Parte I:
O único futuro da teologia escreveu H. Cox é converter-se na teologia do futuro. Mas essa teologia do futuro deverá ser necessariamente leitura crítica da práxis histórica, do labor histórico, no sentido que tentamos esboçar. Diz J. Moltmann que os conceitos teológicos não vão a reboque da realidade... mas a iluminam mostrando-lhes antecipadamente o seu futuro. E precisamente em nosso enfoque, refletir criticamente sobre a práxis libertadora não é ir a reboque da realidade. O presente da práxis libertadora está, em seu âmago mais profundo, prenhe de futuro, sendo a esperança parte do compromisso atual na história. A teologia não põe de início esse futuro no presente, não cria do nada a atitude vital da esperança. Mais modesto é seu papel: explicita-os ou interpreta-os como o verdadeiro sustentáculo da história. Refletir sobre uma ação que se projeta para a frente não é fixar-se no passado, não é ser rebocado pelo presente: é desentranhar nas realidades atuais, no movimento da história, o que nos impele para o futuro. Refletir e partir da práxis histórica libertadora é refletir à luz do futuro em que se crê e se espera, é refletir com vistas a uma ação transformadora do presente. É fazê-lo, porém, não a partir de um gabinete mas deitando raízes lá onde lateja neste momento o pulso da história, e iluminando-o com a Palavra do Senhor da história que se comprometeu irreversivelmente com o hoje do devir da humanidade para levá-lo à sua plena realização.
Por tudo isso a teologia da libertação nos propõe talvez não tanto novo tema para a reflexão quanto novo modo de fazer teologia. A teologia como reflexão crítica da práxis histórica é assim uma teologia libertadora, teologia da transformação libertadora da história da humanidade, portanto também da porção dela reunida em ecclesia que confessa abertamente Cristo. Teologia que não se limita a pensar o mundo, mas procura situar-se como um momento do processo através do qual o mundo é transformado: abrindo-se no protesto ante a dignidade humana pisoteada, na luta contra a espoliação da imensa maioria dos homens, no amor que liberta, na construção de nova sociedade, justa e fraterna ao dom do reino de Deus.
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Parte II:
Para a Igreja latino-americana, estar no mundo sem ser do mundo significa concretamente e cada vez mais claramente estar no sistema sem ser do sistema. É, com efeito, evidente que só um rompimento com a ordem injusta atual e um franco compromisso em prol de uma nova sociedade tornará crível aos homens da América Latina a mensagem de amor de que é portadora a comunidade cristã. Esta exigência deve levá-la a profunda revisão do modo de pregar a palavra, de viver e celebrar a fé.
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Parte III:
A salvação não é algo ultramundano, ante o qual a vida presente seria apenas uma prova. A salvação comunhão dos homens com Deus e comunhão dos homens entre si é algo que se dá também, real e concretamente, desde agora, que assume toda a realidade humana, a transforma e a leva à sua plenitude em Cristo. (...)
Em consequência, o pecado não é só impedimento para essa salvação no além. O pecado, enquanto ruptura com Deus, é realidade histórica, é quebra de comunhão dos homens entre si, é fechamento do homem sobre si mesmo. Fechamento que se manifesta em multiforme atitude de ruptura com os demais. E por ser o pecado uma realidade intra-histórica pessoal e social formando parte da trama diária da vida humana, é também, antes de tudo, um estorvo para que esta chegue à plenitude que denominamos salvação.
A ideia da salvação universal, penosamente conquistada e que partia do desejo de estender a possibilidade de alcançá-la, vem a dar assim numa questão de intensidade da presença do Senhor e, portanto, de valorização religiosa da ação do homem na história. O olhar orienta-se para este mundo a ver no além, não a verdadeira vida, e sim a transformação e realização plena da vida presente. O valor absoluto da salvação, longe de desvalorizar este mundo, dá-lhe seu autêntico sentido e sua consistência própria porque, inicialmente, já se dá nele. Para dizê-lo em termos da teologia bíblica: a perspectiva profética (o reino assume, transformando-a, a vida presente) reclama seus direitos em face de uma perspectiva sapiencial (primazia da vida ultraterrena).(...)
As peripécias da evolução que esboçamos permitiram-nos, pois, recuperar definitivamente um elemento essencial da noção de salvação obstruída por muito tempo em um assunto de maiores ou menores possibilidades de alcançá-la: a salvação é, também, uma realidade intra-histórica. Mais. A salvação comunhão dos homens com Deus e entre si orienta, transforma e leva a história à sua plenitude.
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Parte IV:
Optar pelo oprimido é optar contra o opressor.
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O dom da filiação vive-se na história. Fazendo dos homens irmãos, acolhemos esse dom de fato, não de palavra. Lutar contra toda injustiça, esbulho e exploração, comprometer-se na criação de uma sociedade mais fraterna e humana é viver e testemunhar o amor do Pai. O anúncio de um Deus que ama igualmente todos os homens deve tomar corpo na história, deve tornar-se história. Proclamar esse amor numa sociedade profundamente desigual, marcada pela injustiça e pela exploração de uma classe social por outra, fará desse tornar-se história algo que provoca e gera conflito. Por isso é que dizíamos que a dimensão política está no próprio dinamismo de uma Palavra que procura encarnar-se na história. As exigências evangélicas são incompatíveis com a situação social vivida na América Latina, com as formas em que se dão as relações entre os homens, com as estruturas em que se travam essas relações. Não se trata do repúdio a tal ou qual injustiça individual, mas da exigência de uma ordem social diversa. Só um certo grau de maturidade política permitirá verdadeira compreensão da dimensão política do Evangelho e impedirá sua redução a um assistencialismo, por sofisticado que seja, ou a simples tarefa de promoção humana.
O anúncio autêntico do amor de Deus, da fraternidade e igualdade radical de todos os homens, ao homem explorado de nosso continente, fá-lo-á perceber que sua situação é contrária ao Evangelho, o que o ajudará a tomar consciência da profunda injustiça de tal estado de coisas. As classes oprimidas não adquirirão clara consciência política a não ser na participação direta nas lutas populares; na globalidade, porém, e na complexidade do processo político que deve romper com uma ordem social opressora e levar a uma sociedade sem classes, a luta ideológica tem um lugar importante. Pois na América Latina dá-se ao cristão um papel dentro da ideologia dominante que dá coesão e firmeza a uma sociedade capitalista dividida em classes. É frequente, com efeito, apelarem os setores conservadores para noções cristãs, a fim de justificar a ordem social que serve a seus interesses e manter seus privilégios. Esta é uma das grandes mentiras de nossa sociedade latino-americana. Por ela é que a comunicação da mensagem, na parte referente ao outro, ao pobre, ao oprimido, terá função desmascaradora de toda intenção de fazer jogo ideológico com o Evangelho e justificar uma situação contrária às mais elementares exigências evangélicas.
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