Em Fundamentos de Ventilação e Apneia, Alberto Bresciani materializa o flerte que manteve com a temática dos animais, nos seus livros anteriores, Incompleto Movimento e Sem Passagem para Barcelona. Equipado pelo refinamento imagético próprio de sua poesia, o poeta embrenha-se no universo de ursos, golfinhos, hienas, carpas, corujas, entre outros, como um taxidermista da palavra, ávido por ressignificar a si, o outro e seu tempo. Da mesma forma, nos poemas que escapam à ideia central da obra, Bresciani parece inspirar-se na observação acurada dos movimentos, da respiração, da inteligência estratégica e do comportamento nem sempre comezinho dos bichos, para compor um technicolor sobre solidão, medo, incredulidade, estranhamento e dor, “que nenhum glóbulo branco desfaz”; um filme que não termina com um final feliz, ou a superação do conflito poético, mas com a aceitação inconvicta da pequenez humana. Procedamos, então, à leitura da poesia brescianiana, porquanto “às vezes é melhor não dizer nada, ou quase”.
Fundamentos de ventilação e apneia -
Alberto Bresciani
Fundamentos de ventilação e apneia
ALOU GALERA!!!! UM LIVRO PARA QUEM QUER PENSAR FORA DA CAIXA - MAIS AINDA! Vamos direto ao ponto. “Fundamentos de ventilação e apneia” do senhor Alberto Bresciani é uma obra que positivamente se afigura como uma contundente reflexão acerca da atual condição humana em parâmetros evolutivos. Alguém pode pensar; mas que raios esse resenhista quer dizer com isto meu Deus? Calma. O escritor André Caramuru Aubert, em texto de Prefácio, nos informa que: “se os poemas do livro “seguem uma certa orientação temática, pois quase todos eles passam, de um jeito ou de outro, pelo tema da luta pela vida e a morte entre os animais (entre os quais os seres humanos), a variedade de abordagens e de, por assim dizer, estados de alma, é grande.” Esclareceu? Não? Ana Maria Lopes, que escreve no Posfácio da obra simplifica a questão: “são os animais que dão vida às metáforas fortes e provocadoras dos poemas.” De nossa parte poderíamos citar que há, por exemplo, excepcional beleza lírica a envolver o voo de pássaros num profundo sentido do humano como ocorre no poema “Intervalos”. Ou falarmos do poema “Escada”, onde é evocado o esforço do humano em evoluir e o não reconhecimento desse mesmo esforço em nosso nível tão incivilizado, ou ainda, dissecar um poema que expõe nosso desencanto com o mundo (cheio de equívocos de conveniência), expresso no Poema “Metabolismo”. Poderíamos mais ainda, e sem muito esforço de memória, citar outros poemas verdadeiramente admiráveis como o são dentre outros: “Peixe-voador”, “Hipnose”, “Camelo”, “Espiral”, “Girafa”, e “Meditação”, e em cada um deles refletir sobre questões literárias quanto à forma, métrica, ritmo, e etc., mas não atingiríamos o cerne dessa obra no que ela representa em profundidade. O buraco é mais embaixo! Senão vejamos: Poema “Habitat II”. “I – Insistem os medos por dentro da pele, / escondendo os órgãos, o sangue, em todos / E nem sabemos o que nos falta, / do que fomos apartados um dia, / porque nunca estivemos presentes sequer em nós / E então escavamos o que já está muito seco, / em busca de água, como toupeiras, javalis / Ou mergulhamos, invisíveis baleias azuis, / para gritar até que o silêncio enfim respire II - Procuramos sempre a ilusão / no que é o inverso de tudo, com ansiedade, / o ar preso, a resposta esperada / em bolhas de vidro que repetem / a neve, cenas impossíveis / de um idílio sem calor, líquidos, pulso / E se pensarmos bem, sim, jamais tivemos / um lugar só nosso, onde morar, / defesas psicológicas, miméticas, abrigo III – Amanhã, talvez, nem nos lembremos de quem somos / ou quem são os outros, porque não conseguimos / nos entender ou ao nosso século, / a nenhum deles, o que dizem e o que dizemos / E somos só isto mesmo: animais solitários, / tentando a sorte, insistindo no tempo / Até que alguma palavra caia, por azar, / castigo ou revelação, / e, enfim, possamos / aceitar.” Sabemos que os animais movimentam-se num círculo mecânico de instintos, que os restringem a um exato determinismo, não podem e não sabem abusar como fazemos nós. Esse o determinismo que os limita e leva-os à uma luta recíproca onde a ferocidade se impõe, posto que a substância da qual se constitui um organismo representa material de nutrição para outros. Daí a necessidade de instrumentos de ataque e defesa. Sim, esta a indiscutível lei do planeta no nível animal. Poema: “Caça”: “A matilha cerca, embosca, / morde, mata // Os cães vão direto / às entranhas / Procuram tecidos / moles, // mas, com espanto, estancam // A presa é um corpo / vazio.” Nossa humanidade supimpa (desenterrei essa expressão talvez como reflexo de uma lembrança linguística pré-história), ainda se encontra presa ao baixo mundo da matéria e seu determinismo puro. Estamos como num cinismo de hienas, bailando entre bombinhas atômicas, religiosidade de retardados, racismos, genocídios, e uma fodança enlouquecida no hedonismo cruel. Está vigente o inferno sobre a Terra. Andamos aparvalhados e esquecidíssimos de que a lei do espírito humano é liberdade em outro sentido: por evolução, opera-se a passagem do determinismo àquilo que verdadeiramente constitui o livre arbítrio, e este requer, para se regular, a direção de uma consciência superior, não necessária ao animal, mas indispensável no homem. É o que nos falta ainda nesse terrível momento de transição que atravessamos. Eis porque na metáfora do poema acima, as entranhas da “presa”, constituem “um corpo vazio”, e esse vazio existencial tem levado alguns de nós a isto:Poema “Lemingues”. “Cansados de engodos, / nem lhes serve o genoma, / o mapa que os condena / a nenhuma arma ou voo / Nem mesmo o fogo cuspido / em algum conto, mito / que valha a pena // Lemingues tristes mergulham / do décimo oitavo andar.” Vale aqui um esclarecimento: lemingue é uma espécie de roedor, encontrado geralmente no bioma ártico, que o cinema ajudou a popularizar como animais tendentes ao suicídio; Pela necessidade de comer, os lemingues se movem em massa, atrás de alimento. Simplesmente agem de acordo com seu instinto de sobrevivência. Falar de suicídio envolveria uma vontade que infelizmente alguns de nós exercemos nesse sentido. Portanto, o propalado suicídio em massa dos lemingues é uma besteira. Voltemos ao nosso papo direto. Estamos vesgos de saber (mas nunca refletir em profundidade sobre), que a energia solar, assimilada e transformada pelas plantas, torna-se, no animal, calor e movimento e, como derradeira transformação de um dinamismo vital, energia nervosa que, no homem, se configura no mais alto ponto da escala do nosso universo, a máquina mais complexa e delicada. Nossa função psíquica e espiritual. Eis onde culmina, depois de tantas transformações, a energia das radiações solares. Aí o percurso evolutivo que insistimos em não reconhecer. O universo se movimenta para que a vida seja viável, para que, finalmente, tenhamos a capacidade de sentir e observar a nós mesmos. Em nossos órgãos sensórios opera-se continuadamente a elevação das vibrações ambientes em vibrações de ordem superior; através do ouvido, o som se torna música; através do olhar a luz se transforma em beleza; através dos sentidos o embate das forças ambientes constrói o instinto e a consciência. Nessa sucessão. Estamos todos numa urgência íntima (daí tanto desequilíbrio e apneias em escala planetária), que a vida comece a se libertar das cadeias desse absolutismo da matéria, e nosso psiquismo crescente se constitua em nova causa que se sobreponha à estabelecida pelas leis físicas. Este o pulsante respiro que a evolução está a impor. Reflitamos sobre o que este poema desperta em nós.“Instinto”. “Sim, tudo insiste e continua, / as coisas são as mesmas / as palavras, iguais, / porque o mundo dos homens / não sabe a metamorfose, / mesmo que, por dentro, / tudo ressoe, o eco vá e volte / pela cicatriz aberta na boca Sempre estão atrás de nós, / o animal invisível está por emboscar, / a pausa de terror, o ritual de ácido / estirando os músculos, / alimentando essa coisa / que sobrevoa e se eclipsa / e volta, membro amputado Os panos negros sobre o corpo, / folhas secas sobre os cabelos, / e ainda assim nos arrastamos à luz, / com medo, com medo: / mais dois metros / e as tartarugas se salvarão / O mar é bem ao lado.” Ainda vivemos uma existência de desenfreada concorrência de apetites, onde tudo é obtido pela força ou pela astúcia. Mas esse é o nível do animal, repetimos, que não se horroriza de seu estado porque a sua sensibilidade lhe está proporcionada. A compreensão sobre o sentido da existência humana oscila numa intermitência entre respiração e apneia, e como não conseguimos encontrar resposta (por absoluta falta de empenho em compreender o que afinal significa uma metamorfose, este inigualável recurso da própria vida), resvalamos para as vias de completa sufocação, como tem acontecido. E acabamos condenados à: “Esses séculos / sobre os ombros // Com estas presas / na jugular.” Aceitar o continuum de uma vida bestial ou lutar pela civilização da humanidade reconhecendo efetivamente que a evolução se exprime por um constante ultrapassar de limites são as alternativas à nossa escolha, que o senhor Alberto Bresciani nos lembra de forma magistral. Com efeito! Livro: “Fundamentos de ventilação e apneia” – Poesias de Alberto Bresciani, Editora Patuá, São Paulo - SP, 2019 , 144p. ISBN 978-85-8297-765-1 Link para compra e pronto envio: https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/76998/fundamentos-de-ventilacao-e-apneia-de-alberto-bresciani
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