Comedia Humana A V.9 -

    Honore De Balzac

    Globo
    1990
    624 páginas
    20h 48m
    ISBN-10: 8525006963
    Português Brasileiro

    O nono volume de A comédia humana apresenta Esplendores e misérias das cortesãs, romance que juntamente com O pai Goriot e Ilusões perdidas compõem um dos eixos principais da extensa obra de Balzac. Dedicado às cenas da vida parisiense, o livro inclui ainda as obras Os segredos da princesa de Cadignan, Facino Cane, Sarrasine e Pedro Grassou. Esplendores e misérias das cortesãs Ester van Gobseck é uma prostituta, filha da famosa cortesã Sarah van Gobseck, e sobrinha do agiota Jean-Esther van Gobseck. Conhecida como a Torpedo, por arruinar os homens que se apaixonam por ela, Ester seduz o barão de Nuncingen, seguindo as ordens do abade Herrera. A cortesã tira dinheiro do barão para que seu amante possa Lucien de Rubempré comprar terras e se casar. Neste romance, Balzac mistura habilmente a heroína romântica na figura da prostituta que se redime ao se apaixonar, os amores de um ancião, a ascensão e a queda de um sujeito ambicioso que deseja se destacar na sociedade parisiense e a luta entre os criminosos e a polícia. Os segredos da princesa de Cadignan Isolada da sociedade, a princesa de Cadignan tem na marquesa d'Espard sua única amiga, a quem confessa sua interminável lista de amantes. A marquesa decide apresentar a princesa a Daniel d'Arthez, um escritor que herdou uma fortuna e recebeu o título de barão. D'Arthez é um homem simples e vive com uma mulher por quem não nutre o menor respeito. A princesa o seduz, contando todos os seus segredos como se fosse uma mulher enganada por homens que mereciam o seu amor. No entanto, a princesa se apaixona realmente pelo escritor e se vê diante de uma escolha ao perceber que os amigos do barão desejam revelar a verdade sobre ela. Facino Cane Um dos raros contos d’ A comédia humana a usar o narrador em primeira pessoa, Facino Cane traz referências autobiográficas de Balzac para contar uma história com elementos fantásticos. Convidado para uma festa de casamento, o narrador se impressiona com a orquestra formada por três músicos idosos. Facino Cane, o responsável pelo clarinete, revela que era um nobre em Veneza e se apaixonou pela esposa de um senador. Quando o marido traído surpreende os amantes, Facino comete um crime e é preso nas masmorras. Em uma tentativa de fuga, descobre um tesouro escondido e consegue deixar a prisão levando parte da fortuna. Facino viveu uma vida próspera até ser acometido por uma cegueira que mudou completamente seu destino. Sarrasine O conto explora a questão da gênese da obra de arte, da psicologia do artista, que interessava Balzac e se faz presente em suas obras. Sarrasine é um escultor em busca de uma beleza impossível de ser reproduzida pela arte até conhecer Zambinella. Os encantos da jovem tem tal efeito sobre Sarrasine que ele se torna incapaz de encontrar prazer na contemplação de qualquer outra mulher. Pedro Grassou Pedro Grassou é um pintor medíocre que vive de fazer cópias de artistas consagrados, vendidas como obras autênticas para pequenos burgueses incapazes de reconhecer as falsificações. Elias Magus leva Monsieur Vervelle, um rico comerciante, ao atelier de Grassou e, encantado com o que acredita ser o talento de um verdadeiro artista, convida o pintor para visitar sua mansão em Ville-d'Avray para conhecer sua filha. Durante sua estadia, Grassou reconhece diversas de suas pinturas, tidas pelo comerciante como legítimas. Embora Pedro alcance uma vida confortável, um bom casamento e prestígio social, é um homem amargo que não obteve a realização artística.

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    Clayton de Souza05/06/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A Comédia humana inteira

    Vol. IX Estudos de costumes Cenas da vida parisiense. O nono volume abre com o romance Esplendores e Misérias das Cortesãs, um romance autônomo, mas que é melhor compreendido por quem leu Ilusões Perdidas (vol.VII) e até O Pai Goriot (IV). Paulo Rónai, o grande balzaquiano responsável pela edição brasileira pela Globo defende a ideia de que os três são partes de um todo, e a análise da vida parisiense é apenas um fator de unificação: a viga-mestra dessa construção é o surpreendente e extraordinário personagem Vautrin. Esse romance tem como protagonistas o trio Lucien de Rubempre, o jovem e vaidoso poeta que sofre e provoca agruras em Ilusões Perdidas; Esther Von Gobseck, cortesã típica de Paris, sobrinha perdida do velho agiota Gobseck (vol.III) e o abade espanhol Carlos Herrera, que salva a vida de Lucien no final do romance acima citado. Sendo o livro uma continuação direta dos acontecimentos de Ilusões Perdidas, causa estranhamento Balzac interpor entre este e Esplendores... as obras do volume VIII, mas considerando que entre eles encontra-se a novela A Casa Nucingen, pode-se compreender o que pensava o autor. Sintetizando o enredo: acompanhamos Lucien em seu retorno brilhante a Paris, agora sobre a tutela do misterioso abade, que o orienta e define cada um de seus passos. Por isso mesmo, temos um Lucien mais seguro e discreto, além de maquinal, sempre em busca de ascensão social. Um obstáculo, contudo, e seu amor intenso por Esther (no que é correspondido), o que socialmente é proibitivo, além das exigências da família Grandlieu para que o rapaz tenha a mão da filha-herdeira da aristocrática família. A situação de Lucien piora pela improvável paixão que o bancário venal Nucingen alimenta por Esther, o que gera, por um lado, lucros à empreitada de Lucien, mas por outro coloca em seu encalço e no do abade três agentes espiões de Paris que agem à margem da lei, embora não ignorados por ela. Contençon, Peyrade e Correntin são astutos, gênios da maquinação, mas sequer desconfiam que estão diante do gênio do crime, talvez o maior personagem já criado por Balzac, ancestral dos niilistas Dostoievskianos... Dá sequência à obra a novela Os Segredos da Princesa de Cardignan, um drama cômico onde acompanha-se o crepúsculo de uma das grandes damas frívolas dessa louca Paris, a outra duquesa de Maufrigneuse. A Revolução de Junho de 1830, que Balzac não cansa de lamentar, impacta diretamente na nobreza sustentada da duquesa que, já beirando os 40 anos, ainda tem uma chance de atrair a paixão de um jovem amante ideal na figura de Daniel D'Arthez, o grande escritor e agora político que outrora sofrera, com Lucien de Rubempré, Bianchon e outro jovens de gênio, as misérias de Paris (Ilusões Perdidas). Essa novela é um admirável estudo da mulher ávida de amor, mestra na arte da coqueteria e do ludibrio, instrumentos essenciais para se "jogar" na sociedade parisiense do século XIX. Segue-se a essa novela o conto Facino Cane, rara obra do acervo balzaquiano narrada em primeira pessoa (e o narrador soa bem como o próprio Balzac) que conta, em cores pitorescas, o passado do personagem-titulo, agora um cego músico, mas que outrora fugira da prisão e teve acesso à enorme fortuna oriunda de um tesouro de origens escusas. O conto, ambientado na Itália, com tons exóticos a la As mil e uma noites (que é citada, inclusive, na obra), investe na aventura e na constatação do que se oculta no interior de um homem, ainda que decrépito. Sarrasine é uma novela com iguais tons pitorescos, e nos narra, a partir do diálogo do inominado narrador com a sra. De Rochefide (Beatriz - Vol. III) a história por trás da misteriosa figura idosa amparada pela rica família de Lanty. É uma história cuja essência é o ideal artístico, e os sentimentos eróticos escusos por trás dessa busca. Homoerotismo, crime e venalidade compõem essa obra, mistura ousada dentro da obra de Balzac, que ecoa apenas em outra obra da Comédia: A Menina dos Olhos de Ouro (Vol. VIII), com iguais implicações trágicas. Com a mesma preocupação com a arte, embora num enfoque diferente e mais brando, temos a última obra do volume, a novela Pedro Grassou. Nela acompanhamos as desventuras do pobre "troca-titas" Pedro, um pintor medíocre e plagiador que, não obstante, é um bom rapaz, e sincero amante das artes. O personagem tenta obstinadamente criar uma obra genuína e genial, mas seus esforços são risíveis. Quando menos espera consegue atrair a atenção real a uma obra, é condecorado (um enlace irônico de Balzac) e consegue clientela, em especial uma família burguesa de quem cai nas graças, pavimentando assim um rumo seguro, ao menos no quesito social, em sua vida. Balzac aqui nos põe a refletir as distintas naturezas entre o ser que cria e sua constituição moral, além de morder com sarcasmo a sociedade que eleva tantos "talentos" medíocres ao invés de valorizar os grandes de sua geração. Não falta ainda uma alfinetada na burguesia então em ascensão que busca, no patronato de artistas, elevar-se qualitativamente nessa sociedade que presumivelmente se guia pelo refinamento dos gostos artísticos e estéticos. Há, por fim, talvez nessa novela o germe que fez nosso Machado de Assis compor seu conto Um homem célebre. Esse nono volume da imensa obra de Balzac demonstra assim as diferentes facetas desse grande gênio, mesmo que em meio a alguns sestros e adiposidades de seu estilo (as descrições excessivas que se interpõem entre os leitores e a consumação de suas expectativas, por exemplo). Convivem dentro desse gênio o historiador, o esteta, o pensador político e o filósofo num equilíbrio nem sempre ideal, mas numa dimensão de sabedoria poucas vezes alcançada por outros autores da literatura mundial. Há, sobretudo, vida em pujança e uma vastidão de perspectivas.

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