História do Governo de Allende e seu trágico fim com o Fascismo de Pinochet
Dialética de uma derrota - Chile 1970/ 1973
Carlos Altamirano
Testemunho de um revolucionário
Carlos Altamirano é um ex-político chileno de longa trajetória parlamentar. Formado em Direito, foi deputado e senador e esteve presente nos momentos mais dramáticos da tão almejada revolução socialista em seu país, antes do golpe militar no Chile que instaurou uma sangrenta ditadura militar em 1973, comandada pelo general Augusto Pinochet. Dialética de uma derrota é, talvez, o resultado das experiências mais pulsantes que o autor vivenciou durante sua jornada. O livro apresenta duas grandes propriedades em sua composição: primeira, serve de testemunho histórico; segunda, serve também de um manual autocrítico para aqueles que pretendem reascender a chama da luta popular que por tantos anos incendiou multidões naquela época. Muitos capítulos são ensaiados para demonstrar as causas da derrocada revolucionária, entre elas os erros cometidos pelos dirigentes populares e a criminosa pressão norte-americana para não apenas desestabilizar o governo popular, mas destruí-lo a todo e a qualquer custo. Como meu interesse é mais historiográfico do que ideológico (embora nem sempre as duas coisas estejam separadas), encarei os registros de Altamirano mais como um documento histórico, o que de fato ele é, do que como um “manual de guerrilha”. Do ponto de vista documental, o livro é indiscutivelmente valoroso por expor as memórias de um ativista político que, hoje no auge de seus 94 anos de vida, viu de perto as contradições, as perversidades e as injustiças que assolavam o povo latino-americano. Qualquer leitor crítico, tanto de esquerda quanto de direita, poderia encarar algumas questões do livro de modo tendencioso e bastante controverso. Altamirano exprime sem titubear o marxismo-leninismo como pensamento hegemônico de esquerda, e o justifica como elo entre os movimentos anti-imperialistas que se alastraram no decorrer da Guerra Fria. No contexto chileno, ele fez parte da Unidade Popular, junção de dois grandes partidos esquerdistas chinelos, o Partido Comunista e o Partido Socialista, o marco histórico das lutas de classes que conferiu a Salvador Allende uma vitória eleitoral justa, livre e em respeito aos ditames constitucionais de seu país. Isso o levou a assumir posicionamentos muito favoráveis à política externa da União Soviética, principalmente por considerá-la a maior fonte de resistência contra o imperialismo norte-americano. Para o autor, os soviéticos prestaram um grande serviço ao socialismo internacional, e com isso eu não pude concordar, talvez por eu me identificar mais a correntes de esquerda não-marxistas, como o anarquismo e o socialismo libertário, que foram perseguidos e esmagados pelos bolcheviques antes e durante o regime totalitário de Josef Stálin. Com muitas ressalvas, a eclosão de movimentos anti-imperialistas na América Latina e em outras regiões ditas de Terceiro Mundo foi um fenômeno que de fato esteve na órbita do gigante russo, cujo apoio foi decisivo para a consolidação da Revolução Cubana. Não há dúvidas de que a América Latina se rebelou como um dos maiores desafios aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, tudo motivado por uma debutante unidade ideológica de esquerda que parecia se formar no Ocidente. O problema está na suposição implícita de que apenas os marxistas-leninistas fizeram oposição ao sistema de dominação norte-americano. Existiam inúmeros setores de esquerda que se opuseram aos EUA e à URSS, por julgarem ambas as nações como as maiores ameaças à liberdade, à democracia e à paz. Com isso não pretendo reproduzir a ideia tradicional, e também equivocada, de que os soviéticos ostentavam um arsenal militar e nuclear equivalente ao dos EUA, algo que não se sustenta ante a uma análise rigorosa dos fatos. Os Estados Unidos eram, sem a menor faísca de dúvida, a mais imponente superpotência econômica e militar do pós-Segunda Guerra, e há fortes evidências de que, enquanto os americanos se fortaleciam cada vez mais seus setores belicistas, os soviéticos declinavam. Mas o viés pró-URSS nem de longe representa um defeito do livro, que deve ser visto no contexto histórico de sua produção. Mesmo discordando de alguns argumentos, não escondo a profunda satisfação que senti ao ler todos os quinze capítulos tão diligentemente esmiuçados pelo autor. As menções ao então presidente Allende, aos discursos que ele pronunciou em denúncia contra os ataques perpetrados pelos EUA, dão nota de que Altamirano certamente tem muito a nos instruir sobre a guinada à esquerda que o mundo testemunhou no Chile e na América Latina. Discute-se, por exemplo, os obstáculos ao desenvolvimento social e econômico que a Unidade Popular encontrou ao assumir o governo, as ininterruptas tentativas de golpe orquestradas pela CIA, a reação da classe dominante e das Forças Armadas nacionais diante de um governo voltado às necessidades dos camponeses, do proletariado e dos grupos marginais, contrária aos anseios populares, e, o que não poderia faltar, a terrível ofensiva anticomunista dos EUA em todos nos países que tentavam afirmar sua própria autonomia e soberania nacional. Tais obstáculos não puderam ser superados porque, segundo Altamirano, o governo da Unidade Popular não investiu em uma política militar voltada às massas, tampouco se preocupou em reformular o quadro das Forças Armadas, substituindo o corpo militar reacionário por dirigentes progressistas. Se o governo popular conscientizasse a população acerca da ameaça fascista que rondava o processo revolucionário, seria possível elaborar um programa estratégico de defesa com o apoio do povo. Em resumo, Altamirano conclui que a revolução devia ser armada, não porque os revolucionários desejassem a violência, mas por falta de alternativas defensivas e por inteira escolha dos adversários. Afinal, essa concepção era respaldada por muitos marxistas fervorosos, que reconheciam a impossibilidade de as classes dominantes abdicarem de seus privilégios pacificamente. São tantos insights que não sei quantas linhas seriam necessárias para descrevê-los. No quinto capítulo, intitulado As difíceis camadas médias, é assustadora a precisão com que Altamirano expõe o perfil da classe média chilena e sua oposição a qualquer sinal de governo conduzido pelo proletariado: "Turbas de mulheres eram trazidas para as ruas. Senhoras bem alimentadas, vestidas de peles e jóias resplandecentes, saíam batendo panelas também resplandecentes". Panelaços parecem ser a arma mais mortal que a classe média, subordinada ao sistema ideológico dominante, consegue empregar na defesa dos interesses e do status dos ricos e poderosos. No Brasil o fenômeno é praticamente idêntico, com algumas sutis diferenças. Sei que Dialética de uma derrota, mais que uma mera apologia à revolução socialista chilena, é também uma voz de lamento aos fatores que conduziram o movimento popular ao fascismo de Pinochet. O fatídico 11 de setembro e o desfecho do terrível assassinato de Allende encerraram as persistentes tentativas de implantação de um governo popular orientado por vias pacíficas e constitucionais. Como esse processo teve início e fim é assunto que merece longas e acaloradas discussões.
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