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    Meu pai, minha mãe -

    Aharon Appelfeld

    Carambaia
    2019
    232 páginas
    7h 44m
    ISBN-13: 9788569002529
    Português Brasileiro
    4.5
    20 avaliações
    Leram26Lendo0Querem72Relendo0Abandonos1Resenhas1
    Favoritos3Desejados72Avaliaram20

    Memória e história se misturam e ao mesmo tempo se esquivam no relato semiautobiográfico Meu pai, minha mãe, de Aharon Appelfeld (1932-2018), lançamento do selo Ilimitada da Carambaia. O romance, originalmente publicado em 2013, é uma das últimas obras do escritor que integra a linha de frente da moderna literatura israelense – ao lado de nomes como Amos Oz e David Grossman. Por seu estilo original e pela abordagem oblíqua dos temas fundamentais do judaísmo nos séculos XX e XXI, Appelfeld ocupa um lugar único entre seus contemporâneos. O romancista Philip Roth, um de seus maiores admiradores e corresponsável pela publicação de seus livros nos Estados Unidos, o definiu como “um autor deslocado de obras deslocadas, que soube se apossar de modo inconfundível do tema da desorientação”. Appelfeld filtra com sua história pessoal a diáspora judaica, a perseguição nazista e a fundação de Israel – história marcada, aos 8 anos, pelo assassinato da mãe seguido de uma fuga que o levou a se juntar a um bando de ladrões de cavalos e ao trabalho como serviçal de uma prostituta, até chegar à Palestina, dois anos antes da criação de Israel, sem família e sem idioma. Meu pai, minha mãe retoma uma fase anterior, idílica mas assombrada pelo medo, da infância do escritor. O livro se passa em 1938 e narra o mês de veraneio de uma família da burguesia judaica às margens do rio Pruth, numa região que havia sido alguns anos antes parte do Império Austro-Húngaro. Pai, mãe e um filho de exatos 10 anos e 7 meses, chamado Erwin (nome de batismo do escritor), atravessam seus dias entre horas dedicadas à natação e o convívio com outros judeus em férias. São momentos de tranquilidade, em que a iminência de uma guerra e do acirramento da violência contra os judeus é insistentemente subestimada. Num dado momento a mãe de Erwin desabafa: “Tenho que admitir que não estou satisfeita com o fato de ser judia. Não sei o que há de bom nessa coisa supérflua que há em mim”. Essa “coisa supérflua”, no entanto, está na essência da memória reelaborada por Appelfeld. Pelos olhos do menino, o leitor conhecerá um pai esportista, cético e racional em confronto sutil com a mãe flexível e inquiridora. Outros personagens frequentam o cenário: um homem diabético que teve sua perna amputada, uma bela garota desiludida amorosamente, um médico abnegado, uma vidente, um escritor às voltas com as exigências do ofício, um ex-socorrista do exército, uma senhora que na juventude desprezou o cortejo de um príncipe. O exercício de perscrutar e refazer memórias e o reforço das características econômicas do idioma hebraico trazem à literatura de Appelfeld seus traços únicos. O tradutor e autor do posfácio da edição da Carambaia, Luis S. Krausz, professor de literatura hebraica e judaica da Universidade de São Paulo, descreve a maestria do escritor: “Seu estilo é sempre marcado pela sutileza, pela reticência e estabelece com o leitor um jogo tácito, já que este sabe de coisas que os personagens ignoram. Dessa forma, a literatura de Appelfeld torna-se, também, uma história da catástrofe narrada pelo avesso. Ele fala do genocídio justamente ao não falar do genocídio”. Aharon Appelfeld nasceu nos arredores de Czernowitz, hoje na Ucrânia e então na Romênia. Seu pai era industrial, e a família fazia questão de falar alemão em vez do ídiche utilizado pelos judeus mais pobres. Quando os soldados alemães chegaram à cidade, mataram centenas de judeus, entre eles a mãe de Appelfeld. Ele e o pai foram levados a um campo de trabalhos forçados, do qual o escritor conseguiu fugir para as florestas da Ucrânia, sempre escondendo o fato de ser judeu, o que poderia lhe custar a vida. Com a libertação, Appelfeld, aos 12 anos, juntou-se ao exército russo, trabalhando em cozinhas de campanha. Com o fim da guerra, viajou para um campo de refugiados na Itália e de lá rumou para a Palestina. Aos 17 anos, ingressou no exército israelense, quando começou a estudar literatura e filosofia, tentando, como declarou depois, encontrar a si mesmo. O esforço foi acompanhado pelo estudo do hebraico, totalmente desconhecido até sua chegada. A capa da edição da Carambaia, desenhada por Daniel Justi, faz referência a esses anos, misturando caracteres latinos e hebraicos. O primeiro livro de Appelfeld, Ashan (Fumaça), foi publicado em 1962, e seguiram-se mais de quarenta títulos, entre eles Badenheim 1939 (1975), Volta ao anoitecer (1996) e Expedição ao inverno (2000). O escritor recebeu prêmios em todo o mundo e é um sucesso de vendas em Israel, embora tenha observado que seus leitores não são os sobreviventes do Holocausto, mas seus filhos. Appelfeld também aparece como personagem do romance Operação Shylock, de Philip Roth.

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    Denise Maria Souza João04/03/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Aharon Appelfeld foi um sobrevivente do Holocausto. Ele nasceu numa região que pertencia ao Reino da Romênia, hoje Ucrânia. Sua história de sobrevivência durante a guerra é incrível. Em 1941, quando o exército romeno retomou sua cidade natal após um ano de ocupação soviética, sua mãe foi assassinada. Appelfeld tinha oito anos. Ele e o pai foram enviados a um campo de trabalhos forçados na Transnístria (hoje um estado separatista da Moldávia). O menino fugiu e se escondeu nas florestas da Ucrânia. Após um tempo sozinho, ele foi “recrutado” por ladrões de cavalos ucranianos, foi serviçal de uma prostituta e juntou-se ao Exército Vermelho como cozinheiro. Após a guerra, passou alguns meses em um campo de refugiados na Itália, até imigrar para a Palestina em 1946, dois anos antes da independência de Israel. Só então Aharon aprendeu hebraico, que ele chamou de língua-madrasta, que é a língua que usou para escrever seus livros. Em 1960, ele achou o nome de seu pai numa lista de sobreviventes da Agência Judaica. O encontro foi tão emocionante que Appelfeld nunca conseguiu escrever a respeito. Toda a literatura de Aharon Appelfeld foi baseada em suas experiências, mas segundo o próprio, ele não escrevia memórias. Neste Meu Pai, minha Mãe, ele traz lembranças da infância e de pessoas que conheceu, mas sem se ater rigorosamente a fatos. Por exemplo, o narrador, Erwin (nome de registro do escritor), tem, nesta narrativa pré-guerra, exatos 10 anos e 7 meses. No início a guerra, em 1939, Appelfeld tinha sete anos. O ano é 1938. Pai, mãe (não nominados) e Erwin estão passando um mês das férias de verão às margens do rio Pruth, numa cabana que alugam todos os anos de um camponês local. Em meio à natureza deslumbrante, com uma horta à disposição e a companhia de outros judeus, eles se bronzeiam, nadam, leem e descansam. Os personagens são peculiares: as jovens esbeltas, o escritor, o homem que teve a perna amputada, o médico altruísta, a vidente, a bela alcoólatra, o ex-socorrista do exército... todos aproveitando uns dias de descanso sem se preocupar com a iminência da guerra. “Só a burguesia judaica é capaz de se dar ao luxo de um mês de férias em meio a esse panorama pastoral, aos pés dos montes Cárpatos.” - pág. 9 O pai é um industrial, prático, sarcástico e esportista, que despreza muitos dos personagens à sua volta; a mãe é empática, interessada e ótima nadadora, sempre aberta ao contato com outros seres humanos. Eles falam alemão e não iídiche, como os judeus pobres e em tudo se sentem modernos europeus, sem grandes ligações com o judaísmo, embora a mãe ainda faça suas orações e os pais dela frequentem a sinagoga. Mãe: “Tenho que admitir que não estou satisfeita com o fato de ser judia. Não sei o que há de bom nessa coisa supérflua que há em mim.” Pai: “Não nego que sou judeu, mas tampouco me orgulho disso. O que as pessoas dizem a meu respeito não me interessa. Eu me esforço para ser decente e digno do respeito dos outros.” Nestes dias de idílio junto ao rio, o que fica mais evidente é o quanto os judeus subestimam os perigos que estão por vir. Mesmo nas cidades, conforme uma carta que a mãe recebe de uma amiga: “A cidade está tumultuada. O tráfico dos bondes está irregular e as pessoas preferem ir a pé. Por causa de tantos pedestres, a cidade está apinhada. Todos se perguntam se o ano escolar vai começar na data prevista. Não faltam boatos, mas nos cafés continuam a servir café e bolo, e eu digo a mim mesma que, enquanto estiverem servindo café e bolo, isso é um sinal de que a vida continua a correr em ordem. Esperemos que as previsões sombrias passem e que continuemos a viver nossa vida.” - pág. 139 Não é uma narrativa que tenha me conquistado plenamente por si só, mas por saber da história do autor, muito do que foi retratado no livro fez muito mais sentido pra mim. Luis S. Krausz, o tradutor desta edição, esteve em Israel e entrevistou Aharon Appelfeld pouco antes de sua morte e a entrevista pode ser lida nos Cadernos de Língua e Literatura Hebraica do Portal de Revistas da USP.

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    Aharon Appelfeld

    Nasceu em 1932 na cidade chamada Zhadova or Sadhora, agora fazendo parte de Czernowitz, na região de Bucovina, que já foi Moldávia, depois Romênia, e finalmente agora fazendo parte da Ucrânia. Seus pais o criaram como um menino da classe média alta, falando perfeitamente alemão e romeno. De repente, o mundo desabou. Perdeu todas as referências familiares, juntou-se mais tarde ao Exército russo como ajudante de cozinha, passou por um campo de refugiados na Itália, até chegar a Israel, que é para onde foi decidido que ele iria. Chegou à Palestina sem falar uma única palavra em hebraico, só conseguia se comunicar em alemão. No início sofreu rejeição. Então o aconselharam a se alistar no Exército de Israel, como forma de aprender rapidamente a língua e adquirir alguma profissão. Depois constituiu família e tornou-se um escritor de enorme sucesso.

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    Bucovina, Romenia

    Aharon Appelfeld