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    A última cabra -

    Lucas Verzola

    Reformatório
    2019
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-13: 9788566887532
    Português Brasileiro
    4.8
    3 avaliações
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    Ao adentrar o universo de Lucas Verzola — ou os muitos universos paralelos desse jovem escritor — os leitores se surpreenderão com uma escrita lapidar, mas repleta daquela aspereza de que é feita a vida. As contradições entre clareza e enigma, exterioridade e latência, retidão e vício permeiam as narrativas e aos poucos tragam o leitor para um ambiente atordoante. Outros contos adentram o cotidiano modorrento das repartições, dos fóruns, da burocracia jurídica, do inferno kafkiano em que se transformou o cotidiano e as relações, e não apenas dos funcionários, oficiais de justiça e cartorários, mas também da vida familiar, como no conto em que pais e filhos vão à barbearia no sábado de manhã, num ritual cotidiano tingido de mania, tradição, zelo e sentimentos reprimidos. A sensação de delírio e desordem também está na superfície de alguns contos: como o do rapaz que vai a uma noitada de bebida e luxúria na zona do meretrício em companhia do próprio pai; um ex-estudante de história que passa a ser desafiado no bagha-chall, um jogo de tabuleiro, por um coreano desconhecido; um homem que vive num porão, no Centro de São Paulo, e descobre um duplo (e se descobre como duplo) no olho mágico de sua porta. Os contos de Lucas Verzola se constroem nesse equilíbrio entre a norma e o desvio, entre a vida ordeira e o evento inesperado, os desejos contidos e as tentações do excesso e da desmedida. A escrita de Verzola, neste A última cabra, é uma realização de alto nível literário e baixo teor de espalhafato, construída a sangue frio e experimentação estética incomum.

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    Alexandre Kovacs picture
    Alexandre Kovacs20/03/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Lucas Verzola - A última cabra

    Editora Reformatório - 133 Páginas - Imagem de capa: Joel Sartore, Mountain goat - Design e editoração eletrônica: Negrito Produção Editorial - Lançamento: 2019. Nos dez contos de "A última cabra", os protagonistas são confrontados em situações de aparente normalidade que testam os seus limites éticos, morais e psíquicos, seja nas relações artificiais do ambiente de trabalho, na intimidade do lar ou até mesmo na simples rotina de levar os filhos na barbearia, algo desagradável está sempre prestes a ocorrer com esses personagens sem esperança e envolvidos por um ambiente de violência e solidão, típico dos grandes centros urbanos. As epígrafes do livro são muito bem selecionadas e oferecem uma pista das referências que inspiraram a composição e seleção de cada um dos contos, gêneros que variam do realismo brutal (Roberto Bolaño, Raduan Nassar e Rubem Fonseca) até a literatura fantástica (Jorge Luis Borges e Murilo Rubião), resultando em estilo próprio que é mantido ao longo das narrativas. Uma ótima recomendação que comprova como a literatura contemporânea sempre encontra formas de renovação. "Para entender Paulinho sentado nas escadarias do fórum, sem o pé esquerdo do sapato, com um guarda de cada lado, enquanto esperava a ambulância que o levaria para um semestre recluso na ala psiquiátrica do hospital do servidor público estadual, é preciso saber não só o que aconteceu no dia em que concluiu que não valia mais a pena viver, mas também as circunstâncias que o levaram até lá. Paulinho chegou à mesma conclusão a que muitos outros chegam todos os dias. Desconsiderando as hipóteses de impulso, mata-se (ou tenta se matar) aquele que, ao analisar o resultado de uma simples subtração, percebe que as vantagens de estar vivo são menores que as desvantagens. Ainda que intuitivo, o método sofre leves variações de pessoa para pessoa. Não em sua essência mas na gradação. Para alguém dar cabo da própria vida, não basta, como um observador menos atento pode concluir, que a balança penda para o amargor: é preciso que esse desequilíbrio ultrapasse determinada fronteira, e é essa linha que varia de acordo com o freguês." (p. 85) - Trecho do conto "O dia em que Paulinho iria se matar". Em "Doses de conhaque e uma dança para garotos na bancarrota", Guilherme é um jogador compulsivo e viciado em drogas que decide levar o filho adolescente, Rodrigo, a um decadente programa no bairro do meretrício, regado a muito álcool. Nesta espécie de fábula sobre a perda da inocência, o jovem Rodrigo está prestes a ter a sua iniciação sexual, mas a repulsa ao ambiente, semelhante a "um beco de filme noir" com "paredes umedecidas e emboloradas", assim como o seu estado completamente alcoolizado, frustram essa tentativa inaugural que, no entanto, será informada como bem sucedida por Joyce, a também jovem, todavia, experiente profissional. Em "Butim", um dos melhores contos do livro, uma oficina mecânica isolada e falida, desde a duplicação da rodovia principal, é o cenário do encontro entre um raro cliente que deseja trocar o pneu furado de seu carro e Artur, o mecânico que sonha conseguir uns trocados para "trocar a calça esgarçada e a camisa puída". Contudo, o inesperado cliente teima em barganhar o serviço e, após a cansativa negociação, "uma senhora gorda, que aparentava ter mais de 80 anos", passageira do carro avariado e mãe do mesquinho freguês, parece dar o seu último suspiro, enquanto é removida do veículo. Uma conclusão inesperada irá surpreender o leitor. Outro destaque é o conto que empresta o título ao livro, "A última cabra", uma composição de diferentes camadas ocorrendo simultaneamente durante uma partida não finalizada de bagha-chall – jogo de tabuleiro tradicional do Nepal que representa a luta entre tigres e cabras – e a busca de Paulo por seu parceiro no jogo, Dong Park-Il. Fantasia e realidade se alternam nesta narrativa de inspiração borgiana. "Não é a primeira vez que fujo dos tigres e estou bem satisfeita. Estamos sempre fugindo de algo e com os tigres ao menos me acostumei. Seus movimentos são previsíveis e, quando caçam solitários, não costuma ser um grande problema encurralá-los. Mesmo na estação em que a neve entulha-se nos pés do Sagarmatha, há pouco com o que se preocupar desde que fiquemos juntas. / No início, éramos vinte, mas quatro foram capturadas o que torna tudo mais complicado, é verdade. Ainda assim sobreviver é possível, desde que sejamos perspicazes. Em vez de nos espalharmos por todo o planalto, concentramo-nos nos flancos do terreno, onde o relevo já teima em virar montanha. É mais seguro que seja assim. Aqui, no ventre calmo da cordilheira, temos a percepção de que somos intangíveis. / Os tigres insistem. Marcham entre nós, ostentando a juventude de suas garras, mas quase nada podem fazer quando estamos protegidas por nosso amo, um homem sábio que veio do leste e de quem quase mais nada sabemos." (p. 119) - Trecho do conto "A última cabra". Sobre o autor: Lucas Verzola é autor de São Paulo depois de horas (Editora Patuá, 2014), finalista do Prêmio Sesc de Literatura; e de Em conflito com a lei (Editora Reformatório, 2016), contemplado com o Proac na modalidade de Criação Literária – Prosa. É professor, parecerista, editor e um dos fundadores da revista Lavoura.

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    Lucas Verzola

    Lucas Verzola nasceu em São Paulo em 1988. É autor dos livros de contos A última cabra (Reformatório, 2019), Em conflito com a lei (Reformatório, 2016), realizado com o apoio do ProAC 2015, e São Paulo Depois de Horas (Patuá, 2014), finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2013/2014, Formado em Direito pela USP, é editor da revista Lavoura.

    3 Livros
    1 Seguidor
    São Paulo, Brasil

    Lucas Verzola