A razão selvagem -

    Francisco de Morais Mendes

    Ciência do Acidente
    2003
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-10: 8587515195
    Português Brasileiro

    Contos do escritor mineiro Francisco de Morais Mendes.

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    Alexandre Marino picture
    Alexandre Marino09/02/2010Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Afogados em quimeras

    Escritores são criaturas estranhas, que despendem energia na construção de mundos imaginários e seres às vezes mais reais, ou realistas, que seus próprios modelos. E para que serve esse exercício? Para fazer um retrato sem retoques de seu tempo, de maneira ainda mais precisa que o jornalismo, porque só à literatura é facultado penetrar nas entranhas da alma de seus personagens, colher o sangue que jorra de seu coração, dissecar mentes doentias em sua aparente normalidade. Antes de prosseguir nessa inócua discussão, interrompamos o curso da conversa para falar de um desses criadores que moldam mundos e personagens com esmero de paciente artesão. Em seu segundo livro, "A razão selvagem" (Ciência do Acidente, São Paulo, 2003), Francisco de Morais Mendes prossegue e evolui na tarefa a que já se propusera quando lançou "Escreva, Querida" (Mazza Edições, Belo Horizonte, 1996): fotografar caóticos cenários das grandes cidades e seus não menos loucos habitantes, travestidos de cidadãos inofensivos e normais. A razão selvagem reúne sete contos, e começa brando e sutil em sua primeira página, onde o autor descreve o comportamento rotineiro de um senhor no aconchego de seu lar, depois de um dia cansativo de trabalho. Nada de anormal: a televisão, uma partida de futebol, uma limonada. O que se desenrola no conto, que vai ganhando em densidade e força a cada linha, é um diálogo telefônico entre um médico legista e uma voluntária que presta serviços a uma entidade filantrópica. O conto — "Você ainda está aí?" — é uma homenagem ao escritor Luís Vilela, como o bom leitor poderá perceber ao longo do relato. O que vem pela frente é essa narração angustiante proporcionada pela pena de Francisco de Morais Mendes, que vai construindo seus personagens a partir de detalhes psicológicos que, ao serem montados como um quebra-cabeças pelos olhos do leitor, dão origem a criaturas ao mesmo tempo normais e monstruosas — seres assim que a gente vê todos os dias através da janela, da televisão ou do espelho. Em "Redes", Mendes monta um complexo diálogo/monólogo entre moradores de um hospital psiquiátrico, em que supostos loucos dissecam as sujeiras e loucuras do mundo normal. "Apartamentos" relata as andanças de um fotógrafo que disseca a cidade por meio de fotos de apartamentos vazios, que visita sob o pretexto de alugá-los. O personagem, Homero, convive superficialmente com pessoas que cruzam seu caminho de potencial inquilino — um pedreiro, um funcionário da imobiliária, um vizinho meio louco. Para depois desvanecer-se, na própria história, como as fotografias que coleciona, mas não servem para nada. Em "Quimeras", um professor universitário que só vê com nitidez até “a quinta fileira” — o resto é penumbra — tenta entender suas ilusões, entre elas uma aluna misteriosa que vive nessa zona de sombra e talvez nem exista. O velho professor reflete com seus alunos sobre o escritor John Cheever, e com um colega sobre o compositor Van den Budenmayer, autor de um concerto da trilha sonora do filme "As duas vidas de Veronique", de Krzysztof Kieslowski. "A crítica da razão selvagem" nos revela o lado escuro da alma de uma classe média egoísta, fechada em suas próprias neuroses, na pessoa de uma advogada criminalista, que diz defender bandidos da fúria da sociedade. O leitor que decida, ouvindo os argumentos dela, quem é ou não digno de defesa. São personagens complexos e ao mesmo tempo simplórios na sua pequenez, esses com os quais se identificam os leitores, pequena parcela de um país mergulhado na tragédia. Um país onde poucos, muito poucos podem viver nas condições desses personagens, com emprego, lazer, academia, carro próprio, tempo para fazer compras ou simplesmente filosofar diante de um copo de uísque. É uma literatura para poucos, como qualquer literatura de qualidade feita no Brasil. Um país que finge ser grande, que finge ser erudito, que finge ser o que não é. No livro de Francisco de Morais Mendes, há sempre alguém fingindo ser o que não é, ou simplesmente criando ilusões que aos poucos se desfazem. Sintomas de uma sociedade que se esconde por trás de aparências, que mantém vivas suas esperanças apenas pelo prazer masoquista de vê-las agonizar, e tenta salvar-se do naufrágio agarrando-se a quimeras.

    1 curtida

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