O bom uso é a norma
O objetivo é “analisar, pelo ângulo do discurso fundador da metalinguagem portuguesa, isto é, do nascimento da gramática portuguesa, a construção da norma tradicional pelo aproveitamento do uso do português ou, em outras palavras, a norma que conforma o que se considera ‘o bom uso’...” (p.22). Para a autora, a gramática é vista como ‘elemento de conhecimento dos sistemas de saber’ e um instrumento linguístico. E ainda: “a gramática é compreendida como um dos espaços em que se constrói o conhecimento sobre a língua e que, portanto, tem seu lugar no âmbito das ciências da linguagem” (p.22). Como seu objeto é a língua, considerado aqui como objeto cultural, inclusive, a autora traça um panorama dos estudos da linguagem na Antiguidade, dando ênfase às ideias linguísticas que eram veiculadas nesse momento tanto na filosofia quanto na retórica e depois trata da construção das gramáticas gregas, alexandrinas e latinas que, posteriormente, serviram de modelo para a construção das gramáticas portuguesas. Após esse embasamento teórico, ela explora as duas gramáticas portuguesas: a de Fernão Oliveira e a de João de Barros, não só do ponto de vista histórico e discursivo, como também do ponto de vista estrutural, examinando as marcas linguísticas empregas na construção da metalinguagem. Além de perceber, por meio da análise da heterogeneidade discursiva, que é possível que Barros tenha tido contato com a gramática de Oliveira, a autora não vê o uso e a norma como objetivos dessas gramáticas. Para ela, “o estudo sistemático da língua portuguesa nasceu com Fernão de oliveira e sob a égide da descrição do uso da língua efetivamente praticada pelos portugueses, na vida cotidiana, e não de norma extraída de textos escritos literários”. (p.87). O objetivo, entretanto, de João de Barros, é pedagógico, uma vez que a sua gramática é dedicada aos meninos das escolas de ler e escrever, aos portugueses e estrangeiros de terras conquistadas (Cf.105).

