A constituição de 1824 de teor liberal garantia a liberdade e igualdade jurídica entre os homens no Brasil, no entanto, os escravizados não entravam nestas garantias. Emília Viotti da Costa demonstra bem as contradições presentes em nosso liberalismo que conviveu com escravidão, monopólio, latifúndio e a burla aos direitos, vindo a frente os interesses pessoais e de família.
Com esta obra a historiadora de orientação marxista nos traz uma bela síntese das múltiplas determinações que levaram ao processo de abolição da escravidão no Brasil. Perpassando pelas questões político partidárias, econômicas, sociais e culturais.
No campo político partidário percebe-se as disputas entre os partidos liberais e conservadores que no geral representavam a elite escravista e buscavam um modo de fazer a transição do trabalho escravo ao livre sem maiores perdas para os senhores que no trabalho escravo tinham sua base econômica.
No campo econômico é enfatizada as pressões externas inglesas para que fosse feita a transição para o trabalho livre. Neste sentido leis foram criadas para de maneira sutil ir abolindo a escravidão como a proibição do tráfico no Atlântico (1831) e a lei Eusébio de Queiroz (1850) que viria reforçar a primeira, lei do ventre livre (1871)
E lei dos sexagenários (1885).
Em muitas regiões a transição já estava sendo realizada pela imigração europeia e com ferramentas modernizadas de trabalho. De modo que a abolição não se fez por um caráter de importância com as condições de vida da população negra, mas em nome do desenvolvimento econômico, justificado por uma ideologia liberal aliada a uma moral cristã de que a escravidão era um atraso e uma degradação humana.
Portanto, na segunda metade do século XIX boa parte da sociedade brasileira faria o coro da Abolição, entre liberais e conservadores, poetas e advogados, todos buscavam se livrar, se libertar do atraso que representava esta instituição e adentrar o salão dos civilizados pelos meios legais, abafando e contendo as rebeliões nas senzalas, ruas e fazendas. Aos negros o pós abolição trouxe um projeto de eliminação, marginalização, silenciamento e busca de embranquecimento que necessitava uma nação (1889) civilizada.