O encontro do material e imaterial desde o título descortina ao leitor os ares deste Aurora de cedro: Tito Leite celebra o sentir, disseca o etéreo, aborda os desequilíbrios sociais. Percorre as belezas e ausências do mundo e sabe capturar sua simplicidade por meio da contemplação como poucos. Nesta obra “marcada pela inquietação”, como destaca Cinthia Kriemler, Tito Leite se demonstra um pensador obstinado que “reflete sobre tudo o que dilacera o humano”.
Aurora de cedro -
Tito Leite
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Ver maisO social, o poético e o sagrado em “Aurora de cedro, livro do monge beneditino Tito Leite
O ser humano sempre a surpreender. O que se poderia esperar de um poeta que é também mestre em Filosofia e monge beneditino? Um tratado de filosofia ou uma cantilena religiosa? Não é o que encontramos no segundo livro do escritor Tito Leite que, para além de unir vertentes filosóficas ou religiosas em sua poética, vai além, porque consciente de que a palavra consiste no instrumento através do qual o próprio “eu” forceja para comunicar-se debruçando-se sobre si próprio. O autor adota uma atitude contemplativa ante o mundo que o cerca, em perfeita sintonia e em analogia, com ampla visão filosófica. Em “Aurora de cedro”, estão reunidos 51 poemas divididos em 5 blocos mais ou menos temáticos. Com grata surpresa lemos o filósofo partindo de ideias humanas e abstratas rumo àquele infinito que costumamos nomear de Deus. Alguns poemas refletem ideias particulares e/ou subjetivas, que em certo sentido, se afiguram universais e verdadeiras; uma verdade e uma universalidade que podemos qualificar como a do subjetivo. Em suma, aquilo que todos sentimos na poesia, embora por vezes nos faltem palavras para caracterizar isto mais claramente em nossas cabecinhas. O objetivo verdadeiro da poesia é o reino infinito do espírito humano, ou alma, ou sopro de vida, como queiram. O mundo exterior aparece nos poemas de forma interiorizada no sentido do que afeta diretamente a sensibilidade do poeta e então, a carga do “não-eu” surge sob um processo de transformação provocado pelas vivências em nosso mundo que anda extremamente desumano e cruel, em franca involução de valores, mesmo em que pese o fenomenal avanço tecnológico. O autor soube fazer com que o seu mundo interior, o seu “eu-profundo”, ultrapassasse o plano da consciência e da inteligência discursiva, (embora integrando-o em sua essência), e mergulhou no caótico, no vago, onde se depositam as vivências decorrentes do contato com o mundo exterior transfiguradas pela imaginação. Respaldamos as observações acima com mais certeza, quando encontramos como epígrafe de um dos capítulos da obra (O absurdo é delicado), os versos de Herberto Helder: “Um poema cresce inseguramente / na confusão da carne, / sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, / talvez como sangue / ou sombra de sangue pelos canais do ser”. E dos canais de seu ser, Tito Leite nos brinda com poemas fortes, incisivos, senão vejamos. Poema “Estado de exceção”. “1 - O mal mensurado / é a nova oficina / de linguagem. // A carnificina / se repete // e o mesmo / filme é censurado. 2 - Alteridade em holocausto / ópio em significado. // Medo de olhos eletrônicos: / um imigrante dizimado // em mísseis teleguiados / sem o outro sagrado.” No Poema “Showroom”, a constatação de nossa miséria social em que o ser acaba por se entregar ao destino sórdido que a sociedade de consumo condena. O shopping era sofisticado: / fedia / a showroom de automóvel. // Água suja descida da escória. / Um homem / apodrecia em inverno. // Não nadava na direção / contrária: / buscava um lugar no inferno.” Por outro lado, em certos poemas, observamos um amalgama de aceitação e rejeição dos moldes de comportamento determinados pelo social, que se opõem ao afinado sentido ético que o homem, (não o religioso, ou o filósofo propriamente), incorporou em si. A visada da “resistência” a esse ‘estado de coisas’ terrível que vivemos: Poema “Misere nobis”. “No gueto / chuva de anjos / caídos. // O telejornal toca / o contrabaixo do apocalipse. // Cigarras bailam / na descontente / garganta do caos. // Poetas procuram / o melhor / atentado. // Matar / as harpias / que molestam / a alma. // A resistência / é um gato branco / numa noite de blecaute. // Muito pastores / um só holocausto: / Deus nos salve de Deus.” O autor deixa transparecer em sua poesia a expressão do “eu” pela palavra metafórica, o que vale dizer, permanente substituição, ambiguidade, dar a entender. Não o termo direto, a palavra de sentido único e preciso. A palavra, implicada nas metáforas de que o autor se vale sem economias, lembra o que ficou dentro do poeta, e lembra-o com todos os seus pesos e camadas de significação. A esse propósito, importa referir o que aponta a crítica literária Alexandra Vieira de Almeida, em resenha sobre a obra. Observa ela muito acertadamente, que “é recorrente na poesia de Tito Leite a utilização das metáforas mais ricas e originais, mapeando uma floresta de símbolos que percorrem os labirintos inusitados da literariedade. Sua poesia é plena na sua convivência implícita com as palavras energizadas pelo poético no seu tom mais alto e dinâmico. Mas suas metáforas não vivem em castelos sublimes de cristal, longe dos sussurros e gritos do real. Suas imagens se inundam na esperança de uma sociedade mais justa.”. O que dizer de um poema como “Ninharia”? “Não adianta / esmola, / todos cobram / a sua paga: // a flor, em amor, / o santo, / em chagas. // Não fomos educados / na escola / da graça. // Por que do pouco / que ganhamos / quase tudo / é arrancado?” Nos versos dos poemas de “Aurora de cedro” as palavras perdem sua roupagem gramatical e lógica, perdem suas denotações de dicionário, para serem sinais de um farol em plena bruma. A palavra poética, ou melhor, a metáfora assim compreendida, acaba desincorporando aderências provenientes de seu emprego convencional e adquirindo características de linguagem cifrada com múltiplos significados. Fica a pergunta mais uma vez: Por que do pouco que ganhamos quase tudo é arrancado? Nossas consciências respondem a isto? Não? Vejamos outro exemplo no qual a palavra poética reduz seus componentes primários (sons) e suas relações sinestéticas (associação de palavras ou de expressões quando combina várias e diferentes sensações humanas, numa só representação), ou ainda as significações irracionais, mágicas, oníricas etc., ou pode, concomitantemente, com essas reduções, ganhar a precisão expressiva que o poeta deseja. Muito próxima no poema abaixo da linguagem filosófica. Poema “Paisagens”. “Festa do Buda: / o gato toma saquê / e foge da contemplação. // O mundo morde / e não sente as cinco estações. // Distante do mercado, / seria o corvo / um ermitão? // Asas de papoulas lembram / pétalas de borboletas. // Vão-se as cerejeiras / e fica o haicai. / Flor de túmulo: as lágrimas / de quem parte.” Aí temos o poeta, filósofo e monge a brandir a sua bela poesia na qual soube imprimir ritmo, e uma seqüência ao mesmo tempo musical, semântica e emotiva que traduz não somente o seu mundo interior. Possui ritmo próprio, nascido da conjugação de movimentos desencontrados, mas que formam em seu conjunto uma unidade perfeita, obediente a uma sucessividade permanentemente coesa. Com efeito, o mundo da alma do poeta repete o ritmo cósmico, feito do jogo dos contrários, numa harmonia bastante perceptível em sua síntese, não em seus pormenores. “Manifesto poético”, que é profundamente filosófico, de uma filosofia que rompe sobretudo com sectarismos religiosos nos diz: “No poema / estrondeia / uma guerra. // Anjos de todos / os verbos, uni-vos / com os poetas. // Na fertilidade / do vácuo, quebrai ossos / de moinhos / a diesel.” Nesse espírito de união de “anjos de todos os verbos”, lembramos que a escritora Cinthia Kriemler afirmou nas orelhas da obra, que o autor se afigura como “um pensador obstinado. Que reflete sobre tudo o que dilacera o humano. Sobre o amor na amplitude da sua concepção e dos seus desdobramentos. Sobre o devir poético. Sobre a pulsão de vida e a pulsão de morte que se alternam na existência.” Com efeito. Poema “O cuidado em si”. “no ermo revolto / de cada homem, a transcendência / do fogo. // Pegar / a alma pelas mãos / e retirar / o mal das entranhas: // qual uma camisa de força / que sobrevive / à escura nau dos loucos / e banha a cidade.” Uma poesia assim, plasmada em elementos da filosofia humana, de um sentido imanente da eternidade (Deus) e que se abre às portas da intuição (faculdade da qual nunca deviríamos ter-nos afastado) é a que pratica o autor. André Luiz Pinto que assina o Prefácio do livro, em alusão aos significados que o título pode assumir, pondera que o cedro é, portanto, uma resistência, garantia de que a aurora continue, apesar dos percalços. É o que se espera de uma aurora, que ela seja de cedro, que suporte as agruras do dia que ela mesma, a aurora, anuncia." Uma aurora positivamente alvissareira se inaugura na poesia desse monge beneditino. Aleluia! Caminhamos. Poema “Eternidade” . “A poesia é avis rara / num mundo raso. // A dúvida faz parte / de cada bago do poema. // O poeta trucida / o coloquial e seus oficiais. // Se o ofício do dia / é um batismo de sangue, // ele não teme as flores / dementes. // Se a lógica dos abrutes / aponta para o óbvio, // o poeta agarra-se / ao mito que nunca morre.” Livro: “Aurora de cedro” – Poesias de Tito Leite, Editora 7letras Rio de Janeiro - RJ , 2019 , 86p. ISBN 978-85-421-0766-1 Link para compra e pronto envio: http://www.7letras.com.br/aurora-de-cedro.html
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