Malangue Malanga (30 poemas para ler no exílio) -

    não informado

    Editora Multinacional Cartonera
    2019
    84 páginas
    2h 48m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    não informado

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos22/06/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Malangue Malanga (30 poemas para ler no exílio)

    ATENÇÂO: SEGUE A RESENHA DO LIVRO! “A rosa do povo” livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade foi publicado em 1945. Muitos de seus poemas refletem os anos cruciais da II Guerra Mundial e as preocupações então reinantes são identificadas em vários textos daquela maravilhosa obra. Estou a lembrar disso por duas razões. A primeira é que em uma das estrofes do poema “Anoitecer”, lemos: “É a hora em que o pássaro volta, / mas de há muito não há pássaros; / só multidões compactas / escorrendo exaustas / como espesso óleo / que impregna o lajedo; / desta hora tenho medo.”... e mais adiante: “Hora de delicadeza, / gasalho, sombra, silêncio. / Haverá disso no mundo? / É antes a hora dos corvos, / bicando em mim, meu passado, / meu futuro, meu degredo; / desta hora, sim, tenho medo.” Pois bem; a segunda razão que se encadeia com a primeira por uma fortuita sucessividade de leituras que venho fazendo, é o livro do escritor Wilson Alves Bezerra “Malangue Malanga – 30 poemas para ler no exílio” que, como o subtítulo deixa entrever, aborda também, e de maneira crítica, o estatuto de “exílio”, que a humanidade vai padecendo. 70 milhões de pessoas vivem hoje no mundo em condições de deslocamentos forçados (porque em seus países de origem são tidas e havidas como cidadãs de última classe), ou simplesmente refugiadas de guerras, perseguições políticas, e genocídios de toda sorte, inclusive os religiosos. Um tal número figuraria como mais uma estatística com que nos bombardeiam permanentemente (e que ninguém liga muito), não fosse a acurada e sensível perspectiva poética do autor que nos mostra o quanto esse “exilo”, afinal, constitui a realidade viva e fremente de todos nós. Positivamente a atitude do escritor se desdobra no fulcro da problemática mundial, e foi composta em uma amálgama de três idiomas. Português, espanhol e inglês. Versos que misturam vocábulos das 3 línguas, mas que estruturam uma perfeita costura dentro do corpo textual, de forma a não deixar qualquer dúvida quanto à explosão de signos e significados que o poeta faz vir à tona, e de um modo que não estaciona no plano do mal-entendido, porque os sentidos se cruzam e se multiplicam sobre os sons. Mostra-nos porque, e de que forma, o mundo atual tende a tornar-se o do crescimento do desprezo, da generalização da desconsideração, do desrespeito, da recusa da diferença e da pura e simples exclusão. A não haver mudança nesse quadro bizarro, estamos destinados a sermos rebaixados à condição de sub-homens. Não há saída; ou consumidores ou mercenários. Este o futuro sombrio que nos aguarda. A possibilidade de uma humanidade ameaçada de reduzir-se a imenso sistema de escravidão para todos, como pensou Georges Bataille, não parece estar em futuro longínquo. Esses os corvos que nos bicam em nosso degredo ainda aqui e agora. O fato inconteste é que vai se estabelecendo no mundo a supremacia do dinheiro tornado um fetiche sagrado. O reino do dinheiro que está ligado à submissão cada vez mais clara de todas as nações à lei do mercado mundial numa (ir)racionalidade instrumental que se interessa apenas pelos meios a serem utilizados, o cálculo de métodos, custos, e vantagens e que submete tudo, inclusive o racismo velado, ao dinheiro. A “venalidade generalizada” do marquês de Sade que já falou disso lá no século XVIII. Observe-se o que lemos em trecho do poema 6 do senhor Wilson Alves Bezerra: ... “Que lenguas habla, la mulata de Maracaibo, la prieta de Santiago de Cuba, el neguinho de Salvador y la polaca de Pomerode? Muy muchas, me contesta o Quixote. Cada um fala a língua que pode, e não se entende mesmo assim.” Nosso pós-modernismo mundial açambarca todas as nações e povos num abismo de diferenças incutido nas mentes. O que dizer de um poema como o de número 10, no qual vemos o símbolo da paz e união entre os homens que é Jesus, misturado a convicção de que o orgulho de ser homem significa ser branco e ser rico! Trecho. “Na rua dourada de repente estava minha presença indecisa, difusa como o furta cor da camisa, caminhando entre a gente reaça – da escolhida raça – topete, gumex e séculos de opressão. Minhalma mulata tropica entre poodles. Decretos contra o noodle dos chineses, o beiço dos beiçudos e outra vez sussurro: onde está o muro de Trump? Flocos de neve cinza sisudos contestam: Fora turcos, ursas, negros, latinos e opalas! Fora daqui, ao longe, ao fundo, a Cuba, ao Hades! Thank you, my Lord, for this Thanksgiving. Let’s eat the turkey and fuck the chicks. I am proud to be a man, to be white, to be rich. I am proud, my Lord, of not drink red wine, but whiskey. I believe in God, in corn, in porn, in Jesus. I don’t give a shit for the poors and inmigrants. It’s all the same and I really love turkeys and chicks. After all it’s all about postmodernism. Amen. Amen.” Mas não basta somente o poder do dinheiro, há de se fortalecer o poder do Estado por outras vias muito ‘democráticas’; com governantes inclinados à tentação de serem paranóicos perversos ativos e/ou perversos apáticos (carrascos que se habituam a tudo), e com a facilidade tremenda de serem corrompidos. Lógico, assim é muito mais fácil. Poema 16. “La húmeda lengua del deserto; a língua fria del inferno; lalíngua materna do mamilo, lalangue lasciva dos senderos que bifurcan. Ya no vive acá el poeta. La sombra del general nos prohíbe decir que te quiero. Exiliados. La lengalenga langue. Lúbrica lámina. Lengalenga lejos langue lingue. Longe demais para volverecer. Flora demais para semente mínima. Cacho multifruta néctares beijaflorexílios para cajitas de tangue. Explode a perdigota mina na sola da inquieta face do pé, rapé, olho de vidro e prótese peniana. Explode a homozigota espirra mítica da nacionalidade anfíbia. Explode o hinacional internacional sociamínima. Sabiás vão indo, explode Kombi caveirão, o tanque, el pecho anguláceo, el orgullo de la pátria apátrida, la esclavitud de los índios, filhos criollos negros prietos. As minhas brânquias na terra imensa, pelos patas pingos. Saravá Sereia Saionara Saliva. Las apuestas postas na eleição de quien, un hámster, un gangster, um estadista. Las apuestas ruleta rusa, tiros en las ideas, dívidas, dúvidas, dádivas. La vuelta que no principia. Um siglo que se acaba, um siglo que se tarda. Se acabó: la fartura, a fratura. La factura: fíbula rota. Hablá con com vicción: Lalangue no mangue da míngua.” Observamos também, e com que tristeza, um “retorno” identitário a grupos a que se pertence (ou se escolhe pertencer), com fundamentos, às vezes travestidos de nacionalismos virulentos. Observe-se essa onda de psicopatia bem configurada nos fundamentalismos raciais, religiosos e políticos. A presente perversão coletiva que opera quando desistimos dos nossos anseios, freios e limites individuais e passamos a fazer parte de grupos. Meta-se aí nesse balaio, os despautérios religiosos, a proliferação de seitas, de comunidades fechadas, de gangues e milicianos; em suma, o “espírito de corpo” per-ver-ti-do! E as criancinhas sequer se dão conta daquilo que falou (lá na pré-história do ano de 1972), um tal de G. Devereux: “Se a gente é apenas um capitalista ou um proletário, um ateniense ou um espartano, a gente está bem perto de não ser grande coisa ou mesmo coisa alguma”. Ao lado dessas tendências, e ninguém em são consciência o há de negar, o vínculo social se esgarça e cresce uma violência por excesso que visa suprimir não somente o indivíduo, mas o sentido, fazendo com que nada na vida tenha sentido. Se isso acontece não há aí casualidade, o que ocorre e se pretende, é tapar o sol com a peneira. Ocultar o vínculo óbvio entre o sistema capitalista predatório e as catástrofes humanas que assolam o mundo. Trabalha-se intensamente para modelar consciências sempre absorvidas à exaltação de si mesmas, debaixo de um constante espetáculo vazio: de modo que, enquanto o indivíduo se recusa a chafurdar no lixo que o alimenta na televisão - a mídia safada manietando o povão na base de um bombardeio de novelas e um rosário de fuxicos, ele não vê o óbvio, não protesta e continua a permitir que os ricos e poderosos aumentem seu poder e riqueza. enquanto os oprimidos do mundo continuam sofrendo e morrendo em meio a existências miseráveis. Tudo é arquitetado para que o indivíduo suporte estoicamente o sistema estabelecido sem questionar. A ‘língua de fogo’ do sangue derramado no mundo inteiro, não culpa nada nem ninguém, contanto que ninguém fale nada. Trecho do poema 11: “Mas um day adia adieu ainda: sem rabisco no muro na calçada no livro na tela na favela, sem escrito em nada nenhum. No man’s langue.” Se houver resistência, a solução sempre à mão é a que consta do poema 26: “... e o negócio é não falar mais língua nenhuma, é só fazer o chicote triscar para fulano dançar miúdo. Assim se constrói um reino coeso e se deixa o Kafka do tamanho que ele há de ser.” Querem saber como também se faz o “chicote triscar” no Brasil? Antes uma pergunta: Alguém se lembra desse acontecimento? “São Paulo, 12 de julho de 2017. Em frente às câmeras, a Polícia Militar executou um carroceiro morador de rua em pleno horário de rush, num dos bairros mais ricos de São Paulo.”... “O carroceiro Ricardo Silva Nascimento, que há anos morava na rua, próximo ao Pão de Açucar da Teodoro Sampaio em Pinheiros, deixou sua carroça estacionada perto de “casa” e foi até a “Pizza Prime” tentar comer algo”. Esse o extermínio sistemático de pobres e pretos e, não se iludam, qualquer um que assim for identificado. É de se duvidar muito, muito mesmo, que esse caso em particular seja lembrado ante a enxurrada de fuzilamentos, de balas perdidas, de assaltos, de queimas de arquivos, de chacinas em que estamos afogados até o pescoço. E por incrível que pareça, há quem defenda que nada pode ser feito: que o mundo é como é e é impossível mudá-lo, e que o capitalismo e o poder opressor do Estado são a mola mestra do planeta. É por isso que é comum ouvir: “É algo muito triste, é verdade, mas sempre houve oprimidos pobres e ricos opressores e sempre haverá. Não há nada que possa ser feito”. Poema 20 “É o fim dessa lenga língua, da litania, do miserere da matilha, da novena, da dezena, da centena, da milícia. Celebrai a inutilidade da poesia. É o fim, hoje que a polícia matou Ricardo, com dois tiros, na frente do pão de açúcar, na luz cinzenta da tarde. Hoje, sim, hoje, dois tiros, no en legítima defensa, not in the War of Irak, but in my place. Matou com rapidez, no peito, com dois tiros, não no passado colonial, não no monte de açúcar que se chamava pão, nem na senzala, não. Na Mourato Coelho, a da elite descolada, não a do bandeirante com os vinte mil índios na corda. El libre policía, nascido no Capão, livre, free like you, like me. Mas Ricardo, para que passear com o papelão reciclado, se nem o poema ao lado te enxerga, de hoy hasta el fin de los días, vano afán, ciego sordo y sombrio, c’est la fin des haricots. Da picada. De la flor. No hay pinheiros em Pinheiros, Ricardo, como sabes. Aca es território alheio. Não seu. Que vengan los turistas a pasear al safari de los prietos, delante de la pizzería, cerca del mercado burgués. Venham todos vocês, los que puedan, los que quieran, ya no existe este país. Ya no es de nadie, não é de nada, já não custa nada este país.” É preciso fazer prevalecer a civilização, apesar de todas e tantas barbaridades, fazer retornar a questão do sentido da vida. Somos seres em busca de sentido. É a definição fundamental de ser humano e ser social. De outro modo, seríamos apenas animais totalmente programados. E, sobretudo, enfatizamos ainda, que consideremos afinal, a fraternidade como alguma coisa de essencial e sem a qual não vamos à parte alguma. Não resta dúvida quanto a isto, e a história humana até aqui o confirma. O vínculo social não se construirá a não ser que queiramos construí-lo, e se esse desejo for compartilhado ao menos por um grande numero de pessoas. Para os pessimistas de plantão, não há o remédio fácil dos otimismos cegos, vale a máxima do poeta alemão Hölderlin: “Lá onde crescem os perigos, cresce também a salvação”. Iniciamos a resenha lembrando de versos de Drummond. Voltemos a ele com uma estrofe do poema “Idade madura”: “Antes de mim outros poetas, / depois de mim outros e outros / estão cantando a morte e a prisão”. Falar já é sublimar. Pensando nas coisas é que se pode compreendê-las. Olhando intensamente para o mundo através de palavras e para as palavras através da nossa experiência do mundo. Pensando sobre esses “30 poemas para ler no exílio”, não há como deixar de lembrar aquilo que Nietzsche afirmou: “É uma bela loucura, falar – com isso, o homem dança sobre e acima de todas as coisas”. O senhor Wilson Alves Bezerra positivamente é da estirpe de poetas com a sensibilidade de um Drummond, e a lucidez agressiva de um Friederich Nietzsche. Encontramos em “Malangue Malanga” o discurso mágico que é o da palavra fora da significação corriqueira da linguagem. Um belo jogo com a linguagem estruturada que vincula o saber e o real, um saber que está inteiramente investido no fazer, um saberfazer. Continuemos, em todas as línguas, murmurando, falando, gritando, berrando, urrando que seja, mas não nos calemos. EM TEMPO: O Lançamento dessa obra sui generis acontecerá em uma grande party para a qual todos están debidamente invitados, e será promovido pelo Armazém do Campo e pela VA Cartonera, além da Multinacional Cartonera. - Dia 29 de junho (SÁBADO), a partir das 17h, no Armazém do Campo - Alameda Eduardo Prado, 499 - Campos Elíseos, São Paulo - SP. Próximo ao Metrô Marechal Deodoro. Quem não puder ir ao lançamento consegue a obra direto com o autor, via Facebook ou via email - wilson.alves.bezerra@gmail.com Livro: “Malangue Malanga (30 poemas para ler no exílio)” – Poesias de Wilson Alves Bezerra – Editoras da Multinacional Cartonera, 2019, 84 p.

    37 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    5 / 1
    • 5 estrelas100%
    • 4 estrelas0%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%