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    Uma Janela para o futuro -

    Genivaldo Sazanni

    Impression The Best
    2002
    451 páginas
    15h 2m
    ISBN-10: 8588015021
    Português Brasileiro
    3.7
    15 avaliações
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    Favoritos2Desejados5Avaliaram15

    O romance conta a história de um menino órfão nascido no nordeste do Brasil que vivia sob a tirania do padrasto. Ele foge para São Paulo e procura construir nova vida e família, chegando a possuir uma das mais poderosa corretora de valores do mundo.

    Resenhas (1)Ver mais
    Juliana Fernandes picture
    Juliana Fernandes20/01/2019Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    A história começa com uma apresentação do quase sessentão sr. Denes Marques Caldeiras, presidente de uma grande companhia de compra e venda de ativos, a Following, e que, como manda o bom e velho código dos CEOs, é insuportável de arrogante e ninguém entende o porquê (imagine só!). Mas calma! Temos um elemento que justifica tudo isso: ele tem um passado traumático que se revelará mais tarde (imagine só!). Denes faz uso dos seus conhecimentos sobre o futuro para investir, multiplicando sua fortuna e com a qual compra um aviãozinho que deixaria Christian Grey no chinelo. Aliás, Christian Grey não é ninguém perto desse cara. O senhor Denes tem secretárias, pilotos, jardineiros, cozinheiras, arrumadeiras e governanta, emenda videoconferências com os peixões da Fiat com os peixões da Honda e delas vai direto para uma entrevista com os repórteres do The New York Times. Sua casa na fazenda Carina na verdade é uma mansão e até o ralo do banheiro é folheado a ouro. Se irritou ou só não quer dar mais atenção aos outros? Grita, destrata e manda sair da sala, sem rodeios. E é com a mesma indiferença que o sr. Denes coage o governo para que desaproprie as terras citadas no quote anterior, estas pertencentes ao velhinho João Camargo e a sua filha, a moça Patrícia Camargo, para, assim, ter espaço suficiente para ampliar a pista de pouso do seu Boeing Business Jet. Ao saber da ordem de despejo, o velho morre ali mesmo na frente dos fiscais, deixando a moça já sem mãe (imagine só!) órfã de vez. E de repente o pessoal do MST já toma as terras e ela, sem ter o que fazer, se junta a multidão para pelo menos continuar “tendo onde dormir”. Não é preciso muito raciocínio para deduzir que Patrícia é o interesse romântico do sr. Turrão. Paremos um segundo para descrever a jovem: dezenove anos, virgem, loira, esbelta, linda, devota a família, temente a Deus e indiferente aos cortejos dos moços das redondezas. Não nos esqueçamos do detalhe dos olhos verdes que combinavam com as alfaces da hortinha e seu costume de andar para lá e para cá com uma camiseta branca sem sutiã (detalhe importantíssimo). Eis que nosso mocinho e mocinha se encontram durante a cerimônia de recepção do ricaço nas propriedades recém desapropriadas, durante a qual a moça tenta atacá-lo, mas é detida e levada presa. Então, horas depois do ocorrido, o sr. Turrão está em sua Jacuzzi, vendo o noticiário, e observa melhor o rosto da moça que o atacou. Magicamente, ele decide mandar um de seus empregados “barganhar” pela liberdade da moça, que é levada a fazenda e tratada como uma rainha. “Vai presa na minha frente, não me importo. Vejo o noticiário e de repente acho que vale a pena soltá-la, trazer a minha casa e bater um papinho”. Simples assim. Vazio assim. “O cara me prendeu, mas me mandou soltar. Trouxe-me para a casa dele sem sequer me perguntar se eu simplesmente queria vir. Meu pai morreu porque esse cara desapropriou as terras da família, mas estou completamente ok em aceitar passar a noite aqui, cercada de gente desconhecida, comendo bem e tomando banho de banheira”. Também simples assim. Também vazio assim. Façamos mais um adendo a menina Patrícia: não tem aspecto de quem nasceu e cresceu trabalhando duro na roça, é delicada, de uma fineza natural. Deixa o nosso mocinho estupefato de tão bela (com direito a várias breguices narrativas). É imediatamente bem acolhida pelos funcionários da casa. Seus lábios são avermelhados como os morangos sob a mesa e gosta de admirar os pássaros, os beija-flores e os esquilos. Segue-se uma volta pelos jardins da propriedade do milionário, mas com bem menos requinte narrativo do que os romances de época. Patrícia conta o que houve, ele se desculpa. Ela corre, chora. Ele corre atrás dela, oferece um lenço. Ela pergunta sobre a família dele, ele conta que a esposa anterior se suicidou após a morte da filha, doente, enquanto ele próprio estava fora de casa tentando conseguir comida e remédios. Ele conta que consegue prever o futuro até meados de 2002, ela está de boa com isso. Denes acaricia a cabeça de um dos flamingos do jardim, a moça fica encantada (cuidado com a conotação!). Ele pergunta onde estão os pertences dela  —  como se fosse um esforço absurdo deduzir que ela não tinha nenhum sendo uma sem teto, indo presa e sendo pobre (e a absurdez só piora tendo em vista que Denes também tem raízes paupérrimas, e que, portanto, deveria entender melhor a situação). Ela diz que só tem a roupa do corpo, ele fica chocado. E de repente estão dentro do aviãozinho do sr. Denes, percorrendo meio mundo, frequentando as lojas mais caras e gastando horrores com o novo guarda-roupa de Patrícia. Ele a apresenta aos seus círculos de conhecidos, fala sobre seus negócios, enche-a de joias e apresenta-a ao seu sócio (que secretamente está tentando dar-lhe um golpe  —  IMAGINE SÓ!). O autor ainda tem o cuidado de pintar Denes como um ser humano de bom coração, citando suas doações milionárias a ONGs e outros projetos contra o câncer e a aids. Obviamente, o recurso entra apenas para amainar o ânimo do leitor, querendo aplacar sua eventual raiva devido a arrogância do homem  —  mas, para um (nem tão) bom observador, Denes continua sendo bom só com quem lhe convém, já que os empregados permanecem sob ameaças de demissão a troco de banana. Denes manda vigiarem-na com medo de que ela, “num desses arroubos de juventude”, fuja enquanto ele não está por perto. O autor ainda tem a pachorra de citar que, durante as viagens, ambos nadam juntos, fazem compras juntos, conhecem lugares juntos, mas que dormem em camas separadas, tudo  —  TUDO  —  para manter a ideia de que o romance está se desenrolando de forma natural, saudável e dentro de seu tempo, com Denes respeitando a moça e ela se cativando por ele docemente (em diálogos e narrações nas quais ela a pinta como “príncipe” e ele a chama de “mocinha”, numa dinâmica que muito se parece com um relacionamento bizarro entre pai e filha). O sócio sem vergonha  —  Hill  —  fica receoso de ser prejudicado devido a presença de Patrícia e embarca em planos maquiavélicos com sua cúmplice, Magda, para matar o ricaço (para depois simplesmente desaparecerem e só darem as caras de novo nos últimos capítulos). Denes e Patrícia têm suas primeiras relações, com direito a um Denes completamente mudado por causa da chave de coxa e resoluto a se submeter a uma cirurgia plástica para ficar mais jovem e agradar a parceira (sim, isso mesmo). Os empregados estranham, todo mundo estranha. Na volta de Londres, o avião de Denes cai e ele é dado como morto, o que provoca a expulsão de Patrícia da mansão por Hill e sua volta a uma vida de miséria. Os grandes segredos do ricaço são revelados em cinco minutos de conversa a uma desconhecida que tinha acabado de perder o pai por culpa dele. Nenhuma desculpa parece sincera o suficiente, nenhuma dor é profunda o suficiente, e assim nenhuma empatia pelos personagens consegue se consolidar. Os diálogos são artificiais e a história parece querer correr por julgar ter algo mais interessante para contar. O romance se desenvolve de forma tão desparelhada que nada deve a apresentação do livro como um todo. E então, a partir do capítulo 6, a história se perde ainda mais. O livro é composto por 21 capítulos, 10 deles focados em contar a história de Zeca (nome de Denes antes de um novo registro), salvo o capítulo 16º que é dividido entre o passado e a viagem no tempo até a época apresentada inicialmente pela história, 2001–2002. Ao longo destes 10 capítulos, somos apresentados a uma infância cheia de violência após a morte da mãe de Zeca, Anastácia, conhecida pelo seu estilo de vida libertino e seu costume de ter filhos e doá-los para outras famílias, a exceção do próprio Zeca por quem tinha desenvolvido certa estima. Após a morte da mãe, Zeca é adotado pela meia irmã Estela e passa a sofrer nas mãos do cunhado Joel que o espanca sem motivo e o obriga a seguir rotinas estafantes de trabalho na roça, tudo sob os olhares coniventes da esposa, dos filhos e dos demais habitantes da região. A narrativa passa a ser pontuada pela citação de fatos históricos, geralmente abrindo os capítulos ou servindo de introdução aos cortes de cena. Num primeiro momento, o artifício é interessante e instiga, porém, após três ou quatro repetições e, principalmente, sua indiferença a história do personagem, chega a cansar, tornando-se pulável e às vezes até irritante, sobretudo pela pomposidade nas exposições. Resumidamente, Zeca passa pela violência do cunhado e pela indiferença de todos da roça, decide sair de casa, se arrepende, volta a apanhar, decide sair de novo, sai, vai para Bertolínia e conhece, por acidente e por intermédio de Lucas  —  um açougueiro sádico  —  a meia irmã adúltera. Zeca começa a prestar serviços para Lucas e a guardar dinheiro para melhorar sua vida e é tratado bem por um certo período, até que Lucas passa a surrá-lo por surrá-lo, num comportamento idêntico ao de Joel. Novamente Zeca decide sair de casa, tira seus novos documentos (escolhendo o nome Denes, como conhecemos) e parte para São Paulo. Já em São Paulo, o já também Denes passa a trabalhar em uma empresa e a viver em uma pensão, conhecendo, nesse período, a então futura esposa Elza. Denes é menosprezado pela família dela e por algumas pessoas da própria pensão por ser nordestino, mas nem por isso deixam de se relacionar. Mudam-se para uma favela, onde ele tinha comprado uma casinha e alguns móveis. Vivem bem por algum tempo até Denes perder o emprego, mergulharem na miséria, a filha, Carina, adoecer e a mãe se suicidar após a morte da menina enquanto o marido estava fora tentando conseguir comida e remédio por intermédio de amigos (história contada lá no início desta resenha). Há então um evento inexplicável que tira o jovem Denes de seu tempo e o envia para o tempo de Patrícia, quando já é rico. É digno de nota aqui a existência do irmão de Denes, Gerson, que pode também ser resumido a um personagem aleatório e que, basicamente, voa para onde o vento toca. Prestador de serviços de um grande fazendeiro, Gerson utilizava da boa educação e de seu bom relacionamento com o filho do chefe para se promover entre os colonos, até se apaixonar por Iracema (posteriormente revelada como sua meia irmã) e ser descoberto na falcatrua. Envergonhado, decide abandonar aquela vida e ir para São Paulo, onde se envolve com o casal Padine, traficantes de órgãos. Magda, futuramente cúmplice do sócio falastrão Hill, era então mulher de Evandro Padine e encarregada de seduzir homens para que o marido realizasse o serviço. Gerson, contratado fajutamente como caseiro, acaba despertando o interesse de Magda, esta que se apaixona tão perdidamente por ele que decide matar o marido (evitando o triste destino do rapaz), roubar seu dinheiro e viajar com o amante para Nova York, onde se estabelecem num escritório no World Trade Center. Gerson acha completamente normal se associar a Magda, enterrar pessoas no quintal, falsificar documentos e levar uma vida tranquila com uma mulher que já sabia que matava inocentes. É difícil entender porquê Gerson se sentiu tão sujo fingindo ser filho de um grande fazendeiro (ao ponto de abandonar uma vida toda para ir para São Paulo), mas está tão completamente à vontade para fazer tudo isso, aceitando crimes muito piores em nome de um amor desenvolvido em menos de uma semana e unicamente baseado em sexo. É igualmente difícil deduzir aqui porquê toda a história de Denes é contada sendo que já sabemos onde ela termina, sobretudo pelo problema de timing na narrativa  —  a história parece dar voltas, como um cão atrás do próprio rabo, com passagens dispensáveis e repetitivas, e diálogos (de novo) que me fizeram sentir vergonha alheia: às vezes eu revirava os olhos, às vezes dava risada pelo nível. As piadas se prolongam demais e perdem a validade antes de ocorrerem, bem como as descrições mais tristes, que se arrastam e não comovem, virando pura dramatização. Novamente ressalto que não foram raras as vezes, inclusive, que parei a leitura, olhei para o nada e tentei entender o motivo do autor estar contando tanta coisa que não se interligava e nem se fazia necessária no livro. Se o propósito da história de Denes é questionável  —  provavelmente para ter “pano para manga” e/ou despertar empatia no leitor (tarefa na qual falha de forma miserável)  —  o propósito das aventuras de Gerson não faz sentido algum  —  talvez colocadas ali para justificar o apreço de Denes pelo irmão, mesmo eles sequer interagindo por toda a história, salvo no último capítulo, quando se conhecem por acaso e viram “mais que irmãos, brothers” (outra tarefa na qual fracassa). E se o nível de representação de Patrícia já nos dava mostras de erotismo, a partir da segunda metade do livro o pornô descamba, com cenas totalmente mal encaixadas e descritas de forma que mais parecem piada ou denotando uma exaltação do próprio autor com o que estava desenhando. A sensação de estar lendo a novelização de um pornô me pegou em várias passagens. Seguem-se diversas outras passagens de sexo com analogia a navegação, operações na bolsa de valores, lirismos sobre penetração e genitálias em geral, etc, etc, etc, que não caberiam aqui. O próprio processo de revisão parece se cansar julgando pela quantidade de erros que vão surgindo lá pelos capítulos finais. Então o Denes de vinte e poucos anos se vê no futuro e ocupa facilmente a posição do Denes de mais de cinquenta anos, e todo mundo acredita que ele sobreviveu a armação da queda do voo Londres-Brasil e que a cirurgia plástica foi, de fato, milagrosa. Denes e Patrícia se reencontram, ela fica radiante pelo marido novo. Sobrevivem a outro atentado, desta vez orquestrado por Hill, com direito a cenas de lutas estilo Dragon Ball e protagonizadas pelo nosso mocinho, salvando a secretaria Karin e a nobre Patrícia. Aliás, Patrícia e Karin são encarregadas de levantar o máximo de informações possíveis sobre Denes para o próprio Denes, que alega que estava com problemas de memória por causa de tudo que aconteceu e que precisaria da ajuda para escrever uma biografia. Ninguém questiona. A essa altura deve ter gente se perguntando: “mas e o World Trade Center da capa?” Pois bem, Hill estava num dos aviões sequestrados e morreu na colisão. Magda estava no escritório no prédio e morreu também. Gerson conseguiu milagrosamente se salvar e se encontrou com o irmão durante uma reunião. Todo mundo feliz. Casamento de Denes de 20 anos e Patrícia de 20 anos. E a história acaba. Acaba? Temos uma espécie de epílogo/prévia de uma parte 2, com Denes e Patrícia num avião, voltando para São Paulo, quando, de alguma forma, voltam para o Brasil de 1500 a tempo de ver as caravelas portuguesas atracando. E aí sim acaba. O livro acabou com a promessa de uma continuação que não encontrei em lugar algum. Não encontrei página ou site da editora e muito menos outras referências do autor. Ao final, eu também fiquei tentando digerir esse livro que conseguiu colocar fantasia, história, pornô, aventura, anime, ficção geral, humor e terror numa mesma panela  —  mas se o colocou e o conciliou bem, já são outros 500, mesmo se a intenção real tenha sido avacalhar (uma prova disso é a própria confusão na cabeça do leitor). Também é complicado saber se o autor colocou elementos na história de forma consciente e sabendo que seria irresponsável justamente por não se levar a sério, como o fato de Karin ter sido estuprada ainda criança (mais de uma vez) e isso não ter incorrido em nenhum trauma  —  é uma coisa que está lá na história, citada em um parágrafo, solta e sem motivo algum. Há a caracterização do homem sempre viril e desejável aos seus 50, 60 anos, enquanto mulheres da mesma idade são ridicularizadas, depravadas, más e dependentes de álcool. Em contrapartida, os homens jovens são da esbórnia e viris, as mulheres são desejáveis, sempre predispostas ao sexo (sendo elas castas, como Patrícia, ou libertinas, como Magda quando jovem, a própria mãe de Denes ou sua meia irmã, todas lindas, princesas, rainhas). O velho Denes sai impune de toda sua tirania ao ser trocado pelo jovem Denes. A Magda de 15 anos é coagida pelo velho Evandro Padine a ser cúmplice no tráfico de órgãos. Gerson sai impune da morte de Padine e é tido como uma ovelhinha pelo irmão mesmo tendo ficado ao lado da megera por anos e não ter nada na história que justifique seu total alheamento aos rolos da mesma. É um verdadeiro “nada acontece feijoada”. No frigir dos ovos, o livro consegue ser coerente com a capa: desconexo, bizarro e gozado, além de ter conseguido atingir seu intento (total ou parcial): se vender (fora a gratuidade da resenha). O bônus fica a encargo do feito de endurecer um pouquinho mais o meu coração na hora de julgar um livro pela capa, se bem que continuo tão confusa quanto a própria.

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