1771. A casa assombradada era o seu refúgio. Pouco saía e gostava de permanecer à janela. Olhava o jardim, os morros e montanhas distantes. Um olhar à procura, Chica queria não lembrar o período feliz ao lado de João Fernandes. Constituíra com o Contratador uma família, uma união que durou dezessete anos e na qual tiveram treze filhos. O último, José Agostinho, ainda disputava os peitos da mãe com a irmã. Chida da Silva, vez por outra, sentia tão forte saudade de João Fernandes que permanecia sentada, diante da janela, por horas a fio. Não queria pôr ordem na vida doméstica; não queria saber dos problemas das prioridades, sobre os escravos. sobre os contratos e administração na Casa do Contrato, não, não queria saber...
Chica,Sinhá ! -
Carlos Alberto de Carvalho
Edições (1)
Ver maisAté o momento o que sabia sobre a Chica da Silva resumia-se às visões propagadas pelo filme dos anos setenta (com a Zezé Motta) e pela novela da extinta Manchete nos anos noventa (com a Taís Araújo). Obviamente, obras de apego ao lado mítico da personagem, exaltando a sensualidade e megalomania, sem se preocupar com a historicidade. Uma Chica que se escreve com "X" e que essencialmente resume-se a uma mulher objeto. Nesse livro há a valorização de aspectos biográficos reconhecidos como verdadeiros. Embora tenha seu lado fictício, o autor assenta a história nesses pontos e assim descobrimos uma personagem diferente do lado folclórico. A narrativa inicia com a história da mãe, adolescente na África, em eventos que transmitem emoção e expectativas, onde sua vinda ao Brasil está associada à desgraçada ação do tráfico de escravos. O episódio transmite veracidade e é seguido (o que há de se imaginar naquela sociedade machista e abusiva?) de breve relato do nascimento da Chica. Não quero favorecer spoiler, mas posso dizer que a história tem pontos desconhecidos do povão que se volta apenas ao folclore. Chica teve uma união estável com o contratador, com quem teve 13 filhos, vivendo em opulência por vários anos, mesmo depois da morte dele, e é apresentada como uma das mulheres mais ricas de todo o reino. Algo inusitado na sociedade mineira. Uma ex-escrava atingindo um patamar alto naqueles idos, o foco do autor, com uma história instigante à imaginação no século XVIII: a da senhora do Tejuco, Francisca da Silva, mulher do Contratador João Fernandes, o homem mais poderoso da região. A história de Sinhá Chica, também influente a seu tempo. O ponto que achei mais curioso de sua vida, no que é apresentado na obra, está relacionado à construção da Igreja de N. S. do Carmo no Tejuco, hoje Diamantina, com a torre na parte de trás. Surreal para a estética consagrada na arquitetura religiosa. Baseada na crença de que Chica se incomodava com as badaladas e, principalmente, pela imposição da sociedade aos negros de não ultrapassar os limites de qualquer igreja além da linha das torres. Prefiro acreditar no segundo aspecto, que valoriza mais a personagem. A torre nesta disposição significava que a igreja poderia ser visitada por todos. A história avança até a morte do contratador e da famosa Chica. O apego à historicidade é interessante como aprendizagem, mas confesso que a obra não transmite carisma em Chica. Falta um pouco de malícia, de encontro de amantes, que justificasse a grande paixão entre ela e seu amado. Cadê? Essa parte está insossa. Não precisa ter aquela visão das obras que citei no início, mas também me desapontei com esse andar, sem o impacto que teve, ou deve ter tido, a Chica naquela sociedade. Faltou romance no romance... Retornando para as páginas iniciais, talvez o limitador de algumas coisas seja o que está escrito na ficha catalográfica. A obra é direcionada, em princípio, ao público infantojuvenil. Se te contar o enfado com que a narrativa se arrasta nos anos finais da protagonista... Sem dúvidas faltou um encantamento, retirado em prol do relato mais realista. Ficando raízes na história, não precisava tirar também todo o "borogodó" da moça, né! Não gostei dessa parte, mas ainda assim, pelas descobertas, valeu quatro estrelas em minha leitura. Ressalte-se também que o texto é simples, sem extravagâncias, e convidativo a boa leitura a jovens leitores. Devaneando um pouco, acredito que essa história ficaria muito boa numa adaptação para os quadrinhos, por Milo Manara ou, quem sabe, pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Né não?
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