Dezoito de julho de 1899. Nasceu numa casa simples situada num bairro do subúrbio da Central do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, uma menina de nome Kette Sanches Aquine com cegueira congênita. Com um ano de idade seu pai faleceu em grave acidente de automóvel. Karina, sua mãe, dedicou-se à filha, rejeitando novos pedidos de matrimônio. Aos três anos foi para um colégio de "crianças especiais" onde passava as tardes. Sua inteligência e vivacidade superavam as expectativas dos professores que se encantavam com ela. De início achavam muito graça quando ela apontava para algum lugar e dizia: — "Olha o papai! Ele tá sorrindo pra mim". Certa ocasião, durante o recreio, perguntou ao professor: — Quem é aquela mulher brincando de roda com as crianças? Ele respondeu que ali não havia nenhuma mulher. Ela insistiu. — Tem sim, ela tá bem ali. — Como ela é? Indagou o professor com curiosidade. — Ela é gorda, o rosto é bem branco e gordo e tem uma pinta preta bem perto da boca. A roupa é uma porção de pano preto que vai até o pé. No pescoço o pano é branco e o chapéu também é branco. O professor lembrou-se do retrato da antiga diretora daquele colégio; uma freira desencarnada há muitos anos. Preocupado, achou melhor não alimentar aquele diálogo por julgá-lo perigoso para a mente de uma menina de apenas três anos. Colocou-a no colo e disse-lhe carinhosamente: — Aquela senhora está morando com papai do céu, veio aqui para nos visitar, por isso não conta pra ninguém que você a viu, fica sendo um segredo só nosso, está bem? Ela concordou sorrindo.
A cega que "via" -
Cleusa Sarzêda
virtualbooks
2001
30 páginas
1h 0m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
Resenhas (1)Ver mais
Estatísticas
Avaliações
2.5 / 4- 5 estrelas0%
- 4 estrelas0%
- 3 estrelas50%
- 2 estrelas50%
- 1 estrelas0%
