O bichano experimental -

    Alexandre Brandão

    Patuá
    2017
    180 páginas
    6h 0m
    ISBN-13: 9788582974964
    Português Brasileiro

    As primeiras crônicas de Alexandre Brandão são de 2000, ano em que passou a escrever em um jornal de Passos, sua cidade natal. Desde então tem contribuído com outros periódicos e, mais recentemente, com a Rubem, revista eletrônica dedicada à crônica. Em 2012, publicou uma primeira coletânea, “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux), nome que remete ao seu blog. O autor escreve contos — são quatro títulos publicados, o primeiro em 1995 e o mais recente, “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), em 2013 — e poesia, gênero com o qual se viu pela primeira vez publicado (Suplemento Literário de Minas Gerais, nos anos de 1980).

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    Henrique Luiz Fendrich03/09/2019Resenhou um livro
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    Serenidade e experimentações de Alexandre Brandão

    Alexandre Brandão não comunga de extremos. É ele mesmo quem confessa: quase nada o mata de rir, tampouco o leva às lágrimas. Mas isso está bem longe de significar insensibilidade, como revela a simples leitura das suas crônicas. É de maneira sempre terna, por exemplo, que ele reconstrói suas memórias familiares. Seu comedimento – e isso é um mérito – o impede de se render à nostalgia pura e simples: ele sabe que o presente tem o rabo preso com o passado. Preocupado com questões sociais, com jovens que engrossam as estatísticas da violência, com a democracia brasileira caindo pelas sarjetas, Alexandre às vezes tem vontade de escrever algo que seja como um grito que lhe escapa, que diga, sem saber sugerir um remendo ou solução, que não é assim que construiremos um país. Novamente, a serenidade atua em seu favor, pois ele não quer ver virar um gatilho, um fogo contra o peito daquele com o qual não concorda. É de uma posição de equilíbrio que ele pode observar: “Em terras tropicais, odiamos o outro”. Como não se trata de um articulista, mas de um escritor, Alexandre encontra meios dos mais variados para expor as suas perplexidades. Assim é que ele pode se instalar dentro de um trem inexistente, e de sua janela contemplar o Brasil e o brasileiro, embora, algumas vezes, o trem pareça andar fora dos trilhos. É no lombo do Brasil que o cronista vai, e nós com ele. Como esta, há muitas outras experimentações ao longo das crônicas de Alexandre, reunidas sob o pertinente título de “O bichano experimental” (Patuá, 2017). Alexandre não se limita a fazer o trivial no gênero, mas também aposta em exercícios e brincadeiras literárias, algo que o Paulo Mendes Campos adorava fazer, ou mesmo o Rubem Braga de “História do corrupião”, de “Eu e Bebu na hora neutra da madrugada” – a crônica em toda a sua dimensão literária. Nessas tentativas de explorar novas possibilidades da realidade, há verdadeiros achados, como “Rondó da cor mais dúbia”, sobre os livros despalavrados, feitos para colorir. É interessante observar também as “guinadas” que o cronista dá em seu texto, às vezes um “cavalo de pau”, de maneira que o assunto inicial da crônica se transforma em outra coisa, por uma associação nada óbvia por parte do cronista. Isso mantém o escritor mais livre, e a sua crônica mais viva. Também chamam a atenção as crônicas em que Alexandre dialoga com os livros que lê e com as músicas que escuta. Sempre atento a essas manifestações artísticas, o cronista consegue, a partir delas, refletir sobre aspectos não apenas da sua realidade, mas da nossa vida cotidiana. Os processos de leituras e de escrita também mereceram reflexões, são a parte metalinguística da crônica e que geralmente tem como um efeito muito positivo aproximar o leitor do escritor. Isso e também os textos em que fala sobre o seu pai, sobre as suas duas mães, sobre diversos personagens, parentes e amigos – histórias que permitem a um leitor conhecer melhor o seu escritor. Todas as pessoas citadas, assim como todos os lugares e todas as obras, foram e são tão importantes para o autor que mereceram um excepcional índice ao final do livro – o que não apenas revela a bagagem do escritor, mas, principalmente, a sua gratidão e generosidade. Porque, apesar de tudo, ainda há motivos para se estar grato. Alexandre ainda acha a vida boa, apesar de tantas barbaridades que acontecem por conta da nossa irresponsabilidade. E ele pode também estar certo que, ao sair do zero para escrever essas crônicas, saiu-se vitorioso.

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