Pequenas histórias de amor e morte e outros assuntos referentes
UMA BOA PEDIDA PARA QUEM ESTIVER HOJE EM SAMPA - 19h NO BAR BALCÃO ... É o título do novo livro do escritor e ilustrador Gilles Eduar, que a Editora Laranja Original lança logo mais às 19 horas no bar Balcão em São Paulo. Eduar que é conhecido no mundo editorial como ilustrador, resolveu reunir em um único volume, poesia, pensamentos, ilustrações e contos de feição nitidamente fabulatória. Ao cabo da obra, os textos e ilustrações, transmitem ao leitor uma unidade a traduzir o típico ‘maluco beleza’ que, via de regra, habita a personalidade daqueles que inclinam-se à ilustrar livros. E isto, é uma delícia. Os leitores certamente ficarão a se perguntar: mais afinal quem é esse cara? Muito bem; é arquiteto, morou em Paris, e teve a sorte de trabalhar em uma livraria infantil no museu do Louvre. Voltando ao Brasil começou a trabalhar com ilustração, sobretudo de livros infantis, que já somam 13 obras publicadas. Neste “Pequenas histórias de amor e morte e outros assuntos referentes”, encontramos um autor que soube fazer um link perfeito entre imagem e texto no sentido de que, a partir dessa relação, apropriou-se de concisão suficiente a provocar no leitor a imediata visualização das cenas e situações propostas. Alguns dos contos da segunda parte do livro (que não tem uma divisão rígida de capítulos) criam somente com o texto, a imagem proposta. É como se o leitor estivesse diante de uma página de história em quadrinhos. A mensagem é rápida, objetiva. Cortante. O ilustrador troca de lugar com o ficcionista, e ele sabe que não há o apelo da imagem. Tem que dar a sua mensagem contando apenas com a linguagem, mas sabe como provocar a visualização da imagem. E isto é fundamental para o adulto, assim como a ilustração o é para as crianças. Falamos acima sobre a unidade do livro. Unidade no sentido da temática proposta. Pequenas histórias de amor, versadas em poesia estão aqui e ali, misturadas, entrelaçadas e/ou em sentido de complementaridade com aquilo que entendemos como morte (inclusive do próprio amor), e com um senso de humor digno de nota. Senão vejamos: “Por favor meu amor ascenda o meu cigarro que não fumo beije minha boca que não beija beba, só um pouquinho, do meu sangue contaminado pelo medo Aqui na minha mesa tenho vista para todas as estações os aeroportos os vales os mares a imensidão das pedras e nem noto que tudo poderia ser pura diversão” Ou ainda em: “já te vi mais altiva jamais te vi tão crua seus olhos piscam seus cílios picam sua boca beija forte corte um cheiro suave de sangue anfetamenina ossos espétalos de flor a carne viva ninfeta retina jamais te vi tão nua” Resultados bastante interessantes acontecem quando o autor resolve implicar em seus poemas, personagens da literatura ou figuras mitológicas: “À Dulcineia vivo emprestando mil travesseiros para forrar sua cama afundada de puteiro Estranha pele lisa e branca Rímel em torno dos seios não sei por que Dulcineia com suas pernas longas e finas me atrai como inseto em parafina Dos grandes sonhos que ela teve um foi de ver o mar Na hora que ela viu se espantou — É tão confuso assim? e sorriu me beijou e disse — Deve ser difícil trepar aí dentro” Impossível não se surpreender com esta figuração de Medeia: “Frente a toda platéia eu mesmo vi Medeia tirando a calcinha e mostrando o seu cu espumando de ódio só porque seu namorado esqueceu sua fala num momento de amor (Na verdade eu achei que foi muito bom, dum realismo sutil que só ela não viu).” Do meio do livro em diante, nos deparamos com verdadeiras fábulas. Fábula entendida como um texto narrativo alegórico e curto, escrito em prosa ou verso, no qual as personagens são geralmente animais com características humanas a apresentarem um ensinamento, uma lição moral ou uma reflexão sempre acompanhada do humor característico do qual já falamos: A galinha e a nuvem “Na porta da frente do galinheiro esperava uma nuvem. Parecia impaciente. Quando a galinha Filó-toda-toda apareceu na soleira do alambrado, a nuvem se recompôs. Arredondou-se, sorriu. Saíram de braços dados: Filó com seu guarda chuva, a nuvem com seus óculos de sol. Debaixo dos limoeiros foram passear. Outras galinhas curiosas reconheceram a rota seguindo os pedacinhos de nuvens agarrados aos galhos. Queriam dar um susto no casal. Estava tudo combinado: 1, 2, 3 e gritariam um grande BUM! Sem dúvida a nuvem assustada choveria e ela, Filó, abriria seu guarda-chuva ou seus braços acolhedores? Quando a trupe chegou, a Filó é que estava com os óculos escondendo seus olhos vermelhos. Em seus braços a nuvem pequenininha evaporava.” A batatinha nervosa “No meio das batatas adormecidas no cesto havia uma batatinha menor que as outras, mas muito mais nervosa. Por volta das duas da manhã, ela começava a berrar e ninguém sabia por quê. Até os legumes dentro da geladeira acordavam. As abobrinhas, exasperadas, sem poder dormir, acendiam a luz e começavam a dar voltas em círculos pelas prateleiras gritando que assim não era possível. Batatas em geral têm o gênio manso e as deste cesto não fugiam à regra. Elas nem ligavam para o choro da batatinha nervosa. A coisa se estenderia madrugada adentro não fosse a beterraba solidária vir consolar a triste tuberculinha propondo passeios calmantes pela cozinha escura. Um dia em que as duas estavam naquelas perambulações noturnas, o rato Eliezer, bom de papo, convidou-as para entrar em sua casa. Aceitaram, mas só a batatinha pôde passar pelo buraco estreito da parede. A beterraba ficou esperando do lado de fora. Esperou, esperou até raiar o dia então voltou para a sua cesta junto com os nabos e rabanetes. A partir daquela noite nunca ninguém mais acordou com os gritos da batatinha. A beterraba, acostumada com aqueles passeios, abria o olho às duas da manhã pontualmente, lembrava da amiga, chorava um pouquinho, rolava para o lado e voltava a dormir.” Em tempos de “ranger de dentes” como os que atravessamos, literatura que alie reflexão e humor, é imprescindível. O senhor Giles Eduar bem sabe disto, e como sabe. Livro: Pequenas histórias de amor e morte e outros assuntos referentes – Contos de Gilles Eduar – Editora Laranja Original,São Paulo - SP , 2019, 169 p. ISBN 978-85-92875-51-0 Link para compra e pronta entrega: https://www.laranjaoriginal.com.br/product-page/pequenas-hist%C3%B3rias-de-amor-e-morte-e-outras-coisas-relativas

