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    A época moderna e a construção da dicotomia entre o público e o privado -

    Patrícia M. S. Merlo

    EDUFES
    2017
    63 páginas
    2h 6m
    ISBN-13: 9788563765895
    Português Brasileiro
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    Privacidade, individualismo, civilização, esfera pública, opinião pública são algumas variáveis obrigatórias para análise da Época Moderna, sobretudo na história ocidental do século XVIII em diante. Até o final da Idade Média, o indivíduo se enquadrava em solidariedades coletivas, feudais, comunitárias: as solidariedades da comunidade senhorial, as solidariedades entre linhagens, os vínculos de vassalagem. Solidariedades e vínculos que encerravam o indivíduo ou a família em um mundo que não era nem público nem privado. Contudo, no século XIX a sociedade se transformou numa população anônima onde as pessoas já não mais se conheciam. O trabalho, o lazer e o convívio se tornam atividades separadas em compartimentos estanques. O indivíduo passou a se proteger dos olhares dos outros: desde então escolhe livremente, ou pensa que escolhe, seu estilo de vida ou se recolhe na família, refúgio do espaço privado.Historicamente variável e de fronteiras imprecisas, a distinção entre “público” e “privado”, longe de assinalar um fenômeno singular, traduz, antes, vários processos da organização da sociedade na modernidade. Público e privado constituem polos de uma das grandes dicotomias do pensamento ocidental, em torno da qual se tem gerado significativo debate na teoria social contemporânea. No livro Estado, governo e sociedade, Norberto Bobbio chama-lhe a “grande dicotomia”, por ser um binômio fundador que aglutina muitos outros e cujas fronteiras são difusas e intercambiáveis.Neste livro voltamos nossa atenção a essa dicotomia. Fazemos uso dos termos “público” e “privado” propondo ao leitor uma interpretação crítica das fronteiras entre espaço coletivo de sociabilidade e espaço individual de intimidade. Procuramos mostrar que, em grande medida, a vida privada, associada com a família, a intimidade, o Eu, foi moldada pelas mudanças operadas na vida pública. Na verdade, a construção histórica de uma vida privada capaz de se distinguir da vida pública revela uma das dinâmicas fundamentais das sociedades modernas. Buscamos a partir da invenção da técnica de impressão e sua difusão, no alvorecer da Época Moderna, localizar o ponto de partida para o surgimento da opinião pública. Analisamos esse processo a partir do uso crescente da imprensa durante a Reforma Protestante e a Contrarreforma, assim como durante a Revolução de 1640 na Inglaterra e o movimento das Luzes. Como veremos, o conjunto desses desdobramentos foram responsáveis pela criação de um espaço público institucionalmente independente do rei e um público dotado de opinião: nascia assim a opinião pública moderna. A consolidação desse processo resultou na quebra da força das antigas instituições da igreja e do estado e na constituição de uma “esfera pública ilustrada”. Assim, o conceito de opinião pública que vinha sendo forjado ao longo de todo o Período Moderno chegou a sua maturidade por volta de meados do século xviii, quando a própria expressão opinião pública foi inventada. Academias, cafés e salões tiveram um papel fundamental em alavancar esse processo que ganharia novas cores nas últimas décadas do século XVIII. A Revolução Francesa viu triunfar com seus jornais radicais a ampliação da esfera pública, que adquiriu uma dimensão bem mais ampla e popular do que tinha sido visto até então.

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    Patrícia Maria da Silva Merlo

    Doutora em História Social pela UFRJ, é professora adjunta da UFES, vinculada à graduação e ao Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em História. Professora de História Moderna, pertence ao Laboratório História, Poder e Linguagens (UFES). Possui dezoito livros publicados. Atualmente desenvolve pesquisa sobre Modernidade Ibérica e Ideias Políticas.

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    Espírito Santo, Brasil

    Patrícia Maria da Silva Merlo