É difícil escrever sobre o livro "Botchan" sem antes trazer alguns dados biográficos do autor da obra, pois muitas das coisas contidas nessa pequena novela foram baseadas na vida pessoal de Natsume Soseki.
Soseki (1867-1916) nasceu em Edo, atualmente Tóquio, vindo de família nobre. No entanto, sua infância e adolescência foram difíceis, logo ao nascer foi entregue para viver com outra família, e quando completou 9 anos de idade retornou aos cuidados da família de nascimento, porém sua mãe faleceu e seu pai o rejeitou.
Aos 23 anos Soseki começa a cursar literatura inglesa na universidade, e muito cedo começa a lecionar, porém sofre diversas crises nervosas e acaba por abandonar a cátedra. É enviado à Europa para estudar mais profundamente a cultura literária inglesa, porém não consegue se adaptar ao modo de vida ocidental e novamente sofre uma crise nervosa. Ao retornar decide lecionar em uma escola do interior do Japão, até que finalmente passou a viver inteiramente da criação literária.
É importante considerar que a época na qual Soseki viveu, uma série de mudanças estavam ocorrendo na cultura e na sociedade japonesa. O autor viveu na chamada era Meiji, uma era marcada pela industrialização e modernização do Japão. O processo de modernização, seguido da influência ocidental, acabou por minar as bases imperiais que vigoravam na sociedade de então. Como resultado, a corrosão dos valores tradicionais passa a ser retratada na produção literária da época. Esse mal-estar está constantemente presente na obra literária de Soseki, que retrata muitas vezes, situações de conflito entre o individualismo trazido pela influência ocidental e os valores tradicionais, bases de uma coletividade orientada ainda pelos moldes imperiais.
O livro "Botchan" é escrito em primeira pessoa, como se fossem uma série de diários escritos pelo personagem que leva o mesmo nome do livro. Botchan é um jovem rebelde e indolente, visto por seus professores, familiares e colegas como um grande encrenqueiro e um perdido na vida. Porém, como todo ser humano, chega o momento de Botchan amadurecer e buscar um ofício, sendo assim, o jovem decide ingressar na universidade para formar-se professor de física.
Logo após graduar-se, Botchan, recebe uma proposta de trabalho em uma escola localizada em um ilha distante de Tóquio, cidade pequena e rural, cuja população ainda era orientada por valores imperiais.
Logo ao desembarcar na pequena ilha, Botchan considera que não haverá grandes dificuldades em sua tarefa de lecionar, já que trata-se de uma cidade provinciana com uma população pacata e simples.
Acontece que as coisas não ocorreram tão bem assim, e gradualmente Botchan começa a perceber as futilidades que permeiam a vida provinciana. Sofre com a vigilância dos professores, alunos e demais moradores da cidade, que para tudo têm alguma regra de ouro.
Ao perceberem que o jovem professor mantém seus velhos costumes da capital, os moradores da cidade logo começam a tornar a vida do jovem um verdadeiro inferno, consequentemente seus alunos não o respeitam e os demais professores consideram-no um néscio.
Botchan não consegue entender os valores que orientam a vida na província (resquícios do velho Japão imperial), busca viver de forma livre e despreocupada, usufruindo dos prazeres comuns da vida na cidade grande. O jovem professor então começa a perceber a hipocrisia dos habitantes da ilha, e tudo é uma questão de tempo para que o confronto final se realize. A questão é: continuará Botchan a viver uma vida provinciana, ou abandonará o projeto para voltar à barulhenta Tóquio?
Trata-se de uma leitura leve e muito divertida, pois apesar da temática densa, o tom cômico da obra torna a leitura muito agradável e prazerosa. É possível dizer que a obra também é construída nos moldes de um romance de formação, já que acompanhamos parte da infância do personagem, até o desenrolar de sua vida adulta e a gradual perda da sua ingenuidade.
Nenhuma outra obra literária foi capaz de trazer de forma tão descontraída e engraçada, os desafios do trabalho de lecionar.