Existe algum elo que une a Igreja e a missão confiada ao povo de Deus? Charles van Engen diz que sim. E mais, ele afirma que há um ponto em comum entre as diversas igrejas, e que é justamente a missão que Deus confiou, não a uma denominação cristã em especial, mas à Igreja de Cristo como um todo. Em suas palavras: “Igreja, aquele corpo comprado pelo sangue de Jesus e chamado para ser seu povo no mundo. O povo missionário é chamado para ser a Igreja na igreja. É claro que falaremos de igrejas, mas os nossos interesses se voltarão quase exclusivamente para o objetivo da Igreja”. Em vez de apresentar modelos de “igrejas que dão certo” ou uma análise meramente sociológica da igreja, o autor nos brinda com uma profunda reflexão sobre os fundamentos da razão de ser da Igreja no mundo. Nas páginas deste livro, o leitor encontrará o que é ser Igreja, e quais os desafios que envolvem o maior compromisso que alguém pode ter com Deus. É necessário dizer que 'Povo Missionário, Povo de Deus' não é simplesmente um livro sobre eclesiologia ou missiologia, mas sobre as mútuas implicações que existem entre a Igreja e a missão que Deus lhe confiou. Trata-se de uma obra dedicada não somente a pastores e missionários, mas a todos aqueles que desejam pensar, a partir de uma perspectiva bíblico-teológica, os reais objetivos da Igreja de Cristo Jesus. Charles van Engen é professor de Teologia de Missões na Escola de Missões Mundiais do Seminário Teológico Fuller. Como missionário, trabalhou no México. É doutor em teologia pela Universidade Livre de Amsterdã.
Povo Missionário, Povo de Deus - Por uma redefinição do papel da igreja local
Charles van Engen
O Papel da Igreja no Mundo
O objetivo de Charles van Engen ao escrever este livro foi o de repensar o papel da igreja no local onde ela está inserida. O autor tece uma grande malha idéias relacionando a eclesiologia com a missiologia atual. Van Engen vai desenvolvendo argumentos até chegar à conclusão de que faz parte da natureza da igreja ser uma igreja missionária. Para chegar a este ponto ele discorre sobre a essência da Igreja segunda a epístola de Efésios, fala de como o conceito de igreja se desenvolveu ao longo da História e finaliza estabelecendo uma interessante relação entre a Igreja e o Reino de Deus. Abaixo descreverei os pontos que mais me chamaram a atenção na leitura desta obra. Primeiro é necessário fazer um comentário imprescindível à compreensão deste livro. O autor fez questão de diferenciar entre os termos “Igreja” e “igreja”. Neste caso a “Igreja” é o corpo de Cristo, a união dos redimidos, aqueles que foram comprados pelo sangue do Cordeiro. Esta é a Igreja invisível. De outro lado temos a “igreja” ou “igreja local” que é a comunidade reunida em um determinado local da cidade. Ali pode haver tanto joio quanto trigos, crentes ou pseudo-crentes, sendo a nós, impossível identificá-los. Desde a Reforma a eclesiologia vem sendo aprofundada, como resultado destes estudos 4 marcas que a Igreja deve ter foram evidenciadas. A Igreja deve ser uma, santa, católica e apostólica. Simplesmente por existir a Igreja já carregava em si essas quatro características. A unicidade da Igreja seria a característica de família e corpo que ela tem, todos os membros da igreja são considerados parte de um único corpo. A santidade é a luta da Igreja manter-se separada moralmente o mundo, não se conformando com o século em que vive. A catolicidade aponta para o caráter universal da Igreja de Cristo. Ela não é constituída somente por um tipo de raça ou de língua, mas é aberta a todos os povos de todo o mundo. Por fim a apostolicidade da Igreja demonstra que ela deve viver e anunciar o evangelho pregado pelos apóstolos exercendo a mesma função dos apóstolos: ser enviada ao mundo. Para os reformadores essas marcas “eram meios pelos quais os membros de uma congregação poderiam verificar a sua proximidade com Jesus Cristo, o único e verdadeiro Centro da essência profunda da Igreja.” (p. 78). Em tudo o que fazia a Igreja deveria apontar para Cristo. Entretanto van Engen levantou a proposta de estas marcas deixarem de ser somente inerentes ao “ser” da Igreja para serem elementos visíveis do “agir” da Igreja. Assim sendo, a Igreja uma deve ser uma força unificadora que busca juntar seus membros através da união do Espírito. Deve ser também uma força santificadora esforçando-se para os santos sejam curadas e perdoadas e a presença de Deus seja desfrutada. Em terceiro lugar a Igreja deve ser uma força reconciliadora mostrando aos perdidos o caminho de volta para Deus. Com isso ela não deve fazer acepção de pessoas, mas entender que a Igreja foi feita para todos e todos devem ter acesso a Deus. Por fim ela deve ser uma força proclamadora. Somente a Igreja tem a verdade e a estabilidade que o ímpio precisa. Ao apontar para Cristo, a Igreja, torna-se referencial para os perdidos. Ela deve sair e proclamar a Palavra de Deus ao mundo. Gostei muito da abordagem que van Engen faz da Igreja missionária destacando 4 de seus papéis essenciais. Segundo ele, “a Igreja missionária vem à tona quando seus membros participam cada vez mais da existência da Igreja no mundo por meio da coinonia, do querigma, da diaconia e da martíria.” (p.112) [grifos do autor]. A coinonia segue o mandamento de amar uns aos outros. Esse amor entre os cristãos deve refletir o amor entre o Deus Pai e Jesus Cristo, Seu Filho. O autor faz um paralelo importante mostrando que a presença de Cristo no meio do seu povo, representada no amor fraternal, é testemunho para os que são de fora. No entanto, citando uma expressão que achei muito curiosa e interessante, van Engen alerta a Igreja do perigo de uma doença chamada “coinonite”. Isso ocorreria se seus membros estivessem voltados somente para si, procurando fortalecer cada vez mais o relacionamento entre os irmãos que esqueceriam dos perdidos que devem ser alcançados. O querigma é a característica de que a Igreja deve pregar que “Jesus Cristo é o Senhor”. Com esta declaração a Igreja é forçada a sair, pois o senhorio de Cristo deve ser reconhecido por aqueles que ainda não se curvaram diante dele. A diaconia ressalta uma das qualidades onde a Igreja de Cristo deve se identificar com o seu Senhor. Assim como o Filho do Homem veio para servir, a igreja deve se portar como serva, exercendo tal papel, o que mais importará no final não será os resultados alcançados, mas a qualidade dos frutos. Por fim a Igreja também se identifica com a martíria sendo testemunha viva da obra de reconciliação de Cristo. Esta é o resultado da união das 3 características anteriores. Através da unidade da coinonia, da pregação do querigma e do serviço da diaconia a Igreja missionária de Cristo testemunha o Evangelho da reconciliação. Para finalizar gostaria de apresentar uma posição de van Engen que, confesso, me deixou chocado. Ao tratar da relação entre Reino – Igreja – Mundo o autor afirma que a visão das 3 autonomias é muito limitada. Este conceito foi elaborado para ter um padrão de plantação de igreja nos países em desenvolvimento. Depois que uma dessas igrejas conseguissem atingir o padrão de auto-sustento, auto-governo e auto-propagação ela se tornaria emancipada e independente. Van Engen, entretanto, diz que “a visão das 3 autonomias é tacanha, superficial e egocêntrica [...]. as congregações locais são muito mais que dinheiro, administração e convertidos, [...] elas também são muito mais do que contextualização cultural ou autoctonização do evangelho.” (p.149) Charles van Engen diz que plantar igrejas que reflitam o Reino de Deus não requer a independência e autonomia delas, pelo contrário, todas precisam estar inter-relacionadas e co-dependentes uma das outras. Um dos argumentos que Charles van Engen segue em todo o seu livro é “se a Igreja é discípula de Cristo, então ela deve estar disposta a agir como Cristo agiu.” A força deste argumento se repete mais uma vez no capítulo oito que aborda o papel da Igreja no mundo. Para van Engen, a Igreja que segue a Jesus, deve imitá-lo também em seus principais atributos, a saber: profeta, sacerdote e rei. “Por ser a Igreja a comunidade de discípulos de Jesus [...] , ela conseqüentemente deve ser entendida como o povo profético-sacerdotal-real enviado ao mundo por Cristo.” (p.159) As implicações práticas e missiológicas destes ofícios de Cristo atribuídos à Igreja são: Como PROFETA a Igreja deve clamar por justiça e trabalhar para que isso aconteça nas relações humanas e sociais. Como SACERDOTE a Igreja deve trabalhar para reconciliar as pessoas com Deus, com as outas pessoas e com ela mesma (2 Co 5). Como REI, o povo de Deus deve por ordem no caos e lutar por um governo q se importe com as pessoas levando o evangelho a elas. A igreja missionária não pode dspontar para a sua mais profunda essência se não puser em prática o seu papel missionário a serviço do mundo. Charles van Engen fez uma analogia muito jóia sobre o papel da igreja no mundo. Já ouvimos diversas vezes as mais variadas explicações sobre a igreja ser o sal da terra. O autor fez um comentário que eu nunca havia ouvido antes. Segundo ele, assim como o sal é sacudido para fora do saleiro, a igreja deve ser enviada ao mundo para fazer uma diferença positiva. Se o sal ficar somente dentro do saleiro ele não terá utilidade alguma. Outra preciosa observação é que o sal, ao ser sacudido para fora do saleiro, se mistura com a comida, mas não perde suas qualidades. Em outras palavras podemos entender que nós cristãos, estamos no mundo e muitas vezes podemos não ser identificados, somente pela aparência, como cristãos entre as outras pessoas, mas nossas atitudes devem mostrar a diferença. “O sal em si desaparecerá na comida, mas não deve perder a salinidade, mesmo quando completamente absorvido.” (p. 172) [grifo original] Quando trata dos alvos missionários da Igreja Local, Charles van Engen mostra que um dos objetivos da igreja é influenciar o meio onde ela está inserida. Ao mesmo tempo, precisa haver um cuidado quando o povo de Deus está inserido no mundo para que eles não sejam influenciados pelo mundo. “Por ser a Igreja povo, a congregação agora entrou nos vários subsistemas de seu ambiente [...]. Se for muito parecida com o meio, o impacto será mínimo. Se for muito contracultural, a influência poderá ser rejeitada.” (p.182). Para traçar os alvos missionários da Igreja é importante que seus líderes conheçam a realidade de onde ela está inserida e basear seu plano de ação missionária de acordo com esta realidade. “Qualquer prioridade missionária deve ser estipulada em relação à natureza do ambiente e da cultura ao redor.” (p. 184) O autor também a borda a grande tensão que existe nas igrejas locais entre uns poucos cristãos que se esforçam no trabalho e a grande maioria que não trabalha e se escora naqueles que estão agindo. O autor denomina esse fenômeno de “fator beta”. Segundo ele “a igreja se compõe de 10% de pessoas ativas, imprescindíveis e dedicadas e de 90% de inativas, periféricas, semi-interessadas. Embora variem as porcentagens, o padrão é o mesmo em muitas congregações.” (p.192). A Reforma protestante trouxe à tona a importância do sacerdócio de todos os crentes. Não encontramos respaldo algum na Bíblia que apóie a participação da minoria e a acomodação da maioria. Todos os cristãos devem ser ativos, cada um exercendo seu dom, para fortalecer o corpo de Cristo.
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