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    Vísceras -

    Clara Baccarin

    Editora Patuá
    2019
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788582977729
    Português Brasileiro
    4.9
    7 avaliações
    Leram10Lendo0Querem17Relendo0Abandonos0Resenhas3
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    Dividida em quatro partes, a obra inicia seu percurso com um Fígado que faz mais do que digerir acontecimentos difíceis. Ela passa por um Pulmão que move o sopro da vida, as palavras e o próprio entusiasmo diante do mundo. Singra por um Útero que conhece bem a ideia da fecundidade, mas que também se faz órgão de escutar os tempos da terra, de sentir as securas e de tatear os ocos escuros. E finaliza seu percurso num Coração que não apenas mobiliza sentimentos, mas busca “capturar na veia e no verso/ os ritmos do silêncio”. A escrita de Clara Baccarin oferece recortes do quotidianos dando ênfase a detalhes, e aposta nas conexões “como quem acampa nos corações baldios/ e espera que chova”. Mergulha nos encantamentos e magias da vida, mas também em seus desafios e rudezas, como no poema decepado, que trata da difícil e urgente – porque, infelizmente, ainda tão comum e tão tolerada – temática do assédio. É uma arte que não ostenta erudição, embora a demonstre na capacidade reflexiva, na difícil conjugação entre simplicidade e profundidade. Sua poesia tem essa coragem de mergulhar na simplicidade. Esse desafio é tão grande que Picasso afirmou que precisou uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças. Clara certa vez me disse que se vê como quem escreve no chão com pedaços de tijolos. Como se ela aproveitasse as palavras disponíveis para construir sua escrita. E, com isso, é possível identificar seus passos precisos guiando pela teia de palavras nossos olhos e sentidos até um lugar em que “o corpo reaprendeu a brincar/ sem os jogos da mente”. – Teofilo Tostes Daniel

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    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos06/06/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Vísceras infladas de vida

    ANOTEM AÍ. Mais um nome para se ficar muito atento. O da escritora Clara Baccarin. Brevíssima retrospectiva: formada em Letras e mestre em Estudos Literários pela Unesp. Publicou o romance “Castelos Tropicais”, “Instruções para Lavar a Alma” (poesia), “Vibração e Descompasso” (crônicas) e agora brinda os leitores com esse “Vísceras”, que é uma volta à poesia, e foi contemplado no edital de poesia do ProaC do Governo do Estado de São Paulo. Registre-se ainda, que o “Instruções para Lavar a Alma” recebeu o Prêmio Guarulhos de Literatura 2017 na categoria melhor livro de poesia do ano. Muito bem; a autora vem, decorrido pouco tempo de sua estreia na Literatura, pulando etapas e com destaque. Falo com absoluta propriedade porque li e resenhei os livros acima, e tive ainda a honra de assinar o Prefácio justamente da obra que recebeu o Prêmio Guarulhos. Em “Vísceras”, que é dividido em quatro blocos temáticos (Fígado, Pulmão, Útero e Coração) estão reunidos 103 poemas onde reencontramos a jovem autora cada vez mais senhora do seu fazer literário. A desdobrar-se em terrível esforço de encarar tantas e tamanhas contradições desse nosso mundo cruel e fragmentário, numa verdadeira exposição visceral de experimentar-se nas possibilidades de existir e sentir partindo de uma atitude de valorizar a percepção como instrumento de uma escrita motivada pela vontade de trazer à tona as experiências significativas do mundo percebido. “Mísero vagalume” “depois da primeira casca de ilusão / há uma pessoa / .espere. / talvez esteja depois da segunda / .espere se conseguir. / (muita gente desiste no susto/ da primeira descamuflagem) / existe uma pessoa menos fantasiada / mas mais cintilante / (se seus olhos forem (d)espertos / e pacientes o bastante para notar / o lídimo nos olhos de uma pessoa) / há uma pessoa / que aparece sem grandes enfeites / sem luz de fora / como um mísero vagalume / na cidade dos encantos / (como se nunca / tivesse existido) / como se sempre / tivesse existido / dentro de uma verdade / simples de seu coração / humano” (p.49). São também cheiros, sabores, vozes, memórias que saltam dos versos produzidos por Clara que, ora se mostra “vulcânica”, ora “delicadamente amarga” e em alguns momentos, a gotejar um amor quase maternal. E vamos lendo cernes ou nuances de questões como a culpa (e a desculpa), a loucura, a liberdade, o moralismo, assédios, a solidão, os mistérios da vida e da morte, o ser e assumir-se mulher e, claro, o amor. Sim, como não? Mas dizer que temos um livro em que entram reflexões filosóficas sobre o estar no mundo, (com boas doses de humor e ironia) é não dedilhar a tecla certa. Há mais, há um outro pulsar mais intenso nesse corpo poético. Chegaremos lá. Com a ajuda da autora: “Performance espiritual” “Não adianta seguir um guru, não adianta fumar cigarro da paz, beber o chá transcendental, não adianta saber as artimanhas do orgasmo tântrico, não adianta manipular a plasticidade das metáforas, não adianta seguir uma virtude qualquer que seja se ela é dogmática. Não adianta o desempenho dos gestos, das falas, das graças, se a alma nua não se sustenta e não se acessa (em luzes e sombras). Não adianta trocar a roupa, amassar as máscaras, se antes não se reconhecer cru, virgem, frágil, vulnerável, desconhecido de si mesmo e a poeira do medo ainda servir de escudo. Não adianta percorrer-se, se a honestidade não é consigo mesmo, antes de encarar o espelho, naquele momento de silêncio, em que ninguém olha e, no entanto, seu coração transcende.” (p.41). De um simples e profundo lirismo intuitivo, intimista e sensorial, a autora parte de uma resistência firme a qualquer adesão passiva aos padrões sociais limitadores da existência, lança mão de metáforas expressas no corpo físico (fígado, pulmão, útero e coração), para construir uma poética tatuada pela sensibilidade, que permite novas relações com o mundo exterior, por meio da percepção. O texto corporal poético que trava essa conversação ora com corpos outros, ora com o próprio espaço corporal que o compõe enquanto poesia, é o veio que se encontra em sua arte poética, baseada também no desapego da superficialidade e no dizer o que se entrevê como transcendente através de sugestões do que se pressente, mas não se conhece racionalmente. Atitude de busca do ser, colocando-se na imanência do mundo, mas sempre em busca de transcendência. Em outras palavras e, ‘simplificando’: por esse caminho chegar à reinvenção da vida como uma possibilidade da própria vida. A memória funciona brilhantemente nessa autora, e de um modo tal que ao invés de tentar esquecer o que aconteceu – por mais dramática que a experiência tenha sido – acrescenta um significado maior ao passado, sugerindo simbolismos que podem caracterizar o despertar de nossas consciências sobre o sentido da vida, de uma fé (dento da lógica do sentir), e da capacidade de lidarmos com nossos próprios traumas de forma positiva. “Como” a força silenciosa / das trepadeiras / que escalam os muros/ e dos tempos espontâneos / das raízes que crescem / e levantam as calçadas / dos galhos que se retorcem / em volta das grades / dos arbustos que se esparramam / e dos musgos que tingem / as paredes como / a teimosia / do que nasce e cresce / e forja a própria existência / a despeito / do sim / e do não (p.96). Desse modo, o que poderia ser mais uma sucessão de imagens de desespero, medo, revolta e tristeza (tão recorrente no atual cenário poético brasileiro), se torna uma sequência exuberante de belas imagens, que mais elevam o espírito do que o afunda na melancolia. E temos então, e finalmente, aquilo que escrevemos acima, quanto ao “pulsar mais intenso desse corpo poético”. A escritura de um ser que deseja “ultrapassar-se” por meio de um falar que nos concerne, nos atinge em cheio, nos seduz e arrebata, nos transforma no outro, e ele em nós. “amor livre” “plantei uma flor / mas ela não é minha coloquei adubo / água todos os dias / escolhi um cantinho / de sol sereno / para que ela / plenamente viva beijei as pétalas / toquei as sépalas / celebrei as abelhas / lamentei as perdas / das folhas mais velhas tentei entender / o que ela queria / se menos, se mais / olhei para ela / escutei-a / entendi os sinais cuidei dessa flor / mas ela não é minha / a casa onde ela mora / não é minha / a terra onde fica a casa não é minha / plantei uma flor / que um dia / não mais verei / não mais cuidarei / não mais entenderei mas na flor / fica o amor / na terra / fica o presente / no mundo / fica a doação / nas mãos / fica o meu melhor na constituição / da beleza / fica o ensinamento / que deixo / com alegria / e desprendimento / para outro / coração / tocar” (p.116). Ao cabo da leitura desse novo livro de Clara Baccarin, vêm-nos à lembrança os ensinamentos de Roland Barthes, acerca dos sentidos das coisas do mundo e no mundo, focando a literatura, enquanto ferramenta de reflexão. A poesia também busca os sentidos das coisas e, para isso, percorre o espaço que rodeia o sujeito poético, percebendo seres outros e significações existentes em seu entorno. Os poemas desse livro são claro apelo a que ressignifiquemos a vida dando-lhe um novo sentido. Positivamente, apreendemos os percursos de um corpo textual inundado pela poesia e pelos significados de uma percepção que infla de vida suas vísceras rumo a uma sensibilidade à flor da pele. Justamente o caminho reverso e diverso do que costumeiramente olhamos essa grande dádiva que é a vida. Livro: “Vísceras” – Poesias de Clara Baccarin, Editora Patuá, São Paulo - SP, 2019, 144p. ISBN 978-85-8297-772-9 Link para compra e pronto envio: https://editorapatua.minhalojanouol.com.br/produto/74819/visceras-de-clara-baccarin ou http://www.clarabaccarin.com/

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    Clara Baccarin

    Clara adora contar histórias e poetizar o mundo. Sofre do transtorno de infância insuperada. Compõem-se de misturas excêntricas: vodca com chá de hortelã, seda e barro, lavanda e estrume, fantasia e realidade. Mosaico de rótulos de diferentes etimologias. É uma aventureira da alma. Gosta de viver perigosamente (por dentro). Fica solta, afrouxa os limites, ousa o proibido, testa na própria pele sentimentos ainda não aprovados pelos órgãos reguladores, muito antes de saber se haverá antídoto. É que o gosto de voar compensa as dores possíveis. Escrever é viajar levando o mundo como bagagem e o leitor como companhia. Clara é escritora, tradutora, professora, redatora. Autora do romance Castelos Tropicais (ficção, Ed. Chiado, 2014- 2015, no prelo), trabalhando no segundo livro Mesa de Bar (ainda sem editora). Cultiva este site com poemas, crônicas, contos e tentativas de letras de músicas.

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    Clara Baccarin