Tomei conhecimento deste livro através do podcast Não Obstante, do qual sou ouvinte, apresentado e coordenado pelo autor Daniel Portugal e seu amigo Marcos Beccari. O livro é uma versão modificada e expandida da tese de doutorado do autor, também comentada no podcast, cuja proposta me interessou na hora: a concepção, através da história, de lados obscuros ou problemáticos do nosso ser que se opunham ao nosso “verdadeiro eu” na forma de três bestas, assim caracterizadas:
Lobo – besta ligada a nossos desejos, apetites, paixões, sensualidades e prazeres ligados à matéria, ao corpo e à carne;
Dragão – besta ligada a regras sociais internalizadas, vontade social atuando dentro do indivíduo e oprimindo-o, regras assimiladas e repressão.
Cão – besta ligada ao sofrimento, sensação de inadequação, afastamento da felicidade devido a uma disfunção do cérebro, entendida como uma doença mental.
O livro faz uma análise da constituição das três bestas através da filosofia, religião e psicologia, mostrando suas presenças em personagens e obras da cultura popular contemporânea. Ao final, apresenta um capítulo onde analisa e mapeia as bestas em conjunto, procurando identificar os pontos estruturais comuns do imaginário bestializador, apresentando uma alternativa desbestializadora e ainda uma quarta besta.
A abordagem do autor é muito interessante e, até onde sei, original, com um texto muito bem escrito e referenciado, que desperta muitos questionamentos, principalmente no capítulo referente ao cão. A leitura é fluida na maior parte do texto, embora tenha partes de linguagem filosófica mais densa. A opção de concentração das notas ao final do livro dificulta um pouco a leitura.
Enfim, recomendo muito a leitura.