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    Hoje estarás comigo no paraíso -

    Bruno Vieira Amaral

    Companhia das Letras
    2019
    360 páginas
    12h 0m
    ISBN-13: 9788535932508
    Português
    4
    10 avaliações
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    Um romance singular sobre o poder da linguagem, das histórias e das artimanhas da memória. Segundo colocado no Prêmio Oceanos 2018. Neste poderoso romance autobiográfico, Bruno Vieira Amaral apaga a fronteira entre realidade e ficção e faz da literatura o instrumento para reconstituir um episódio de sua infância: o assassinato de seu primo João Jorge, em 1985, num bairro de uma periferia de Portugal. Ao rememorar o vilarejo em que cresceu, a relação com o pai ausente e o peso de nossa herança familiar, ele destrincha não apenas os acontecimentos relacionados ao crime, mas também os elementos que constituem sua própria história. Um verdadeiro elogio ao poder da linguagem, este livro ultrapassa a investigação factual ao trazer à tona um narrador observador e inquieto, sempre desconfiado das artimanhas da memória.

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    Alexandre Kovacs29/09/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Bruno Vieira Amaral - Hoje estarás comigo no paraíso

    Editora Companhia das Letras - 360 Páginas - Capa: Bloco Gráfico - Foto de Capa: Rui Rodrigues - Lançamento: 05/08/2019 Bruno Vieira Amaral já é um nome consolidado na literatura portuguesa contemporânea, vencedor da nona edição do prêmio José Saramago com seu romance de estreia As primeiras coisas (2013), inédito no Brasil, tem agora lançado pela Editora Companhia das Letras, o segundo livro, Hoje estarás comigo no paraíso (2017), romance autobiográfico que conquistou o segundo lugar do Prêmio Oceanos (antigo Portugal Telecom de Literatura), versão 2018. O livro tem como ponto de partida as memórias familiares do autor, testemunhos de amigos e registros de imprensa e judiciais da época, assim como muita imaginação, para tentar preencher as lacunas sobre um fato real ocorrido há mais de trinta anos, o assassinato de seu primo João Jorge Rego, degolado aos vinte e um anos, em uma madrugada de Carnaval em 1985, no mesmo bairrro do Vale da Amoreira, subúrbio de Lisboa, em que viviam, acusado de roubar porcos. O autor tinha apenas sete anos nessa época e lembrava muito pouco do primo, que nascera em Angola, um dos muitos imigrantes das ex-colônias portuguesas da África. "Durante anos, falava-se da morte de João Jorge como exemplo da violência oculta à nossa volta. Quando se esqueceram os pormenores ficou a advertência moral — embora não soubéssemos o que tínhamos de evitar para não sermos vítimas de uma tragédia semelhante — que, com o passar do tempo, se dissipou até ser apenas ilustração de uma época passada, tão remota como certos hábitos bárbaros de civilizações extintas. [...] Falar sobre o fim trágico de João Jorge tranquilizava‑nos. Era como se nos dissessem que homens degolados à noite pertenciam ao passado, fantasmas de um tempo de violência irracional, de encantamento e selvajaria, quando o bairro ainda era habitado por pessoas estranhas entretanto desaparecidas para sempre. Por fim, esquecemo‑nos quase por completo da história daquela morte horrível no sítio das hortas. E esquecemo‑nos como de um objeto sem utilidade perdido e de que só nos lembramos quando, anos depois, o encontramos por acaso dentro de uma caixa ou detrás de um móvel." (p. 16) É interessante notar que o protagonista escolhido é um morto, assim como no clássico Crônica de uma Morte Anunciada de Gabriel García Márquez, citado algumas vezes no romance e também alguns outros autores do nível de W. G. Sebald, Margaret Atwood e Euclides da Cunha, nada mal não é mesmo? Contudo, o ponto forte do livro, na minha opinião, é o constante jogo entre memória e realidade, a forma como as imprecisões e seletividade das nossas lembranças podem alterar a percepção dos fatos e de como Bruno Vieira Amaral soube construir a narrativa sobre este mosaico de informações verdadeiras e "inventadas" para compor a trama. Na verdade, são as memórias do autor quando criança que ganham destaque sobre a investigação do assassinato do primo. "Quanto mais descobria sobre João Jorge, mais sabia sobre as pessoas à sua volta", como no trecho abaixo em que comenta sobre um dos amigos de infância. "Sim, tínhamos sido inseparáveis e, anos depois, tudo o que sabíamos uns dos outros eram fragmentos de vida, estilhaços que procurávamos encaixar nas figuras de que nos lembrávamos e que, com o passar do tempo, também se iam desfazendo, perdendo substância, permanecendo em nós graças a um esforço contínuo de reconstrução afetiva. Era como tentar juntar peças inventadas num modelo falso, encaixar gestos e atribuir intenções a pessoas que já não existiam. Só por fidelidade à nossa memória, por amor-próprio, acreditávamos na versão mais antiga, como se fosse mais real, mais verdadeira, quando todos os dias se esboroava como as paredes velhas de uma casa abandonada: quanto mais derruída, mais crescia na nossa memória. Por que razão a criança que o Orlando tinha sido se deveria impor ao adulto em que ele acabara por se tornar? Qualquer esforço nesse sentido equivalia a enxertar braços de um homem-feito no tronco de uma criança. O resultado era um ser disforme e grotesco." (p. 147) Nessa busca pela "história real" encontram-se algumas verdades que talvez devessem ter permanecido ocultas, principalmente do passado de sua família e o envolvimento com os movimentos de repressão da terrível PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) durante a guerra de independência de Angola, mesmo reconhecendo depois a "cruel ironia daquela situação em que antigos combatentes pela liberdade, pela independência, ocupavam a posição dos verdugos de outrora.", ou seja, "os antigos torturados agora torturavam, os que tinham censurado os métodos da PIDE agora aplicavam-nos aos inimigos políticos." "Onde é que a história da nossa família contamina a nossa história individual? Onde é que a nossa história entronca nessa árvore enorme de múltiplos ramos desconhecidos, segredos, mentiras, insultos e vergonhas que é a história da nossa família? Herdamos os genes, é certo. Ao longo da minha vida, ouvi pessoas dizerem o quanto eu era parecido com o meu pai – na altura, no corpo – e descobriam espantadas as parecenças noutros pormenores que acreditavam ser da ordem do adquirido – o modo de falar, a entoação, as cóleras súbitas. Diziam-me com uma ponta de recriminação, como se eu fosse herdeiro de uma culpa, como se não tivesse sabido escapar a uma maldição, como dizia a minha avó materna, 'és mesmo como o teu pai', ou em jeito de celebração ressentida dessa continuidade inequívoca, aqueles genes resistiriam a tudo, às desavenças, às contrariedades, aos retrocessos, aos desentendimentos, à distância. E o resto, as histórias que envergonhavam e eram silenciadas, os atos do passado convenientemente apagados [...]" (p. 287) Sobre o autor: Bruno Vieira Amaral nasceu em 1978, em Barreiro, Portugal. Formou-se em História Contemporânea e é crítico literário, ensaísta e romancista. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas (Editora Quetzal, 2013), foi distinguido com o Prémio PEN CLUBE Narrativa, Prémio Literário Fernando Namora e Prémio Literário José Saramago, em 2015. Foi ainda considerado livro do ano de 2013 pela revista Time Out e, no mesmo ano, mereceu o destaque do Prêmio Novos (na categoria de literatura). Em 2016, foi nomeado uma das Dez Novas Vozes da Europa (Ten New Voices from Europe), escolha dos jurados da plataforma Literature Across Frontiers. Em 2018, foram reunidos os seus melhores textos dispersos no volume Manobras de Guerrilha. O romance autobiográfico, Hoje estarás comigo no paraíso (2017), é o seu primeiro lançamento no Brasil.

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    Bruno Vieira Amaral

    Escritor, crítico literário e tradutor português. Nascido em 1978, licenciou-se em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. No ano de 2002 foi selecionado para a Mostra Nacional de Jovens Criadores através da sua poesia. Fez várias colaborações no DN Jovem, na revista Atlântico e no jornal i. Atualmente, executa as tarefas de crítico literário, tradutor e autor do Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, e é autor de vários blogues, como o Circo da Lama. É ainda editor-adjunto da revista LER e assessor de comunicação das editoras do Grupo Bertrand Círculo. Prémios O seu romance de estreia, As Primeiras Coisas, valeu-lhe o Prémio de Livro do Ano da revista TimeOut (2013), o Prémio Fernando Namora 2013 [2] e o Prémio PEN Narrativa 2013. Bibliografia * As Primeiras Coisas (2013, Quetzal Editores) * Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa (2013, Guerra & Paz Editores)

    8 Livros
    2 Seguidores

    Bruno Vieira Amaral