“Só éramos loucos quando pensávamos que estávamos sozinhos. Agora éramos dois, e ambos éramos perfeitamente normais aos olhos um do outro. E para mim, ali no escuro, isso significava tudo.”
Daniel tem quase certeza de que tem TOC, mas não quer que ninguém em sua vida saiba. Pois, não quer ser visto como estranho ou um esquisito, então mantém isso em segredo. No entanto, alguém sabe a verdade sobre ele. Após receber um bilhete misterioso, ele descobre que há alguém que não só sabe sobre seu TOC, mas também que guarda um segredo. Os dois estranhos se unem para se ajudarem mutuamente a superar seus próprios obstáculos, mas não sem alguns obstáculos extras ao longo do caminho.
Este livro foi escrito por Wesley King, um autor que, assim como Daniel, tem transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e foi realmente comovente e informativo ver as lutas diárias de alguém que sofre desse transtorno. Há muitas emoções neste livro, e a maioria provenientes dos pensamentos e ações de Daniel. Embora haja muitos pontos tristes em vê-lo tentar esconder e controlar sua ‘loucura’, também foi inspirador vê-lo começar a entender seu transtorno.
O romance é narrado pela perspectiva de Daniel, ou seja, em primeira pessoa, nos contando de forma realista e autêntica os seus problemas descrevendo seus sintomas obsessivo-compulsivos e suas crises sofrendo em silêncio por ainda não ter o diagnóstico de TOC.
Daniel apresenta, portanto, um apelo textual sincero e, às vezes, comovente, por respeito e aceitação para todos, incluindo aqueles que vivenciam e lidam com problemas de saúde mental e neurológicos (temperado com e por uma boa e necessária dose de humor e sagacidade para não transformar o texto, a história, em um festival de lágrimas piegas).
Um dos pontos que mais gostei dessa história é que Daniel está cercado por personagens secundários interessantes, sendo que para alguns o autor dedica um desenvolvimento com começo, meio e fim. Não há o clichê dos valentões, garotas malvadas, professores/treinadores injustos, nem nenhum desses outros personagens estereotipados do ensino fundamental muito presente na literatura infanto-juvenil estadunidense.
O seu melhor amigo é um atleta popular, é inteligente, paciente e leal a Daniel. O seu irmão mais velho parece menosprezá-lo um pouco, exceto quando o ajuda. A sua irmã mais nova não é espertinha nem um Yoda. A mãe me pareceu subaproveitada na história, nem mesmo tive a oportunidade de conhecer o básico de sua personalidade.
Em contrapartida, o autor nos conta que o pai é um pouco distante de Daniel e tem dificuldade para se comunicar com ele, mas que sempre se esforça ao máximo para ter seus momentos com o filho. Viu? Ninguém aqui é um ‘cara mau’.
Entretanto, deixe-me pontuar um detalhe que a mim não passou despercebido: a família de Dan ou é muito relapsa ou não se importa nem um pouco com a existência do outro. Eles eram muito negligentes! Esse garoto exibia inúmeras tendências de TOC (andar pela casa com certos padrões repetitivos, uma rotina de hora de dormir muito específica, apertar interruptores de luz um número específico de vezes). Ele ficava literalmente acordado até às 4 da manhã regularmente porque não conseguia mudar sua rotina de hora de dormir e eles nunca perceberam?! Isso não me pareceu crível.
Outro questionamento que me fiz durante a leitura foi sobre o protagonista embarcar numa jornada de ‘detetive para desvendar um assassinato’. Não tenho tanta certeza de por que o autor fez Daniel se esgueirar para dentro de uma possível casa de assassinato. Entrar escondido nesta casa não causaria mais estresse para o protagonista? Não entendi a premissa aqui. Pessoas com qualquer tipo de transtorno mental, pelo pouco que sei, evitam o estresse, embora estejam quase sempre vivendo no limite por conta disso.
Talvez o autor estivesse tentando nos mostrar que Daniel era corajoso e nunca desistia. Embora o mistério possa ter sido irrealista, Wesley conseguiu sustentar essa ‘decisão criativa’ na sua história e a subtrama de Sara (ambos investigam o que houve com o paradeiro do pai dela que desapareceu repentinamente de sua vida) não prejudicou o arco geral da trama principal.
Embora o livro tratasse de um assunto sério, muitas vezes me peguei sorrindo enquanto lia, porque Daniel é um cara tão legal, que suporta a tragédia em sua vida com tanta força interior e grandeza, e até zomba de tudo, que é impossível não gostar dele.
As investigações que ele e Sara empreenderam são emocionantes e um pouco trágicas, ainda que pareçam irrealistas e adequadas à idade, dá ao livro uma dimensão adicional que se encaixa tão bem na estrutura mais ampla desta narrativa quanto o livro que Daniel escreve secretamente, do qual lemos partes.
Daniel também é um aluno do oitavo ano e reserva do time de futebol americano ‘Eerie Hills Elephants’, posição frequentemente considerada a menos gloriosa e menos atlética, mas que ele prefere que seja assim, além de trabalhar com o abastecimento de água para a equipe do que treinar e jogar de verdade.
Mas, um belo dia ele é convocado para substituir um jogador da sua equipe que se lesionou em dos jogos do campeonato. Então, começam novos capítulos na vida do protagonista que, até então, nunca participou dos jogos escolares e nunca esteve em ação em campo no futebol americano.
E aqui pontuo outro aspecto irrealista (em minha opinião) que era a ‘sorte’ de Daniel durante os jogos escolares. Ele é ruim nos treinos porque todo mundo está assistindo, mas de alguma forma ele ajuda o time a vencer sempre que está em campo.
Futebol americano faz parte da cultura estadunidense e compreendo a ênfase que o autor coloca em sua história. Mas, convenhamos: o nosso futebol – o futebol latino-americano -, sem qualquer resquício de dúvidas é mais emocionante e empolgante. E, parece até mais coerente. Desculpem, sem clubismo aqui (risos maléficos ecoam de minha garganta!).
Por fim, ficamos sabendo que o romance é semiautobiográfico. Wesley sofre de TOC e não sabia que suas compulsões e pensamentos eram um transtorno até os 16 anos. Ele, assim como Daniel, não contou a ninguém sobre suas rotinas e pensamentos e sofreu em silêncio por anos. Daniel e Sara lutam ao longo do livro com a noção de ser ‘normal’, e o autor fez um trabalho incrível em lembrar ao leitor que todos têm algo com o qual estão lidando de alguma forma.
O amigo de Daniel, Max, tem um pai ausente que ele tenta constantemente agradar, a mãe de Sara luta com seus relacionamentos familiares e a paixão de Daniel, Raya, pode ficar na defensiva em relação à sua cultura quando acha que ela está sendo ridicularizada.
Este romance é fantástico por muitos motivos, embora apresente algumas inconsistências narrativas, momentos de irrealidades (considerando que esse romance não pertence ao gênero ‘fantasia’) e estereótipos da literatura estadunidense que me pareceram datados para o século XXI.
Mas eu, enquanto um grande apreciador da literatura e leitor incansável, afirmo-lhes que esse é um livro que pode mudar a vida de uma pessoa – para lembrá-la de que ela não está sozinha e que conversar e compartilhar suas experiências pode salvar vidas.
Se você está a fim de um romance emocionante com mistério, intriga e personagens maravilhosos, sem se levar a sério demais, sem pesar ‘o clima’ da história mesmo abordando temas tão densos, recomendo a leitura desse livro como um passatempo para rir e indagar o que de fato aconteceu com o pai de Sara. Divirtam-se!