Dead Space: Entre a fé, o medo e a carne
Quando comecei Dead Space: Martyr, confesso que fui com o pé atrás. Livros derivados de franquias famosas costumam cair no velho problema de serem apenas produtos feitos para lucrar em cima do nome — histórias rasas, cheias de fanservice barato e pouco cuidado com o texto. Mas, felizmente, esse não é o caso aqui. O livro surpreende por ser genuinamente bem-feito e entregar uma história que se sustenta sozinha. A escrita é um dos primeiros pontos que se destacam. É fluida, instigante e consegue descrever muito bem não só as deformidades grotescas dos necromorfos, mas também as insanidades mentais que vão corroendo os personagens ao longo da narrativa. Dá pra sentir o horror na pele — e não só o body horror, mas também o psicológico, o suspense quase investigativo e uma boa dose de ficção científica. O autor dá conta de todos esses elementos com competência. O personagem de Altman é outro acerto. Acompanhar sua jornada, do ceticismo inicial à curiosidade crescente, é muito envolvente. Ele carrega boa parte da história e serve como âncora para o leitor dentro de um universo que está, literalmente, em colapso. Além disso, o final é um ponto alto: a reviravolta que acontece ali é inesperada, bem construída e fecha a história com força. Claro, o livro tem seus problemas. O tamanho pode desanimar — não que seja enorme, mas a leitura se arrasta em alguns momentos esporádicos. Além disso, há algumas incongruências com o cânone dos jogos (não entrarei em detalhes para não estragar experiências). Pode ser um incômodo para quem já conhece a série, mas para leitores que nunca jogaram Dead Space, isso provavelmente vai passar batido. E tem também o detalhe de que ele nunca foi lançado oficialmente no Brasil. Uma pena enorme, porque o livro teria público por aqui — especialmente entre fãs de horror e ficção científica. No fim das contas, Martyr não só entrega uma boa história dentro do universo de Dead Space, como também se sustenta como obra independente. É, sim, um baita acerto para quem curte uma narrativa tensa, cheia de paranoia, corpos mutilados e insanidade crescente. E o melhor: não é só barulho vazio. A história é boa, tem alma, e fecha com chave de ouro. Vale demais a leitura! Altman be praised!

