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    Óbvio oblongo -

    Djami Sezostre

    Editora Laranja Original
    2019
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-13: 9788592875589
    Português Brasileiro
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    Em “Óbvio oblongo”, os poemas de Djami recriam e metaforizam sua própria história. “O sujeito lírico se expande como animal, como água, como planta, como eu no outro” para expressar o “desejo utópico de libertar a si e à natureza”.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos30/07/2019Resenhou um livro
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    Um poeta alquimista

    Reza a lenda que a Alquimia foi uma prática a que os homens se dedicaram na noite dos tempos – uns 300 anos antes de Cristo -, a combinar os mais variados elementos com quatro objetivos principais. Um deles seria a "transmutação" dos metais inferiores ao ouro; o outro a obtenção do "Elixir da Longa Vida", um remédio que curaria todas as doenças, até a pior de todas (a morte), e daria vida longa àqueles que o ingerissem. Esses objetivos poderiam ser conseguidos ao obter a Pedra Filosofal, uma substância mística. O terceiro objetivo seria criar vida humana artificial, os homunculus. O quarto objetivo era fazer com que a realeza conseguisse enriquecer mais rapidamente (tinha que ter sacanagem no meio). Reza a lenda ainda, que esse desespero do conhecimento humano gerou bons frutos porque contribuiu para que fossem desenvolvidos muitos dos procedimentos e saberes que mais tarde foram utilizados pela ciência e etc. e tal. Que coisa! O livro “Obvio oblongo”, do senhor Djami Sezostre que a Editora Laranja Original lança nesta quinta-feira 02/08, nos faz lembrar vagamente da alquimia num sentido metafórico de experimentação. E bem sucedida por sinal, porque o que o leitor tem pela frente é um “eu” lírico que parte e transcende, de uma cosmovisão própria em permanente movimento espiral, em ritmos e sons, em sentidos e sentimentos, ou seja uma seqüência ao mesmo tempo musical, semântica e emotiva. Por outras palavras, o mundo interior do poeta aflora do ritmo nascido da conjugação de movimentos desencontrados, mas que formam em seu conjunto uma unidade a desvelar o reino infinito do espírito humano em seu desenvolvimento existencial. E neste movimento, transborda para um lirismo universalista, aquele que verdadeiramente importa ao homem e à Literatura perquirir em toda parte e em todos os tempos. Sezostre é autor muito conhecido no atual cenário cultural. É criador da Poesia Biossonora e da Ecoperformance, onde explora a língua em sua metamorfose, através de um diálogo com a miscigenagem e a sua relação com a natureza e os seres, humanos. Autor também de duas dezenas de obras publicadas e nesta última (assim nos pareceu), opta por presentear o leitor com uma espécie de retrospectiva existencial, coisa que o leitor poderá notar ante os belos poemas que transcrevemos. A começar por aquele que traz em seu título a idealização de James Hilton, em Lost Horizon (Horizonte Perdido) de 1933. Um lugar paradisíaco situado nas montanhas dos Himalaias, sede de panoramas maravilhosos e onde o tempo parece deter-se em ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre os homens. Poema “Xangrilá”. Observe-se a sublimação entre o ideal e a realidade. “E quanto mais eu crescia / Mais eu achava que era / Esquisito tão esquisito / Que eu achava esquisito / Quem não era esquisito // Um dia achei melhor / Virar um animal e par / tir como um inseto par / a a floresta dos sonhos” O Poeta e ensaísta piauiense Rubervam Du Nascimento em texto de Prefácio escreve com muita propriedade sobre a poética de Djami, afirmando que é de uma radicalidade criativa, e “eficazmente utilizada como estratégia de fortalecimento do espírito da voz da palavra, em transe, em transito para a transcendência poética; poesia para acompanhar a inquietação de sua voz, a desordem de sua palavra.” Em suma; uma poética “que pede passagem a diversos significados, abre caminho a outros sentidos”. Veja-se nos poemas “Ogume” e “A chuva”, os desdobramentos de experiências que envolvem sexualidade, a família, o amor e o sentido que se deu/dá à própria vida: Poema “Ogume”. “Eu pequei Senhor e peço perdão / Eu peço perdão porque pensei / Que ela tinha uma forquilha nas pernas / Eu peço perdão porque pensei / Que ele tinha uma forquilha nas pernas // Uma forquilha para beijar a natureza / E achar que eu sou ela a natureza como / Ela a natureza seria por exemplo // O sangue de São Sebastião, ogumeogumeogume”. Poema “A chuva”. “O meu pai veio uma vez de longe / Apenas para me ver e ele falou // Que eu tinha que plantar // A minha mãe veio uma vez de longe / Apenas para me ver e ela falou // Que eu tinha que plantar // Eu então passei a plantar / Eu então passei a plantar // E plantei/ E plantei”. E o plantio que o Poeta fez em seu interior foi, e continua sendo, no sentido de exercitar o seu processo genético de linguagem. Sezostre é positivamente um inconformado com as limitações expressivas das palavras. Desafia abertamente a ordem e a semântica. Recria seu próprio silabário, vocabulário, fremente e instável, aventurando-se num mergulho até aos embriões da linguagem. Poema “O plantio”. “Eu, o plantador de gente, / Plantei o menino na cova / E deixei ele lá na cova, plantado / Alado para dentro da terra // Eu, o plantador de gente, / Plantei a menina na cova / E deixei ela lá na cova, plantada / Alada para dentro da terra // Se eu, o plantador de gente, / Vivia de plantar gente, / Achei que devia plantar // Também os sonhos / E esperar pela noite / Para, então, dormir // E acordar pela manhã / Para regar o plantio — // A morte essa carpideira”. Poema “Jegue”. “O povo era prascóvio / E quem não era prascóvio / Era também prascóvio // O gado era prascóvio / E quequem não era prascóvio / Era simtambém prascóvio // O povo como gado / O gado como povo // Gente como bicho / Bicho como gente // O menino vivia alado / Como se ele fosse // O filho eterno // Prascóvio como jegue O jegue um mormaço” Poema “Estilingue”. “Tirei, então, o meu coração / Lá de dentro da sua casa // Tirei, então, o meu coração / Para viver em paz sem ele // O meu coração que gemia / Como um passarinho, de // Repente, rasgado de pedras.” O escritor concilia poesia experimental com poesia comprometida com a nacionalidade brasileira, de que é exemplo o poema “oL”, incluído na série de poemas “Currutela”. Quanto à esses poemas, vale acrescentar que em vários deles, vemos desfilar conteúdos do imaginário brasileiro sintetizados em linguagem experimental o que acaba por gerar novas apropriações de sentido, iluminando outras possíveis visões. Sob este aspecto, seu texto é pura ousadia de formas quebradas e convoca o leitor de percepção mais privilegiada a juntar fragmentos, cogitar possibilidades múltiplas de significações. Poema “yb”. “O menino dormiu com a noite e sonhou com a noite / A noite deu um beijo no menino e achou que ele / O menino mio não era mais o menino mio // O menino miou e voltou a miar// A noite de repente virou uma estrela / E o menino começou a transar com a noite / Como se ele tivesse uma constelação de girassóis // A noite amanheceu e miou miou miou River Guarani”. Poema “Clepsidra”. “Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um mineral / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de mineral no coração // Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um vegetal / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de vegetal no coração // Eu andei por onde eu andei / E andei como anda um animal / E cavei a terra para ser, então, / Não um ser humano, mas / Uma risca de animal no coração // Para ser, então, um ser humano / E entrar para o ventre, água / Clepsidrar-me Clepsidra”. Com efeito, observamos nessa obra o poeta alquimista Djami Sezostre elaborando seu universo poético como um mago do vocábulo, engendrando intensas e colossais orgias lingüísticas – incluindo aí, o “eu” e o “você”, que somos a natureza mesma do cosmos – intentando romper limites, visualizar o caráter essencialmente contínuo entre seres vivos e espíritos, entre homens e mulheres, deuses, bichos, plantas e coisas. O alquimista poeta nos fala da fusão visceral entre palavra e mundo. Aí a pedra filosofal que a humanidade ainda não descobriu. Livro: “Óbvio oblongo”– Poesia de Djami Sezostre – Editora Laranja Original,São Paulo - SP , 2019, 164 p. ISBN 978-85-92875-58-9 Link para compra: https://www.laranjaoriginal.com.br/product-page/%C3%B3bvio-oblongo

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