cedem, não se ajoelham a ideia de eternidade até o fim. Camus entende que o ponto central da obra de Du Gard seria: “a comunidade dos homens, que às vezes ajuda a viver, também pode ajudar a morrer?”. Ou seja, poderia alguma outra crença trazer o conforto que a religião traz diante da morte? Em suma, o romance trata em seu âmago da crise religiosa. Em contrapartida, evidencia que o homem ainda não obteve sucesso em substituir o elemento religioso, e que nessa caminhada elegeu outros ídolos para si, tão falhos quanto – a exemplo da ciência –, em uma quase necessidade de crer em algo. Em “O Drama de Jean Barois”, o autor explora a luta interna de um homem dominado por dúvidas em relação à fé, à ciência e à moralidade moderna. O personagem é pressionado por um cientificismo emergente e uma religião estática, questionando a possibilidade de coexistência entre fé e razão. Ao perder sua ligação com a religião e falhar na substituição pelo cientificismo, Barois expõe as limitações da modernidade em oferecer respostas existenciais definitivas, ressaltando a necessidade humana de crer, seja na fé ou na ciência. Du Gard cria, portanto, um retrato fiel de um homem dividido entre o desejo de certeza e a inevitabilidade da dúvida, tornando O Drama de Jean Barois uma reflexão sobre a fragilidade da fé, da ciência e do próprio sentido da existência na modernidade.



