Os dias da crise -

    Jerônimo Teixeira

    Companhia das Letras
    2019
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-13: 9788535932348
    Português Brasileiro

    Com as manifestações de 2013 como pano de fundo, o romance de Jerônimo Teixeira tece uma sátira poderosa do mundo corporativo ao mesmo tempo em que reflete sobre os momentos iniciais da grave crise que abateria o país. O ano é 2013. Protestos eclodem em vários pontos do país. Quais eram as primeiras reivindicações? No que elas se transformaram? Entender o que aconteceu naquele ano parece ser a chave para entender os eventos desencadeados em seguida. Descortinando contradições e relações que apenas a ficção pode detectar, Os dias da crise nos dá um vislumbre do que foi posto em marcha naquele 2013 que já parece distante. Faz isso pelos olhos de Alexandre Barbosa, um personagem que luta para conter o próprio cinismo ao mesmo tempo em que reafirma certa independência em relação aos grupos em conflito. Ligado ao mundo corporativo, o que Alexandre pretende é relatar a própria derrocada, além do princípio de uma crise que também é econômica. Tanto quanto uma leitura instigante, o romance de Jerônimo Teixeira desnuda o vazio do discurso político de tantos atores da comédia brasileira e oferece uma visão nítida de uma época turbulenta.

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    Tiago Germano08/05/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma crise narrativa

    A literatura é provavelmente a arte mais lenta a representar o zeitgeist. Se, por um lado, há nesta lentidão a preguiça de autores notoriamente dissociados de sua realidade, há também nela a paciência de um registro que sempre se revelou o mais fértil e perene de sua época. Aos poucos, a literatura brasileira contemporânea começa a se abastecer das narrativas que ainda permeiam o nosso conturbado cenário político, desde 2013, para nos fornecer um ordenamento simbólico a este caos que por vezes até flerta com o domínio da ficção. Os Dias da Crise, romance de Jerônimo Teixeira, tem essa proposta. O livro parte um elemento que talvez já possa ser chamado de lugar comum em títulos que também tentam dar conta deste mesmo período (tomemos os casos de Reprodução, de Bernardo Carvalho, ou de A Tirania do Amor, de Cristovão Tezza): um protagonista oriundo do ambiente corporativo, às voltas com forças históricas cada vez menos invisíveis, a exemplo da mão do mercado e dos braços dos movimentos sociais. No caso de Alexandre, narrador da obra de Teixeira, o que distingue sua voz é o registro bem calibrado do cinismo: ao passo que se relaciona com um grupo de aspirações intelectuais e fundo puramente machista, reunido em torno da obra do filósofo John Teufelsdröckh (outro clichê destas narrativas: o guru com um discurso filosófico muito próximo ao charlatanismo), sua namorada é uma professora da USP, feminista e ideologicamente identificada com as correntes de esquerda. Teixeira resiste à tentação da caricatura, oferecida pelas figuras que vão surgindo no trânsito de Alexandre por estes dois universos- os núcleos criados ao redor de Helena (a namorada) e da confraria de amigos. De um início insosso, em que acompanhamos o potencial (e previsível) confronto destes dois mundos, o romance evolui justo no estopim das manifestações de 2013, quando Alexandre, ciente do seu oportunismo histórico, mas sem muita mea culpa, analisa sua participação tangencial nelas e os eventos direta ou indiretamente decorrentes delas- no âmbito familiar, afetivo e sobretudo profissional (a cena final na empresa é extremamente simbólica e até mais climática, narrativamente, que a própria cena da manifestação nas ruas de São Paulo). Ao fim, o cinismo de Alexandre é a única saída que faz de sua isenção um ingrediente mais empático que antipático nesta história — o que não deixa de ser um traço também da crise que se trata aqui: uma crise, por que não?, narrativa, quando contada por mãos hábeis que conseguirão parecer limpas até depois de enfiadas em toda a sujeira desses nossos dias.

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