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    Mary Ventura e o nono reino -

    Sylvia Plath

    Biblioteca Azul
    2019
    48 páginas
    1h 36m
    ISBN-13: 9788525068484
    Português Brasileiro
    4.2
    758 avaliações
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    Favoritos57Desejados548Avaliaram758

    Uma fábula simbólica e obscura, como a própria autora o define, este texto foi escrito quando Sylvia Plath completava vinte anos e permaneceu inédito desde então. Mary Ventura e o nono reino se passa durante uma viagem de trem, e nele estão contidos os dilemas da entrada na vida adulta e o momento em que se assume o controle do próprio destino. É um conto alegórico carregado de referências sutis, com a riqueza visual que define o estilo de sua autora.

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    Lelê02/09/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Inferno é Gelado

    “Entre dois mundos a vida paira como uma estrela, Entre noite e aurora, sobre a linha do horizonte. Quão pouco sabemos do que somos! E menos ainda do que podemos ser!” — Lord Byron, “Don Juan”  “Mary Ventura e o Nono Reino” apresenta uma narrativa fluida como um riacho tranquilo, mas, em simultâneo, carrega um ar sombrio e cheio de metáforas. Na minha opinião, a escrita da Sylvia Plath tem gosto de chocolate amargo — o amargor ficando mais evidente com o passar das páginas. Achei muito interessante a editora ter preferido o original rejeitado e descartado a versão mais recente. Tenho quase certeza de que a rejeição pela revista Mademoiselle cegou a autora, pois, dois anos depois do ocorrido, Plath revisou a história, mudando o título para “Marcia Ventura e o Nono Reino” e reduziu sua forma de maneira tão expressiva que acredito que deve ter perdido sua essência. O curioso é que essa história foi rejeitada pela revista por simplesmente considerarem “sombria demais”. Mas fiquei genuinamente confusa com isso, porque achei tudo bem tranquilo, levemente sinistro e extremamente intrigante. Depois de Edgar Allan Poe nada mais me assusta. Os contos do Edgar, que são, sim, obscuros e macabros, já esse conto da Sylvia Plath é envolto por uma névoa densa que se desfaz ao longo da leitura. “ — Bem, pelo menos os demais passageiros parecem satisfeitos. — Parecem, não é mesmo? Esse é o horror. — Horror? — disse Mary, aumentando o tom de voz. — O que você quer dizer com horror? Tudo em você ressoa mistério. — É muito simples. Os passageiros são tão blasé, tão apáticos, que não ligam para onde estão indo. Eles não se preocupam até que a hora chega, no Nono Reino.” Mary Ventura é persuadida pelos seus pais a embarcar em uma viagem de trem misteriosa. A última estação, intitulada como Nono Reino, é desconhecida pela garota. Mary não faz ideia do que a espera, mas, ao observar as paisagens pela janela, os passageiros apáticos e uma mulher enigmática, percebe que algo está muito errado. Essa mulher mais velha sentou-se no mesmo assento que Mary, sendo uma companhia agradável na maior parte do tempo, mas seus comentários estranhos começaram a confundir cada vez mais a pobre menina, a assustando ainda mais. Afinal, quem seria essa mulher? Por que o nome dela não foi revelado? Nenhuma das duas perguntou o nome uma da outra. Fiquei encucada por Mary confiar em uma senhora em que sabia tão pouco. E se essa senhora não existisse? Em certo momento da leitura, me lembrei do grilo falante que agia como se fosse a consciência de Pinóquio. Essa senhora poderia ser a consciência de Mary? Será que o final faria mais sentido com a minha teoria? Seria mais poético e simbólico? Entretanto, Bert, vendedor de doces, descartou completamente essa minha teoria maluca, porque parecia que ele tinha um papel similar ao da Mulher Misteriosa (vamos chamá-la assim a partir daqui). Não ficou claro se Bert e a Mulher Misteriosa agiam como uma consciência para os passageiros, mas parecia que ela tinha o dever de alertá-los, despertá-los. A autora brincou com a realidade e a fantasia, escorregando para o sobrenatural, ou seja, um conto onírico com uma narrativa surrealista. Certo, vamos reformular então: seriam Bert e a Mulher Misteriosa seres divinos? Ele mencionou um chef para o qual trabalharia. Deus? O diabo? Essa fábula é confusa, intrigante e fascinante, aberta a inúmeras interpretações. O maquinista poderia ser muito bem a Dona Morte disfarçada. Inclusive, fiquei esperando que ele se virasse para Mary, sorrisse diabolicamente e gritasse: “A sua hora chegou! MUAHAHAHA!”. Então ergueria sua foice e, com um só golpe, daria um fim à vida da menina. A Dona Morte soltaria uma gargalhada seca e ameaçadora novamente enquanto se deleitaria com o cheiro acre do trágico fim. Desculpa, me empolguei, sobre o que eu estava escrevendo mesmo? Ah! Bom, fiquei genuinamente confusa quando nada aconteceu porque estava esperando que a protagonista fosse atacada a qualquer momento (o que seria até emocionante). Os passageiros, por outro lado, pareciam não se importar para onde estavam sendo levados. Era como se estivessem adormecidos, entorpecidos, cegos. Todos estavam no modo automático, como se fosse possível ligar um botão que fizesse com que o nosso corpo estivesse presente, mas o consciente não. Devo confessar que, quando estava com esse “botão” ligado, eu tentei, mas não consegui ir muito longe nessa resenha. Parecia que eu era um dos passageiros, sentada no assento felpudo vermelho, com o olhar perdido na janela, sem ver nada, sem sentir nada. Entorpecida, completamente entorpecida. Uma neblina tão densa diante dos meus olhos que nem os ventos mais fortes conseguiriam dispersar. O meu corpo estava obrigatoriamente presente, mas eu me encontrava aprisionada dentro de mim mesma. A sensação é estranhamente similar à paralisia do sono. Se eu estava presa no trem da morte rumo ao fim da linha, a um caminho sem volta, isso pouco importava. Nem mesmo Mary, embora hesitante e receosa, questionou sobre seu destino final. Somente quando a Mulher Misteriosa levantou essas questões é que o medo e o pânico se espalharam mais profundamente, transbordando em forma de lágrimas. Por mais que essa moça desafortunada só estivesse nessa viagem sombria a pedido dos pais, não acredito que eles quisessem se livrar da filha, muito pelo contrário. Na estação de trem, por exemplo, a mãe tenta acalmá-la após o jornaleiro anunciar: “Extra, extra... dez mil pessoas condenadas... mais de dez mil pessoas...”. Uma coisa é certa: uma boa escritora não joga informações desnecessárias na trama. Tudo na narrativa costuma ter um porquê, um propósito. Seguindo essa linha de raciocínio, algo grave poderia estar acontecendo na cidade onde moravam. Os pais, preocupados com a filha, decidiram mandá-la para o Norte. Prestando bem atenção aos detalhes, pareciam estar se escondendo, a própria autora destacou isso de modo bem sutil. As palavras “disfarçado”, “escondido” e “escondeu” soltaram das páginas para mim.  “ — Você sabe como são os trens — disse o pai de Mary Ventura, disfarçado em seu chapéu de feltro cinza, como se viajasse escondido. — Os trens são assim. Eles não esperam.” “ — Agora vamos, seja uma boa menina. — A mãe de Mary escondeu uma mecha loira de cabelo sob seu chapéu de veludo preto. — Será uma viagem tranquila. A hora da partida chega para todos. Mais cedo ou mais tarde, todos vão embora.” Essa fábula tornou-se meu novo queridinho, principalmente por ter me lembrado da minha trilogia favorita, As Peças Infernais, da Cassandra Clare. Me lembrei da minha amada Theresa, completamente encantada na estação de trem, com Jem e Will ao seu lado. Por ser a primeira vez que viajaria de trem, Tessa estava muito animada. O fato de eu ter lido essa trilogia fez com que o meu cérebro criasse um contraste incrível: Tessa, corajosa e cheia de vida, tendo visto muito pouco do mundo, estava mais do que disposta a ir para qualquer lugar. Mary, sensível e perspicaz, com medo e preocupada, não se sentia preparada para ir a lugar algum sozinha. A vontade de Mary deveria, sim, ter sido considerada, mas às vezes tudo o que precisamos é de um empurrãozinho vindo de quem amamos. Perdi as contas de quantas vezes agradeci à minha mãe pelo empurrão. Se não fosse por ela, eu estaria completamente perdida e teria deixado passar muitas oportunidades valiosas. Só que, no caso desse conto, o empurrão pareceu mais um ato desesperado, como se fosse a única opção e não uma oportunidade. Sendo assim, fiquei repassando a imagem da Tessa observando tudo com fascínio e atenção, segurando seu delicado chapéu para que não voasse. E, ao lado dessa imagem vívida, estava Mary com a expressão assustada e sendo praticamente arrastada pela mãe pela estação de trem, enquanto Tessa era guiada gentilmente por Jem. Que contraste incrível, não? Mais do que isso, essa fábula e a trilogia têm coisas em comum também, como o céu cinzento e a atmosfera sombria e misteriosa, carregada de um ar denso e esfumaçado. Pensando bem, talvez Mary pressentisse que algo de ruim fosse acontecer não só com ela, mas com seus pais. Seria por isso a sua hesitação em deixá-los? Seu pânico em querer voltar para casa a todo custo, o mais cedo possível? Há muitas perguntas sem respostas, e, quanto mais você reflete, mais perguntas surgem. Os comentários da Mulher Misteriosa deixam Mary e os leitores atentos a tudo ao seu redor, como quando ela comenta do gelo se formando nas paredes subterrâneas. Na hora, isso me levou novamente à trilogia As Peças Infernais, logo no início do primeiro livro, quando Tessa corrige Will dizendo que o inferno é gelado. De fato, o Nono Reino parece representar o inferno, ainda mais quando a Mulher Misteriosa diz: “A dor não é tão intensa quando se é resistente ao frio.” Em “A Divina Comédia”, Dante atravessa o Inferno, passa pelo Purgatório — onde as almas se purificam — e culmina no Paraíso. A jornada de Mary é curiosamente parecida, mas com uma narrativa menos direta e mais alegórica. “ — Pelo Anjo, é como o nono círculo do Inferno aqui embaixo...  — O nono círculo do Inferno é frio — disse Tessa automaticamente.   Will a encarou. — O quê? — Em ‘Inferno’, da Divina Comédia — disse ela. — O Inferno é frio. É coberto de gelo.”  Admito que não li “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, mas depois dessa preciso urgentemente ler esse clássico icônico. Não há evidências diretas de que Sylvia Plath tenha se inspirado nessa obra, mas a complexidade e a jornada emocional fazem com que muitas comparações surjam. E teria então Cassandra Clare se inspirado em “Mary Ventura e o Nono Reino”? A trilogia tem muitas semelhanças com essa fábula também, tantas que não sei nem por onde começar. A própria protagonista, Mary Ventura, é muito parecida com Theresa Gray. O incrível é que essas meninas têm diferenças e semelhanças ao mesmo tempo. Por exemplo, temos o contraste que apresentei acima, com Tessa e Mary na estação de trem a caminho do seu destino. Mas, logo depois, Mary me surpreende com a sua personalidade perspicaz e direta, observando tudo com atenção e fazendo muitas perguntas à Mulher Misteriosa, como a minha estimada Tessa em “As Peças Infernais”. Nisso, elas têm muito em comum. Will gritando para Jem e Tessa se apressarem porque o trem não vai esperá-los me fez lembrar do pai da Mary dizendo praticamente o mesmo para a filha: “Os trens são assim. Eles não esperam.” Que loucura! As minhas duas histórias favoritas se encaixam perfeitamente uma na outra. Porque, sim, esse conto entrou na lista de favoritos, bem ao lado da minha trilogia predileta. Em suma, “Mary Ventura e o Nono Reino” é um conto simbólico de Sylvia Plath, escrito em 1952, aos seus 20 anos. Plath cometeu sua primeira tentativa de suicídio um tempo depois. Fiquei procurando sinais de que a autora não estava bem mentalmente, um aviso sutil em algum cantinho. A depressão é perigosa, silenciosa e corrosiva. Uma doença que mata lentamente, corroendo as melhores partes de ti ao ponto de não sobrar nada a não ser a cegueira e o desejo de não existir mais. Ainda na mocidade, a autora explorou a angústia e os dilemas que os jovens enfrentam ao tornarem-se adultos e serem confrontados com as suas responsabilidades. A sensação de confinamento no comboio reflete o aprisionamento que muitos sentem perante situações impostas, aflorando o medo de um futuro indesejado. Se fizermos a vontade dos outros e não a nossa, a consequência certamente será desastrosa. Ao decorrer da leitura, senti que a morte estava à espreita, uma presença tão gélida que entorpece os sentidos e, em vez de acelerar o coração, diminui os batimentos. O coração engasga, tropeça, quase para, enquanto o frio penetra cada vez mais fundo. Se a morte é fria, faz sentido o inferno ser gelado. Contudo, a autora, no último segundo, te chacoalha abruptamente. O susto me fez acordar do que parecia ser um pesadelo tenebroso. Muita obrigada, Sylvia Plath, por esse choque de realidade. Fico realmente feliz de ter lido esse livro na hora certa. No fim, todos os trens levam ao Nono Reino. A questão é: como será a sua jornada até lá?

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    Sylvia Plath profile picture

    Sylvia Plath

    Sylvia Plath foi uma poetisa, romancista e contista norte-americana. Reconhecida principalmente por sua obra poética, Sylvia Plath escreveu também um romance semi-autobiográfico, <i>A Redoma de Vidro</i>, sob o pseudônimo Victoria Lucas, com detalhamentos do histórico de sua luta contra a depressão. Assim como Anne Sexton, Sylvia Plath é creditada por dar continuidade ao gênero de poesia confessional, iniciado por Robert Lowell e W.D. Snodgrass.

    35 Livros
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    Massachusetts, Estados Unidos

    Sylvia Plath