Por meio da pesquisa de processos criminais de atentado ao pudor, estupro e rapto ocorridos no Rio de Janeiro de 1900, Meninas perdidas reconta a história de muitas mulheres que, apesar da atmosfera vitoriana da época, se libertaram de conceitos tradicionais como o "sexo antes do casamento", defendidos desde sempre pela Igreja Católica. Iniciou-se, assim - muito antes do que se pensava - um princípio de revolução sexual e de violência, embora tanto ontem quanto hoje essa libertação não ande de braços dados com a maioria da sociedade.
Meninas perdidas - os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque
Martha de Abreu Esteves
Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque
Rio de Janeiro, primeiros anos do século XX, palco de um conflito urbano ocasionado por uma política de reconhecimento do corpo e do sexo que tem por objetivo estabelecer a ordem das transformações econômicas, políticas e sociais da classe burguesa. Esse é o contexto histórico no qual estão inseridas as “meninas perdidas” da historiadora Martha de Abreu Esteves. O livro Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque é o produto final da tese de mestrado da já citada historiadora Martha Esteves, lançado em 1989. Defendina na Universidade Federal Fluminense (UFF) no final da década de 80, a tese de Martha Esteves reflete as novas questões e as novas formas de abordagem das fontes, trazidas pela história social inspirada basicamente na Historiografia Social Inglesa e na nova História Francesa ligada à obra de Michel Foucault . Nesse sentido, a tese de Martha dialoga com as demais obras produzidas nesse momento, que abordam as relações de poder e resgata a ação dos homens, enquanto sujeitos produtores de sua história como é o caso do livro Trabalho, Lar e Botequim. O cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro na Belle Époque do também historiador Sidney Chalhoub. Ao analisar os processos de defloramento, principais fontes de seu trabalho, Martha tem como tema central o êxito e a difusão dos discursos dos juristas que geraram uma herança de papéis sexuais difundidos como valores universais. (p.25) Nesse sentido, seus objetivos se tornam claros: definir de que maneira esses discursos estabeleceram padrões de comportamentos difundidos na época analisada. O livro Meninas perdidas está divido em duas partes, sendo a primeira divida em dois capítulos (1 e 2) e a segunda em três (3,4 e 5). Na primeira parte a autora se detém à análise dos discursos jurídicos como elementos formadores de um cidadão completo, e nos quais a mulher tinha um papel fundamental já que era ela a responsável pela formação dos filhos e manutenção do casamento. Nesse sentido, a autora análisa de que forma esses discursos contribuíram para a normatização do corpo e do sexo sob as demandas da classe burguesa. Os instrumentos jurídicos dessa normatização passavam pelas esferas do público e do primavado, já que, na medida em que os problemas que poderiam ser privados eram trazidos à público as devidas punições serviam de exemplo para os demais. Na segunda parte do livro Martha analisa os discursos populares. O capítulo 3 é dedicado aos valores familiares, e a questão central desse capítulo já se insere na página 117: se as jovens procuravam a polícia e a justiça não estariam elas dando provas de sua honra, por que o conflito de valores com a justiça? Essa questão dará suporte aos capítulos seguintes, 4 e 5, que apresentam o cotidiano dessas mulheres, que viviam em meio as transformações da cidade do Rio de Janeiro, mulheres que trabalhavam fora e que sem a devida vigilância viviam a cidade. Os processos criminais analisados refletiam a vida dessas mulheres que faziam da cidade parte do seu dia a dia, é partir daí que se estabelece a discussão sobre o que é normal. A discussão sobre o que é normal se dará no último capítulo, 5, quando a autora trás as contradições dos discursos sobre o namoro das mulheres pobres. O que era o namoro para essas mulheres e como estas se comportavam diante dos comportamentos exigidos pelos seguimentos médicos, essas são as questões principais desse capítulo. O namoro para estas mulheres tinham, tal qual suas vidas, liberdade, diferente dos namoros da elite, e isso sugere a falta de vigilância desses namoros. No entanto, essa era a realidade dessas mulheres, esse era o normal. Em suas últimas palavras Martha Esteves mostra que a luta travada no início do século XX foi vencida pelas “menias perdidas”, que ao criarem uma nova realidade desprezaram os padrões burgueses capitalistas que os juristas e médicos higienistas tentaram impor. Essas meninas encontraram novas opções diante da discriminalização da sua forma de amar, o viver amasiado foi uma dessas opções que entre essas meninas se tornou o normal.
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