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    Um quarto na Holanda -

    Pierre Bergounioux

    Nós
    2017
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788569020080
    Português Brasileiro
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    Logo no início de Um quarto na Holanda, Pierre Bergounioux, escritor e ensaísta francês, louva a concisão do latim para expandir a brevidade do tempo da ação. Neste ensaio fascinante, antes de chegar ao seu objeto principal, o autor procede de maneira ainda mais desafiadora: ele consegue a compressão, em poucas páginas, de mil e quinhentos anos da história europeia enumerando, com graça e leveza, as nuances e diferenças da evolução política entre seus povos (alemães, ingleses, italianos, espanhóis e, claro, franceses) desde a invasão da Gália por César. Quando o leitor chega ao convulsionado século XVII, a era em que a racionalidade burguesa, o despertar do eu e o processo de meditar e conhecer começam a mostrar suas ambições, ele já tomou conhecimento, embevecido, desde os rituais exigidos pelos sanguinários deuses celtas até a teoria política de Montesquieu sobre a latitude. Bergounioux não foi professor a vida inteira em vão, pois sua didática erudição jamais é intimidante. Assim se chega ao exame da inquietude interior de René Descartes, ele que é ‘uma coisa que pensa, um entendimento, uma razão’, a partir da época do internato com os jesuítas, onde já ficava na cama a pensar e existir até o meio-dia, exceto quando o tutor mandava chamá-lo para resolver algum problema matemático aparentemente insolúvel. Como Bergounioux é também um grande escritor, a vida de Descartes é desvelada com tintas novelescas, a reverberar o Dom Quixote, escrito poucos anos antes, romance que por contraste havia nos revelado a primazia do bom senso. É impossível não se apaixonar pelo personagem Descartes. Viajamos junto com sua mania itinerante pela Itália, por Paris, pela Alemanha, admirando sua impetuosidade de conhecer o livro do mundo. Engaja-se nas tropas de Maurício de Nassau, no exército do Duque da Baviera. Para onde René Descartes deveria ir depois de ser convencido de ter descoberto um método infalível de busca da verdade, a importância da dúvida em um sistema capaz de harmonizar a coisa e a ideia? A Alemanha, onde ele teve seus famosos sonhos aos vinte e poucos anos, estava imersa em intermináveis guerras; a Itália é muito quente para a sua frágil saúde; a França, leia-se Paris, tem agitada vida social, ‘literária’ demais. Onde este pensador apaixonado, que seria o responsável (ao lado de Pascal, seu admirador) por, pela primeira vez, ter colocado a filosofia francesa no patamar da alemã, teria paz para transformar sua essência do pensar em um sistema de conhecimento impessoal das coisas? Por que ele escolheu a Holanda? Por que Descartes passaria os últimos 20 anos de sua vida em várias cidades daquele país, produzindo praticamente toda a sua influente obra, sem jamais deixar para o antigo círculo de amigos o endereço para correspondência? Bem, para saber isso, você terá de ler Um quarto na Holanda. Serão, certamente, horas de grande deleite, uma prazerosa imersão no viés racional da aventura europeia.

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    Pierre Bergounioux

    Pierre Bergounioux (Brive-la-Gaillarde, 1949) é um escritor francês. Sua obra abundante, de inspiração autobiográfica, se lê como um único grande livro, retomando sem cessar os mesmos motivos a fim de delimitar, com muita paciência, o único objeto de suas preocupações :o da existência submissa ao infatigável trabalho do tempo. Marcada por William Faulkner e as profundas perturbações provocadas pelo escritor americano na escritura romanesca, a obra de Pierre Bergounioux é proxima das de Claude Simon e de Pierre Michon. Antigo aluno da Escola Normal Superior de Saint-Cloud, substituto de catedrático de letras modernas, laureado com o Prêmio Alain-Fournier, ocasionalmente crítico literário. e também escultor, professor, militante de esquerda, pai de família, pescador de trutas e de grandes livros, Pierre Bergounioux reparte sua vida entre as solidões luminosas da Haute-Corrèze e dias austeros, laboriosos, constrangidos, no subúrbio parisiense. Após haver passado o essencial de sua carreira ensinando no colégio, Pierre Bergounioux começou a dar aulas na Escola de Belas-Artes de Paris. Sustentados por um estilo poético esculpido de maneira notável, seus livros pretendem esclarecer a questão dolorosa das origens do desarraigamento, não somente geográfico mas também ontológico. A obra de Bergounioux procura exceder a ruptura que existe entre a infância e a idade adulta; ou seja, o conhecimento de sua própria ignorância e o absurdo do mundo. Como William Faulkner, a quem ele dedica um livro e alguns artigos, "entre a tristeza e o nada, [ele] escolheu a tristeza". Ao mesmo tempo, Pierre Bergounioux exprimiu seu ponto de vista sobre a escola num livro de entrevistas publicado em outubro de 2006, livro que ele intitulou, de maneira irônica, Escola: missão realizada. Ele faz a constatação amarga do fracasso do colégio único, cujo funcionamento não somente não reduz as desigualdades, mas aumenta a humilhação dos alunos mais fracos e o pressentimeno que têm da inferioridaade de sua condição social. « A única maneira de não ser violento com as crianças seria de julgá-las em relação a elas mesmas, avaliando a distância que percorreram entre o momento em que as encontrámos ao sairem do meio familiar e o momento em que se instruiram a partir de nosso ensino. Mas isto equivaleria a reconhecer publicamente a injustiça de nossa sociedade e de tirar as consequências que são nada mais nada menos revolucionárias. E nunca estivemos tão longe de fazer isto.» Pierre Bergounioux desempenha seu próprio papel no filme Notre musique (Nossa música] (2004) de Jean-Luc Godard. É irmão do escritor e professor Gabriel Bergounioux.

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