Dicionário de imprecisões -

    Ana Elisa Ribeiro

    Impressões de Minas
    2019
    132 páginas
    4h 24m
    ISBN-13: 9788563612618
    Português Brasileiro

    O que diz um dicionário sobre as coisas do mundo, sobre tudo e sobre o indescritível? A resposta a esse tipo de questão pode muito bem estar em um livro de poemas, que não tem, a rigor, o compromisso de definir ou descrever com precisão. E quem disse que os dicionários alcançam esse intento, afinal? Dicionário de Imprecisões é o oitavo livro solo de poesia de Ana Elisa Ribeiro, autora também de Álbum (Relicário, 2018, Prêmio Manaus), Xadrez (Scriptum, 2015) e Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013, semifinalista Portugal Telecom). Provocada por situações reais de consulta a dicionários, a autora compôs um imprevisível e impreciso volume, com palavras aleatórias, das mais substantivas às mais abstratas, como saudade ou pelo, por onde passeia sem cerimônia, hibridizando gêneros discursivos, confundindo e ironizando significados possíveis e as classes de palavras, sem deixar de tocar em temas micropolíticos e sociais. Este Dicionário, que certamente confundiria também livreiros mais distraídos, é editado pela Impressões de Minas, dentro do selo Leme, com o apuro gráfico-visual que somente um livro semiartesanal poderia apresentar. O design gráfico é de Elza Silveira e as ilustrações, em nankin, são de Wallison Gontijo. Papel metalizado, papel vegetal, cores e clichês ajudam a compor o objeto que chegará às mãos do/a leitor/a. Sem paratextos convencionais, este Dicionário se apoia na solitude dos livros para serem consultados, sem serem totalmente lidos, se for o caso.

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    Alexandre Kovacs06/08/2019Resenhou um livro
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    Ana Elisa Ribeiro - Dicionário de imprecisões

    Editora Impressões de Minas - 132 Páginas Projeto gráfico de Elza Silveira - Ilustrações de Wallison Gontijo - Lançamento: 2019 O projeto do livro tem como ponto de partida uma ideia original e muito bem executada por Ana Elisa Ribeiro: fazer poesia com a multiplicidade de definições de algumas palavras, prova de que somos incapazes de dominar por completo o léxico do nosso próprio idioma e que, em alguns casos, mesmo os dicionários tradicionais podem ser fontes pouco confiáveis. Sempre com uma abordagem inteligente e bem-humorada a autora nos apresenta alguns verbetes inusitados que podem revelar, por exemplo, certos preconceitos de gênero enraizados na sociedade ou simplesmente servir de motivo para escrever mais um poema. Entendo que as tais imprecisões mencionadas no título são decorrentes do caráter incerto do nosso viver, sujeitando as palavras às percepções vivenciadas individualmente e que nenhum dicionário, por mais completo que seja, pode definir. A poesia trabalha justamente nessa região imprecisa dos sentimentos e é nessa ligação improvável entre objetividade e subjetividade que as palavras e poemas encontram um espaço mágico para sua existência, ganhando novos e improváveis significados. Se você acha que a leitura de dicionários é uma tarefa apenas para filólogos e demais estudiosos da língua vai se surpreender com este livro. Amor (p.22) Substantivo masculino mas de todos os gêneros, singular Acalmar os ânimos. Arrefecer. Velocidade de cruzeiro. Sujeito a derivações, desvirtuações, vícios e fim. Ver paixão. Ana Elisa Ribeiro se arrisca a definir sentimentos tão complexos como o amor e a paixão, mesmo sabendo da impossibilidade de tal propósito mas, nesse exercício de criatividade, consegue algum sucesso e um sorriso de satisfação no rosto do leitor que acaba se reconhecendo de alguma forma. Mesmo quando lida com objetos (como no verbete Livro, reproduzido abaixo), a forma é sempre a de um dicionário, mas os critérios acabam sendo abstratos (livros podem ser perigosos, são feitos para perturbar etc). Livro (p.65) Substantivo masculino aqui singular, sujeito a plural Objeto controverso, de forma, textura, tamanho e natureza variáveis. Quase todos concordam: perigoso. Alguns, extremamente. Habitam à beira da cama, em mesinhas, cadeiras, banquetas, mas também em estantes onde se juntam – organizadamente ou não – a outros, menos e mais importantes, e onde repousam virgens ou se dão ao deleite, sendo indecentemente abertos quando se quer. Reproduzem-se em máquinas que os copiam à semelhança uns dos outros, ou de uma matriz, mas desde meados do século XX vêm se tornando fantasmagóricos, reproduzindo-se antes de existirem ou existindo por meio de materielidades instáveis e variáveis. Sensíveis à água e ao fogo, em vários casos, ao toque. Duráveis, conforme o cuidado de seus proprietários ou a fúria censora do momento. Feitos para conter, para transmitir e para perturbar, no que têm tido êxito. No verbete Dicionário (p. 41), um belo exemplo da inutilidade de todo esforço de classificação: "Grande parte das coisas do mundo são / desconhecidas e, então, parecem depender de um dicionário / para existirem. Mas não existirão só por isso. / Desse modo, o dicionário deve ser lido com intensa fé." Afinal, toda definição "é também uma tentativa de recortar, cercar, delimitar, excluindo mais do que explicando", Definição (p. 37). Paixão (p.89) Substantivo feminino singular Assombro, susto; desgoverno e desequilíbrio. É químico, insolúvel. Efêmero, graças a Deus. Tão verdadeiras são as descrições apresentadas no livro que, desconfio, muitas delas devem ter inspiração autobiográfica e, coisa óbvia, mas que nunca havia pensado, que definição melhor pode haver para a palavra poeta (de qualquer gênero) do que um poema. Poeta (p.99) Substantivo comum de dois ou mais gêneros, no entanto controverso porque um se considera em sua posse exclusiva Acordei em Paris. A poeta saía do jardim [com seu bloco de notas. Provavelmente atrapalhei [seu processo criativo ou dei-lhe novo mote. Acordei em Paris. Em vez de pensar nas [visitas aos pontos turísticos, só penso em pães e geleias além das ruas com folhas vermelho-amarelas pelo chão. A poeta deve estar dormindo [enquanto me pergunto o que despertará seus próximos poemas famosos. A edição é valorizada pelo acabamento cuidadoso e artesanal que conta com ilustrações de Wallison Gontijo em papel vegetal, contrastando com as páginas dos verbetes-poemas. Um livro que se lê com muito prazer e deixa saudade, por sinal uma palavra que mereceu três definições diferentes neste dicionário poético, todas insatisfatórias e imprecisas, mas muito lindas!

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