O Tratado, publicado pouco antes da morte de Savonarola, concentra o projeto político que defendeu. Obra de grande consistência teórica, revela o caráter de um mártir na defesa dos direitos civis e da democracia.
Tratado sobre o regime e o governo da cidade de Florença (Vozes de Bolso) -
J. Savonarola
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Ver maisUm pequeno tesouro da filosofia política
A Florença do final do século XV era um local pulsante: conflitos políticos tendo a família Médici como protagonista; o humanismo; a ameaça de invasão francesa; o profetismo. E no meio disso tudo, o frade dominicano Jeronimo Savonarola. Célebre naqueles tempos e naquela cidade por fazer parte dos pregadores que advogavam a penitência,a oração e os castigos divinos, bem como por ter demonstrado habilidade política em algumas ocasiões (sobretudo evitando a referida invasão francesa), Savonarola redigiu também esse pequeno texto - curto, mas bastante rico. Não foi a sua primeira obra política, mas apresentou grandes reflexões. O Tratado é dividido, internamente, em três partes (ou "tratados"). De início, o autor tece considerações acerca da formação da sociedade, bem como os tipos de regime - numa linha aristotélico-tomista, ainda que esses autores não sejam nomeados. Estabelece a monarquia como o melhor dentre todos, seguido por aquele em que poucos (os otimates) detém o poder e, finalmente, o regime no qual o povo é que detém o poder (aqui é o que Savonarola denomina o "governo civil"). É interessante ressaltar que essa classificação é estabelecida sob a perspectiva do absoluto; isso não quer dizer que a monarquia (o melhor dos três) poderia simplesmente ser aplicada em Florença. Pelo contrário, a partir dos costumes dos habitantes, Savonarola sustenta que o regime mais apropriado para a sua cidade é o do governo civil. Após discorrer sobre o que é bom (no primeiro tratado), o autor volta as atenções ao que é mau - o mal não se conhece por si só, mas somente por exclusão, depois de se conhecer o bem, como esclarece o próprio Savonarola. Trata, então, das características negativas que cercam uma má administração da cidade. O perfil que Savonarola estabelece do tirano (aquele que tem no horizonte apenas a satisfação dos seus interesses privados) ocupa diversas páginas e é um verdadeiro achado: são pintados o temperamento e o comportamento desse tipo de governante, nas mais diversas situações. No terceiro e último tratado, Savonarola discorre acerca do que é necessário fazer para se conservar e aprimorar o governo civil (de Florença). E aqui se encontra a grande contribuição do dominicano para o pensamento político: ele estabelece a necessidade de um "Grande Conselho", cujo poder em última instância emana do povo. Tal conselho, ao mesmo tempo em que distribui o poder entre os homens, igualmente deve prevenir a ascensão de um tirano. É de se ressaltar que, em momento algum de sua exposição, Savonarola perde do horizonte a finalidade espiritual de um governo, que não se esgota nos afazeres deste mundo. O governante deve incentivar a prática da virtude e do comportamento cristão. Aliás, quanto mais os homens viverem de modo cristão, mais a cidade prosperará - e cita, em apoio a isso, o comportamento dos romanos em seu apogeu, pelo amor à coisa comum e aos semelhantes, que agradou a Deus e, por isso, aumentou o seu império. O pensamento político de Savonarola, portanto, guarda intrínseca ligações com a religião. E suas reflexões sobre os regimes (particularmente o governo civil de Florença), os perigos da tirania e a caracterização do tirano tornam esse texto uma verdadeira pérola. Um escrito fácil, instrutivo e agradável de se ler.
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