Sex: o peso do prazer e a arte por trás disso
Há obras que existem para entreter. Há obras que existem para provocar. E há, em intervalos raramente generosos da história cultural, obras que existem para romper, de forma irreversível, o tecido social do que é permitido imaginar, descrever, fotografar e desejar em público. Sex, de Madonna, publicado em outubro de 1992, pertence a essa terceira categoria com uma autoridade que o tempo não apenas preservou, mas amplificou com uma elegância quase cruel. Ler o livro hoje, sabendo de tudo que o cercou, de cada polêmica, de cada exemplar vendido, de cada colunista que tentou destruí-lo e fracassou, é uma experiência que ocupa um lugar específico entre a arqueologia cultural e a confirmação visceral: ele funcionou. Mais do que funcionou. Ele redefiniu os termos da conversa. Chegar ao livro com plena consciência do seu contexto histórico é uma condição que transforma radicalmente a leitura. Não como desvantagem, mas como camada adicional de densidade interpretativa. Em 1992, o mundo ocidental estava imerso num paradoxo brutal: a revolução sexual das décadas anteriores havia sido sufocada pelo terror coletivo da crise do AIDS, e a resposta institucional e midiática ao vírus havia ressuscitado, com toda força reacionária, os fantasmas da abstinência, da culpa e da patologização do desejo. A sexualidade gay, em particular, era associada publicamente à morte, ao desvio e à vergonha, enquanto a sexualidade feminina autônoma, aquela que não precisava de um homem como centro gravitacional, seguia sendo tratada como anomalia moral. Dentro desse clima de medo e interdição, Madonna não apenas lançou um livro de fotografias eróticas. Ela lançou um dispositivo ideológico embrulhado em alumínio espelhado, lacrado numa embalagem de mylar que evocava propositalmente a textura de um preservativo, e o colocou nas prateleiras de livrarias nos subúrbios americanos ao preço de cinquenta dólares. A brutalidade simbólica desse gesto, sua precisão calculada e seu desafio simultâneo ao mercado editorial, à moral pública e à ideia de celebridade pop, constitui uma das jogadas mais radicais da história da cultura popular no século XX. O objeto em si já é uma declaração antes que qualquer página seja virada. As capas de alumínio e a espiral metálica projetadas por Fabien Baron, diretor criativo da Harper's Bazaar e um dos maiores nomes do design editorial da época, comunicam uma frieza industrial que contrasta de forma perturbadora com o conteúdo que protege. Baron entendeu que Sex não poderia ser apenas um livro de fotografias eróticas: precisava ser um artefato, algo que existisse como objeto no mundo com a mesma presença e autoridade de uma escultura. O resultado é que o livro impõe sua materialidade sobre o leitor antes mesmo que as imagens comecem a trabalhar. Há algo quase violento nessa escolha estética, uma recusa em oferecer conforto ou familiaridade formal ao observador. Não há capa macia, não há lombada gentil, não há nada que convide ao relaxamento. O livro resiste ao toque antes de se render a ele, e essa resistência é narrativa. Steven Meisel, cujo domínio técnico da fotografia de moda era já naquela época incontestável, opera aqui num registro completamente diferente de qualquer coisa que havia feito antes. As imagens de Sex percorrem um espectro estético deliberadamente fragmentado: há ecos de Helmut Newton na brutalidade dos ângulos de poder, de Guy Bourdin na saturação perturbadora de certas composições, de Robert Mapplethorpe na precisão quase clínica com que o corpo masculino negro é fotografado, e de Man Ray na tendência surrealista que emerge em alguns frames. Essa capacidade de habitar múltiplos vocabulários visuais simultaneamente, de fazer uma fotografia parecer ao mesmo tempo um achado pornográfico anônimo e uma peça de museu, é o que transforma o trabalho de Meisel no livro de algo potencialmente escandaloso em algo genuinamente artístico. O que impressiona não é a explicitação, mas a composição. A geometria do desejo que ele desenha com luz e enquadramento carrega uma inteligência formal que as críticas mais histéricas de 1992 foram incapazes de processar, ocupadas demais em gritar sobre o conteúdo para perceber a sofisticação da forma. E o conteúdo, nesse contexto todo, merece ser descrito com a precisão que ele exige. As fotografias de sadomasoquismo que atravessam o livro, as imagens de corpos encerrados em couro e látex, as cenas de bondage, as representações de sexualidade entre pessoas do mesmo sexo, tudo isso não era, em 1992, simplesmente provocação pelo prazer da provocação. Era cartografia. Madonna e Meisel estavam mapeando um território do desejo humano que a cultura mainstream simplesmente se recusava a reconhecer como existente, quanto mais como legítimo. Cada fotografia de duas mulheres juntas, cada imagem de homens negros em poses de poder erótico, cada cena de submissão consensual fotografada com a seriedade e a beleza formal de um editorial de moda de alto nível, era uma afirmação de que esses corpos, esses desejos e essas práticas mereciam o mesmo espaço estético que qualquer outra forma de expressão humana. O couros e látex que percorrem o livro não são meros acessórios fetichistas: são uma linguagem. Uma linguagem que a cultura pop nunca havia falado com essa fluência e esse volume. O que me parece mais impressionante, revisitando o livro com o distanciamento do tempo, é a forma como ele envelhece. Não da maneira que seus críticos esperavam, como documento vergonhoso de um excesso calculado que o tempo tornaria patético, mas ao contrário: ele envelhece como uma garrafa de vinho que alguém teve a sabedoria de guardar, ganhando densidade e complexidade com cada ano que passa. Em 2025, décadas depois de sua publicação, Sex não parece datado porque o que ele representa nunca foi completamente resolvido. A liberdade sexual da mulher, o prazer carnal feminino tratado como sujeito em si mesmo e não como acessório do desejo masculino, os fetiches e práticas que a norma heterossexual ainda reluta em reconhecer como expressões válidas da sexualidade humana, todas essas batalhas seguem incompletas. O livro fala ao presente com a mesma urgência com que falava ao seu próprio tempo, e isso é a definição precisa de uma obra que transcende as circunstâncias de sua criação. A decisão de Madonna de habitar uma persona fictícia chamada Dita ao longo do livro, uma dominatriz de fantasia que funciona como narradora implícita das imagens, adiciona uma camada de distância estratégica que é tanto proteção legal quanto sofisticação conceitual. Dita não é Madonna, mas Madonna é Dita com uma clareza que não engana ninguém. É um jogo de espelhos que tem a seriedade de um exercício literário: a persona permite que o conteúdo mais radical seja habitado com total comprometimento enquanto mantém uma saída de emergência que nunca é realmente usada. Madonna nunca pisca. Nunca sinaliza que está apenas fingindo. E é esse comprometimento absoluto, essa recusa em dar ao espectador a confortante saída da ironia distante, que torna o livro tão desafiador hoje quanto era em 1992. O elenco de colaboradores que povoa as imagens merece atenção particular. Isabella Rossellini traz uma aura de cinema europeu e legitimidade cultural que ancora o livro num território que a crítica achava mais difícil de descartar. Naomi Campbell, no auge de sua influência como uma das maiores modelos do mundo, empresta ao projeto o peso de alguém que não precisava daquele risco e o correu mesmo assim. Big Daddy Kane e Vanilla Ice, rappers de universos completamente diferentes, aparecem em imagens de interracialidade erótica que, no contexto dos Estados Unidos de 1992, tinham uma carga política que muitos leitores contemporâneos podem subestimar. A presença do ator pornô gay Joey Stefano é, provavelmente, o gesto mais radicalmente inclusivo de todo o projeto: num momento em que a pornografia gay era sinônimo de morte e vergonha no imaginário coletivo americano, Madonna fotografou um de seus intérpretes mais conhecidos com a mesma seriedade estética com que tratou todos os outros participantes. É impossível discutir Sex sem reconhecer o custo que ele teve sobre a carreira de sua criadora, e igualmente impossível não perceber que esse custo, por maior que tenha sido no curto prazo, compra um legado de proporções extraordinárias no longo prazo. A virada negativa na recepção pública que se seguiu ao lançamento do livro, combinada com o álbum Erotica que o acompanhou, interrompeu a fase imperial de Madonna com uma brutalidade que nenhum de seus contemporâneos havia experimentado em circunstâncias comparáveis. Mas o que a história demonstra, com a ironia deliciosa que costuma reservar para quem paga o preço da antecipação, é que Madonna estava certa e seus críticos estavam errados. Estava certa sobre a sexualidade como território político. Estava certa sobre o prazer como ato de resistência. Estava certa sobre a necessidade de uma presença queer vigorosa, afirmativa e esteticamente impecável na cultura mainstream num momento em que a epidemia de AIDS tornava essa presença simultaneamente mais urgente e mais atacada. Há uma frase que Madonna escreveu para a abertura do livro, declarando que aquele era um espaço sem AIDS, um espaço de fantasia onde o desejo poderia existir sem o peso da morte. Essa frase carrega uma melancolia enorme quando vista em retrospecto. O livro não era fuga da realidade: era a criação deliberada de um espaço utópico num mundo que estava sofrendo de forma catastrófica. Cada fotografia de prazer desimpedido, de corpos entregues uns aos outros sem medo, era também um gesto de luto e de resistência ao mesmo tempo. Essa dimensão do livro, política no sentido mais profundo e pessoal do termo, é o que separa Sex de qualquer outro projeto remotamente comparável na história da cultura pop. Não há nada que se aproxime do que ele fez, com a seriedade com que fez, no momento em que fez. Tecnicamente, a produção do livro é ela mesma um argumento estético. O processo de impressão, que levou oito meses para ser desenvolvido por conta da complexidade do uso simultâneo de diferentes papéis e paletas cromáticas, resultou num objeto que alterna entre o fotográfico altamente saturado e o quase documental em preto e branco com uma fluidez que seria impossível num projeto editorialmente menos ambicioso. O branco e preto das imagens de BDSM mais crus contrasta com a cor intensa das sequências mais teatrais, e essa variação de temperatura visual cria um ritmo interno no livro que funciona quase como edição cinematográfica. Há um senso de montagem na sequência das imagens que sugere que Madonna, Meisel e Baron pensaram o livro não apenas como coleção de fotografias, mas como narrativa visual com arco dramático próprio. O impacto que Sex exerceu sobre a liberdade sexual da mulher dentro da cultura popular é um dos mais concretos e mensuráveis de sua geração. Antes de Sex, a sexualidade feminina celebrada na mídia mainstream era invariavelmente mediada pelo olhar masculino, apresentada como convite e não como afirmação, como performance para consumo alheio e não como expressão autônoma de desejo próprio. Madonna virou essa equação de cabeça para baixo com uma radicalidade que ainda hoje incomoda quem não está preparado para o que o livro realmente diz. As imagens de mulheres no controle de sua própria sexualidade, dominando, escolhendo, exercendo prazer como sujeito e não como objeto, constituem um manifesto sobre o corpo feminino que nenhum texto teórico da época conseguiu articular com a mesma eficiência e alcance. Sex chegou a lugares que os estudos feministas de 1992 ainda não haviam alcançado, não porque fosse mais sofisticado intelectualmente, mas porque usava a imagem como arma com uma precisão que o texto raramente consegue igualar. Há um argumento que alguns críticos levantam sobre Sex, de que ele seria mais marketing sofisticado do que arte genuína, que a seriedade estética seria uma cobertura para um produto comercial calculado para gerar controvérsia e, portanto, atenção. Esse argumento falha em reconhecer que a distinção entre arte e marketing é, ela mesma, um preconceito que o livro deliberadamente ataca. Madonna sempre trabalhou nessa fronteira com uma consciência que seus críticos raramente lhe creditaram, e Sex é o lugar onde essa consciência se expressa com mais clareza. Sim, é um produto. Vendeu um milhão e quatrocentas mil cópias em poucos dias e gerou setenta milhões de dólares em vendas no varejo. Mas dizer que ele é apenas produto porque foi comercialmente calculado seria o mesmo que dizer que o trabalho de Andy Warhol é apenas publicidade porque usa a linguagem da publicidade. O ponto é exatamente que a distinção não sustenta o peso que o argumento precisa que ela sustente. Sex permanece, mais de três décadas depois de sua publicação, como o gesto mais radical que uma estrela pop jamais fez no auge de seu poder comercial. Não há paralelo. Não há precedente. Não há sucessor que tenha chegado perto da combinação de risco real, seriedade estética, ambição política e perfeição técnica que o livro encarna. Ele derrubou barreiras que, uma vez derrubadas, nunca mais foram reconstituídas da mesma forma, e fez isso com uma elegância visual e uma precisão conceitual que transformam cada crítica que tentou diminuí-lo num documento involuntário do próprio medo que o livro se propunha a desafiar. Cinco estrelas não são concessão generosa: são reconhecimento preciso de uma obra que fez exatamente o que se propôs a fazer, melhor do que qualquer outra coisa jamais fez, no momento mais difícil e mais necessário possível. 5 estrelas ★★★★★
