Pensar o devir urbano implica, indispensávelmente, na elaboração de um projeto. É, pois, um projeto de cidade que se insinua nas entrelinhas deste livro. Sua froma, indefinida, não permite desenhá - la sobre o papel. Seu desenho, na verdade, somente será conhecido na medida em que for sendo coletivamente realizado, através das práticas sócio-espaciais cotidianas.
Forma e movimento -
Cristovão Fernandes Duarte
Os fixos e os fluxos da cidade
Em forma e movimento, como o nome sugere, nos traz discussão da forma da cidade (s) e dos movimentos nela (s) existentes. E qual seria a hierarquia disto? A forma dita o movimento ou o movimento dita a forma? Neste livro, encontraremos uma abordagem direta, com um apanhado geral da conceituação da cidade tradicional (pré-industrial) e da cidade moderna (cidade industrial) e a forma como ambas se comportam no espaço urbano. "A cidade, antes concebida como uma obra de arte coletiva, é substituída pela cidade-produto". "...as novas redes de circulação..., implicaram na destruição massiva da espacialidade herdada da cidade tradicional." Ou seja, o livro aborda uma crítica consistente no que tange a cidade tradicional e modo de vida como ali acontecia em relação a cidade moderna, criada para satisfazer o capitalismo, para que os automóveis circulem livremente, cortando as relações estre o espaço e o corpo. Distanciando a importante relação entre os fluxos e os fixos. "A negação da cidade, transformada agora em espaços de trânsito, produziu uma completa desarticulação entre as partes que tradicionalmente a integravam, revelando assim, os processos de homogeinização e fragmentação, presentes na cidade moderna e que permanecem na cidade contemporânea." As cidades atuais tornaram-se reféns dos automóveis, que juntamente aos grandes empreendimentos, no livro figurados pelos shopping centers e condomínios, constituem o grande refúgio humano. Ora, se o humano ao sair de seu condomínio, logicamente em seu carro, e do mesmo ir para o shopping, ou trabalho, não houve em momento algum contato verdadeiro com a cidade. O carro foi a figura central da rua, estabelecendo esta "nova" relação entre fixos e fluxos. No livro, temos a Barra da Tijuca como estudo de caso, bairro projetado na década de 60 por Lúcio Costa. A Barra é muito conhecida pelo fenômeno acima descrito (existência de shoppings e condomínio) e nesta dialética, é possível observar que a mesma foi projetada na grande escala, ou seja, do automóvel. Pequenos movimentos, considerados rotineiros, devem obrigatoriamente se realizados de carros, afinal é tudo muito distante, grande, nada se apresenta na escala humana. Praças é um equipamento quase que exclusivamente dos condomínios. A vida na rua é caracterizada pelo vai e vem de carros e pelos poucos pedestres que saem da estação de BRT ou metrô e esperam impacientemente os semáforos serem fechados. E todo este uso exacerbado dos muito carros particulares é com certeza, uma atitude nada sustentável. O livro mostra dados da emissão de gases poluentes liberados na atmosfera em algumas cidades, que segundo o "Banco Mundial, a cada ano, a poluição gerada pelo transporte motorizado causa a morte prematura de mais de meio milhão de pessoas por problemas respiratórios e outras doenças relacionadas à poluição atmosférica." Enfim, o livro nos chama para revivermos as "ruas como o suporte por excelência", para nós as revivermos e não os carros a significarem (ou seria descaracterizá-las!?). Seria, portanto, construirmos cidades em simbiose com a arquitetura, desacelerar o movimento dos corpos na cidade. Vivenciar o espaço e por vezes, nós fluxos nos tornarmos fixos nestes espaços.
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