Este livro discute as abordagens filológicas diante do problema da concepção e do tratamento a ser dispensado às variações – ou variantes – identificadas nas fontes manuscritas. O autor parte do ideal nostálgico dos pioneiros da Filologia, que perseguiam a reconstituição de um texto seguro e original, para, em seguida, questioná-lo, indicando que as variantes são características essenciais em várias tradições de manuscritura. Tratando particularmente da obra literária da Idade Média, o texto procura demonstrar como os textos medievais se opõem às ideias de autenticidade e de unicidade que comandaram os métodos de abordagem da Filologia francesa.
Éloge de la variante (Des Travaux) - Histoire critique de la philologie
Bernard Cerquiglini
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Ver maisTirando o gesso da Idade Média
Este pequeno livro de Bernard Cerquiglini teve consequências bem maiores que sua curta paginação. Para a crítica literária e, especialmente, para a filologia, apontou um dedo em riste que os acadêmicos mais tradicionais e conservadores não desejam nem aceitam ver ser levantado. Para a história literária, ratificou através da história crítica de um de seus instrumentos de trabalho (a filologia), uma assertiva feita por Michel Foucault duas décadas antes: a literatura só apareceu no século XVIII, a partir da emergência do autor-proprietário e do regime de nova autoridade sobre as ideias e narrativas. Essa afirmação feita por Foucault, na famosa conferência <i>O que é um autor?</i>, tornou-se programática para a história cultural. Cerquiglini explora, com seu livro, especialmente as categorias "obra" e "texto", centrais na filologia clássica e desmonta suas estabilidades diante daquela que é uma "literatura" em estado duvidoso: a criação medieval. Os textos da Idade Média, tomados em sua materialidade e em seu regime específico de produção, resistem a essas categorias que foram intrometidas e forçadas a essa produção pela própria filologia clássica. O corpo da tese de Cerquiglini, então, é formado pela recuperação de um regime de produção textual - não necessariamente literário - em que as categorias do "novo", "original", "autor", etc. são dispensáveis por serem praticamente inexistentes ou sem sentido. Daí em diante temos que a filologia e a crítica que são aplicadas à Idade Média precisam, sobretudo, operar dentro do regime de produção textual ao qual devotam seu olhar inquisidor e não descrevê-lo segundo um aparato crítico externo. Situado à beira da virada da década e vislumbrando no horizonte a virada do milênio, Cerquiglini aponta para os textos eletrônicos como o elemento central de uma nova crítica, que precisa repensar suas categorias. O exercício de observar o tratamento dispensado à "literatura" medieval pela crítica clássica é o ponto de partida e chegada da evocação de uma nova metodologia, de uma nova postura frente aos desafios que viriam (e, ainda agora, trinta anos depois, estão sendo pensados) com uma nova economia de produção textual mediada pelos computadores. Um belo texto que, sem dúvida, vale para todos aqueles que desejam ampliar seu modo de ver a Idade Média como objeto de estudo e atribuir-lhe uma mobilidade que, ainda hoje, o senso comum lhe retira. Infelizmente o livro nunca foi traduzido para o público brasileiro (e, que eu saiba, nem para o público português) em sua integridade. O artigo homônimo que precedeu o livro (publicado no volume 69, de 1983, da revista <i>Langages</i>) recebeu uma tradução, feita por Márcia Arruda Franco (da Universidade de São Paulo) e Cristina Nagle (da Universidade Estadual de Campinas), publicada na revista <i>Politeia</i>, vol. 15, nº 1, em 2015.
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