Sertões mais ao sul - Romance histórico-poético

    Filipe Moreau

    Editora Laranja Original
    2019
    576 páginas
    19h 12m
    ISBN-13: 9788592875527
    Português Brasileiro

    As histórias dentro da História que compõe o período brasileiro marcado ainda pela Colônia, e que se desenrola para a República. Conta principalmente a história de Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos, em seus relacionamentos amorosos, abordando também a Independência e a Revolução Liberal de 1842. Fala, portanto, de amor e guerra, os dois temas mais explorados de toda a literatura. Que personagens 'reais' vemos transitar por esses tempos? O que há de humano e visceral por trás de feitos e ocasiões que marcaram o rumo de nossa História? Talvez a História não tanto da forma como a aprendemos... Quais são, verdadeiramente, os fatos que levaram a nossa Independência? À proclamação da República? A escrita de Filipe Moreau tem o ritmo dos acontecimentos através dos tempos. Que emergem por meio de documentos, cartas, registros de historiadores. E vez ou outra voltam, de revés, a explicar algum passado incompreendido, escondido. Este é um romance construído há muito tempo, desvendado com maestria (e boas doses de humor!) através de narradores – não apenas oniscientes, mas também 'onipresentes' – que nos colocam no lugar de observadores capazes de ver passar por nossas retinas aquilo que o tempo não leva, como fosse possível – e é – retroceder o pulsar da vida ao nos revelar personagens que atuaram diretamente nas rotas que nos colocam hoje, assim, a contemplá-los.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos02/06/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A história de um grande amor sob um viés poético

    O romance histórico-poético “Sertões mais ao sul” do escritor e editor Filipe Moreau tem como pano de fundo os acontecimentos políticos de um dos períodos mais conturbados de nossa história que se inicia com a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e segue para além da Independência. Na abertura da obra já se delineia a linha ficcional adotada, na qual, um fantástico absoluto se impõe enfeixando a trama. Somos apresentados de chofre a um narrador insólito: “Eu, gavião, sobrevoo isso tudo e passo a contar a história do meu jeito, porque não há versão verdadeira sobre o que houve, em meio a tudo que se ouve, nem nunca haverá... Mas se assim me foi dada um dia essa visão para compreendê-la, passá-la adiante aos que por ventura se interessem, é o que também me é de direito. E só lhes peço que deixem de lado qualquer aprendizado que se pretenda ter por esta aventura de lê-la, a história aqui fabricada... Eu, gavião – sim sou eu, a ave que voa e apenas observa do alto as histórias, - já sinto que agora é preciso passar a outros bichos o fio narrativo desta vã meada.” Tal discurso narrativo inicial não oculta todavia, um fato que vale referir. Os que conhecem razoavelmente a dita história do Brasil hão de notar na tessitura do texto um cuidado de pesquisador experiente. O autor não deixa pontas soltas na narrativa, pesquisa, explora documentos, cartas, memórias e busca nexos e explicações bastante plausíveis para alguns lances obscuros de nossa história, propositadamente relegados ao esquecimento. Acrescentamos, aliás, que Filipe Moreau é autor também de “Arquitetura militar em Salvador da Bahia – Séculos XVI a XVIII” um alentado estudo - e sua tese de Mestrado, sobre a história de nosso urbanismo colonial. Registre-se ainda que o competente projeto gráfico de Yves Ribeiro para esta edição, contemplando as belíssimas fotografias de Edu Mello e Valderez Casella Frota são um atrativo à parte que operam um diálogo visual com o texto enfatizando situações e acontecimentos. O prólogo do romance envereda ainda por considerações de caráter filosófico sobre a época e os costumes em que transcorrerá a narrativa e termina, ou melhore inicia-se a narrativa propriamente dita, com o nascimento de “Rafael, Domitila e Pedro”, que respectivamente passarão à história brasileira como: o brigadeiro e político Rafael Tobias de Aguiar (1794–1857), que exerceu o cargo de Presidente da Província de São Paulo por duas gestões e foi eleito deputado provincial por São Paulo. Domitila de Castro Canto e Mello (1797 —1867), uma nobre brasileira, a famosa Marquesa de Santos e finalmente, Dom Pedro de Alcântara (1798–1834), o nosso imperador, também conhecido como “Peu”, ou o “Demonão”. Observe-se que as datas de nascimento desses personagens (muito próximas entre si) são costuradas na narrativa, com os acontecimentos históricos que envolvem Portugal e o Brasil até o momento em que seus destinos se cruzam e entrelaçam. Assim, lemos o desfilar de acontecimentos narrados por diversos atores, e abordados de maneira leve porém com reflexões e esclarecimentos sobre o que está em vias de acontecer num futuro próximo, ou mesmo distante. Neste diálogo entre o passado e o presente da narrativa (século XIX), vamos considerando aspectos que abordam a problemática brasileira do ponto de vista de sua formação efetiva e do que poderia ter sido. São tratadas questões como a escravidão, o aniquilamento dos índios, os interesses das classes dominantes, essa nossa ‘eterna’ falta de um sentido de coletividade voltada para um objetivo comum, o interesse de grupos e classes orientando os destinos da nação, enfim; essa colcha de retalhos difusa e esgarçada que é a nossa formação enquanto povo. O estabelecimento da capital do Reino de Portugal no Rio de Janeiro em 1808, causou, como não poderia deixar de ser, a chamada "inversão metropolitana", ou seja, pela primeira e única vez na história uma colônia passava a sediar uma corte européia. É então que vemos nossos personagens viverem suas vidas paralelamente a acontecimentos como a abertura dos portos às nações amigas, a criação da Imprensa Régia a fundação do primeiro Banco do Brasil, em 1808; a elevação do Estado do Brasil à condição de reino, unido a Portugal e Algarves e até a vinda da Missão Artística Francesa em 1816 para dar foros de civilização à doce terra do Pau brasilis. Mas nem tudo correu de maneira pacífica, lógico, lemos sobre revoltas e movimentos de libertação como a Revolução Pernambucana de 1817 e que foi fortemente reprimida por Dom João VI e etc. Mas à vida humana não importa somente o que acontece no campo político. Nossas vidinhas seguem paralelas aos acontecimentos e vamos individualmente tecendo nossas peças e nossos dramas pessoais.Ainda que, forçoso é reconhecer, e como diria Machado de Assis, umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder de si. E é assim que acompanhamos o casamento de Domitila, aos quinze anos de idade em 1813 com um oficial do segundo esquadrão do Corpo dos Dragões da cidade de Vila Rica, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1789–1833), que era desses machos amalucados, tido e havido como homem violento, que a espancava e violentava. Deu-lhe duas facadas que a deixaram entre a vida e a morte e finalmente houve divorcio em 21 de maio de 1824. Observamos a juventude rebelde e as peripécias de Dom Pedro I, a fazer jus ao estigma com que a história o marcou: a de mulherengo, ele e um tal de Chalaça, que se prontificou para ser seu companheiro de aventuras sexuais e trapalhadas de toda sorte. E finalmente a muito descente e digna carreira do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, homem muito zeloso de sua fortuna e posses, embora com alguma preocupação com os destinos da nação. Um período de muita confusão, de incertezas e de desacertos de toda ordem. É que a nossa jovem nação começava a sair de um engatinhar para dar aquele primeiro passo que sempre leva aos tombos. Pena que aprendemos tão pouco com os primeiros tombos e estamos ainda hoje, e de certo modo a repetí-los. Entretanto, e debaixo de tantos acontecimentos contraditórios, o que fica marcado e resiste por um bom tempo, é o amor avassalador que ligou D. Pedro à Domitila. Conheceram-se dias antes da proclamação da Independência do Brasil, em 29 de agosto de 1822 e logo tornaram-se amantes. Nem convenções, nem a rígida moral da época, nem o fato de ele ser casado, nem intrigas palacianas e conspirações de toda sorte, nada os impediu de viver um grande amor. Este o fato inconteste e cabalmente demonstrado nas páginas do romance. Todavia, o tempo anda, e com ele os homens e os sentimentos também, que nem sempre, nem sempre, resistem às injunções e circunstâncias da vida. Domitila mais tarde conheceu o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, com quem se uniu em 1833 (Pedro I faleceu em 1834 em Queluz, Portugal) casando-se oficialmente na cidade de Sorocaba em 14 de junho de 1842. O desenrolar circunstanciado de fatos e destinos nos levam até Revolução Liberal de 1842 em São Paulo e Minas. A história oficial registra que foram movimentos sediciosos que agitaram o Brasil durante o Império, promovidos e organizados pelo Partido Liberal, que contestava a elevação do Partido Conservador ao poder. Sempre o joguinho de interesses particulares camuflado de “em benefício da pátria amada”. Reza a lenda, e nem a árvore de três mil anos de “Sertões mais ao sul”, uma das narradoras da trama do senhor Filipe Moreau, há de negar, que os revoltosos em Sampa, "Tocaram a rebate os sinos das igrejas, reuniu-se a Câmara Municipal sob a presidência do tenente-coronel José Joaquim de Lacerda e, depois de discursos e proclamações, foi Rafael Tobias de Aguiar aclamado presidente interino da província." Começava mais uma revolução a qual não faltaria lances épicos, como a regularização pelo casamento dos amores velhos e notórios de Tobias de Aguiar com a marquesa de Santos, antiga amante de D. Pedro I, de quem ele já tinha seis filhos. Mas isso é lenda? Talvez, quem vai saber? O leitor deve conferir (inclusive o surpreendente desfecho), e tirar suas próprias conclusões. Resta-nos acrescentar, a guisa de conclusão, que o narrador onisciente de Filipe Moreau segue ajustando o foco e o ângulo de sua mágica luneta ficcional a nos permitir visualizações que englobam aspectos poéticos (e filosóficos) das situações narradas, numa linguagem leve e muitas vezes bem-humorada. Com efeito, uma obra para aqueles que amam apreciar a nossa História como ela não é contada nos livros ‘oficiais’. Centelhas breves e intensas a revelar que o humano é o mesmo de sempre, não importa a época, não importam ou os cenários. A mesma peça com roteiros, cenários e intérpretes novos. Eis aí o sumo saboroso, a beleza da existência! Uma pequena amostra de como o autor fez isso. Trecho: “O amanhecer será dos mais bonitos, apesar de tudo. O tempo bom, com o sol nascendo nessas paisagens, parece trazer junto uma mensagem divina: tudo é transcendente, na história que se modifica, mas em variações dentro de um mesmo padrão natural, passado pela reação dos átomos no centro do sol, nas nuvens que carregam água e voam livres para a zona equatorial, pertencendo ao mesmo ciclo das brisas marinhas que agora trazem a maresia sentida no balanço das árvores com o vento... E assim vamos”. (Cap. IX – 7, Questões éticas da separação)”. Livro: “Sertões mais ao sul” – Romance histórico poético de Filipe Moreau, Editora Laranja Original, São Paulo - SP, 2019, 576p. - ISBN 978-85-92875-52-7. Links para compra e pronto envio: https://www.travessa.com.br/sertoes-mais-ao-sul/artigo/7f6afc8c-7812-4d04-9a94-3830a9d1c022 ou ainda: https://www.laranjaoriginal.com.br/

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