ANOTEM AÍ. Mais um nome para se ficar muito atento. O da escritora Clara Baccarin. Brevíssima retrospectiva: formada em Letras e mestre em Estudos Literários pela Unesp. Publicou o romance “Castelos Tropicais”, “Instruções para Lavar a Alma” (poesia), “Vibração e Descompasso” (crônicas) e agora brinda os leitores com esse “Vísceras”, que é uma volta à poesia, e foi contemplado no edital de poesia do ProaC do Governo do Estado de São Paulo. Registre-se ainda, que o “Instruções para Lavar a Alma” recebeu o Prêmio Guarulhos de Literatura 2017 na categoria melhor livro de poesia do ano. Muito bem; a autora vem, decorrido pouco tempo de sua estreia na Literatura, pulando etapas e com destaque. Falo com absoluta propriedade porque li e resenhei os livros acima, e tive ainda a honra de assinar o Prefácio justamente da obra que recebeu o Prêmio Guarulhos.
Em “Vísceras”, que é dividido em quatro blocos temáticos (Fígado, Pulmão, Útero e Coração) estão reunidos 103 poemas onde reencontramos a jovem autora cada vez mais senhora do seu fazer literário. A desdobrar-se em terrível esforço de encarar tantas e tamanhas contradições desse nosso mundo cruel e fragmentário, numa verdadeira exposição visceral de experimentar-se nas possibilidades de existir e sentir partindo de uma atitude de valorizar a percepção como instrumento de uma escrita motivada pela vontade de trazer à tona as experiências significativas do mundo percebido.
“Mísero vagalume”
“depois da primeira casca de ilusão / há uma pessoa / .espere. / talvez esteja depois da segunda / .espere se conseguir. / (muita gente desiste no susto/ da primeira descamuflagem) / existe uma pessoa menos fantasiada / mas mais cintilante / (se seus olhos forem (d)espertos / e pacientes o bastante para notar / o lídimo nos olhos de uma pessoa) / há uma pessoa / que aparece sem grandes enfeites / sem luz de fora / como um mísero vagalume / na cidade dos encantos / (como se nunca / tivesse existido) / como se sempre / tivesse existido / dentro de uma verdade / simples de seu coração / humano” (p.49).
São também cheiros, sabores, vozes, memórias que saltam dos versos produzidos por Clara que, ora se mostra “vulcânica”, ora “delicadamente amarga” e em alguns momentos, a gotejar um amor quase maternal. E vamos lendo cernes ou nuances de questões como a culpa (e a desculpa), a loucura, a liberdade, o moralismo, assédios, a solidão, os mistérios da vida e da morte, o ser e assumir-se mulher e, claro, o amor. Sim, como não? Mas dizer que temos um livro em que entram reflexões filosóficas sobre o estar no mundo, (com boas doses de humor e ironia) é não dedilhar a tecla certa. Há mais, há um outro pulsar mais intenso nesse corpo poético. Chegaremos lá. Com a ajuda da autora:
“Performance espiritual”
“Não adianta seguir um guru, não adianta fumar cigarro da paz, beber o chá transcendental, não adianta saber as artimanhas do orgasmo tântrico, não adianta manipular a plasticidade das metáforas, não adianta seguir uma virtude qualquer que seja se ela é dogmática. Não adianta o desempenho dos gestos, das falas, das graças, se a alma nua não se sustenta e não se acessa (em luzes e sombras). Não adianta trocar a roupa, amassar as máscaras, se antes não se reconhecer cru, virgem, frágil, vulnerável, desconhecido de si mesmo e a poeira do medo ainda servir de escudo. Não adianta percorrer-se, se a honestidade não é consigo mesmo, antes de encarar o espelho, naquele momento de silêncio, em que ninguém olha e, no entanto, seu coração transcende.” (p.41).
De um simples e profundo lirismo intuitivo, intimista e sensorial, a autora parte de uma resistência firme a qualquer adesão passiva aos padrões sociais limitadores da existência, lança mão de metáforas expressas no corpo físico (fígado, pulmão, útero e coração), para construir uma poética tatuada pela sensibilidade, que permite novas relações com o mundo exterior, por meio da percepção. O texto corporal poético que trava essa conversação ora com corpos outros, ora com o próprio espaço corporal que o compõe enquanto poesia, é o veio que se encontra em sua arte poética, baseada também no desapego da superficialidade e no dizer o que se entrevê como transcendente através de sugestões do que se pressente, mas não se conhece racionalmente. Atitude de busca do ser, colocando-se na imanência do mundo, mas sempre em busca de transcendência. Em outras palavras e, ‘simplificando’: por esse caminho chegar à reinvenção da vida como uma possibilidade da própria vida.
A memória funciona brilhantemente nessa autora, e de um modo tal que ao invés de tentar esquecer o que aconteceu – por mais dramática que a experiência tenha sido – acrescenta um significado maior ao passado, sugerindo simbolismos que podem caracterizar o despertar de nossas consciências sobre o sentido da vida, de uma fé (dento da lógica do sentir), e da capacidade de lidarmos com nossos próprios traumas de forma positiva.
“Como”
a força silenciosa / das trepadeiras / que escalam os muros/ e dos tempos espontâneos / das raízes que crescem / e levantam as calçadas / dos galhos que se retorcem / em volta das grades / dos arbustos que se esparramam / e dos musgos que tingem / as paredes
como / a teimosia / do que nasce e cresce / e forja a própria existência / a despeito / do sim / e do não (p.96).
Desse modo, o que poderia ser mais uma sucessão de imagens de desespero, medo, revolta e tristeza (tão recorrente no atual cenário poético brasileiro), se torna uma sequência exuberante de belas imagens, que mais elevam o espírito do que o afunda na melancolia. E temos então, e finalmente, aquilo que escrevemos acima, quanto ao “pulsar mais intenso desse corpo poético”. A escritura de um ser que deseja “ultrapassar-se” por meio de um falar que nos concerne, nos atinge em cheio, nos seduz e arrebata, nos transforma no outro, e ele em nós.
“amor livre”
“plantei uma flor / mas ela não é minha
coloquei adubo / água todos os dias / escolhi um cantinho / de sol sereno / para que ela / plenamente viva
beijei as pétalas / toquei as sépalas / celebrei as abelhas / lamentei as perdas / das folhas mais velhas
tentei entender / o que ela queria / se menos, se mais / olhei para ela / escutei-a / entendi os sinais
cuidei dessa flor / mas ela não é minha / a casa onde ela mora / não é minha / a terra onde fica a casa
não é minha / plantei uma flor / que um dia / não mais verei / não mais cuidarei / não mais entenderei
mas na flor / fica o amor / na terra / fica o presente / no mundo / fica a doação / nas mãos / fica o meu melhor
na constituição / da beleza / fica o ensinamento / que deixo / com alegria / e desprendimento / para outro / coração / tocar” (p.116).
Ao cabo da leitura desse novo livro de Clara Baccarin, vêm-nos à lembrança os ensinamentos de Roland Barthes, acerca dos sentidos das coisas do mundo e no mundo, focando a literatura, enquanto ferramenta de reflexão. A poesia também busca os sentidos das coisas e, para isso, percorre o espaço que rodeia o sujeito poético, percebendo seres outros e significações existentes em seu entorno. Os poemas desse livro são claro apelo a que ressignifiquemos a vida dando-lhe um novo sentido. Positivamente, apreendemos os percursos de um corpo textual inundado pela poesia e pelos significados de uma percepção que infla de vida suas vísceras rumo a uma sensibilidade à flor da pele. Justamente o caminho reverso e diverso do que costumeiramente olhamos essa grande dádiva que é a vida.
Livro: “Vísceras” – Poesias de Clara Baccarin, Editora Patuá, São Paulo - SP, 2019, 144p.
ISBN 978-85-8297-772-9
Link para compra e pronto envio:
https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/74819/visceras-de-clara-baccarin
ou
http://www.clarabaccarin.com/