Eu amei esse livro, sério. Eu basicamente peguei o livro para ler sem saber o que esperar, sem expectativa alguma, apenas na esperança de entender um pouco mais sobre o conceito de bruxas. E, felizmente, o livro é muito mais que isso, é um livro sobre as mulheres e sobre como elas são vistas e tratadas pela nossa sociedade. De modo geral é um livro sobre o feminismo. E para falar sobre a posição social das mulheres a autora faz analogias geniais com duas palavras inseridas em contextos e ambientações distintas bruxas (witches, em inglês) e vadias (sluts, em inglês). Essas duas palavras foram e ainda são utilizadas como uma forma de menosprezar, inferiorizar e estereotipar a mulher. As mulheres serão chamadas desses nomes apenas por existirem, apenas por serem mulheres.
Entretanto, é algo que vai muito além disso. Se antigamente, bruxas e vadias, eram utilizadas como adjetivos pejorativos, hoje as mulheres abraçaram estes termos e possuem orgulho de serem chamadas assim. Não, porque representam algo negativo, e sim porque são palavras que representam mulheres fortes, independentes, decididas e que desejam sua liberdade, seja ela individual ou sexual. Reivindicar e desmoralizar essa categoria de linguagem pode ser usado como uma forma de desafiar os próprios sistemas de opressão. Você não pode tirar as palavras da boca dos opressores, mas pode subverter o significado pretendido quando utilizam as palavras.
A autora mostra como essas duas palavras, vadias e bruxas, representam uma história de misoginia perante as mulheres. Os nomes e punições mudaram ao longo dos anos, mas as mesmas atitudes e comportamentos opressivos que prevaleciam durante os primórdios da caça às bruxas, continuam existindo hoje. Entretanto, com uma conotação distinta e em contextos diferentes. As mulheres atualmente podem não ser mais queimadas em fogueiras, porém elas ainda são fortemente reprimidas por serem quem elas são e por demandarem o mínimo que seja de algum tipo de liberdade e poder de escolha.
O livro é muito rico, pois a autora pretende através das analogias feitas com ambas as palavras, fortalecer o poder feminino e as identidades feministas. O que ela faz no livro é traçar a linhagem e a história do que ela chama feminismo das bruxas, para isso ela se ancora em elementos da arte, cinema, música, moda, literatura, tecnologia, religião, cultura pop e política. É um livro que aborda direitos reprodutivos, prazer sexual, pornografia, identidade queer, positividade corporal e também trabalho sexual. A autora demonstra, em muitos aspectos, o porquê e como as vadias do século XXI são uma continuação direta das bruxas do século XV. O livro explora, portanto, a bruxa como uma identidade imposta às mulheres, como uma identidade assumida livremente por indivíduos femininos e como uma personificação daqueles que praticam a bruxaria, isto é, um termo guarda-chuva para indicar uma variedade de práticas ocultas.
Amei que o livro, a meu ver, possui um caráter acadêmico e histórico muito grande, em função das várias referências e fontes utilizadas, mas, em simultâneo, não é uma leitura pesada e densa. É uma leitura que flui super rápido, principalmente devido aos capítulos pequenos. Os capítulos foram algo que me agradaram bastante, pois além de serem sucintos são capítulos que mudam bastante a temática, oferecendo diversos pontos de vista a respeito do tema das bruxas e das mulheres. Um detalhe que também me agradou foi o final, onde a autora apresenta trechos de diversas entrevistas que ela realizou com verdadeiras bruxas, e isso foi muito importante para eu desmistificar certos pensamentos que eu possuía em relação a essas pessoas e a prática da bruxaria.
Por fim, eu amei muito esse livro pela forma como ele me ensinou e me fez entender e compreender mais sobre a temática das mulheres e do feminismo por outra lente, ou seja, pela ótica e pela vertente das bruxas. Sei que ainda há muito preconceito e desinformação sobre o tema e a palavra, pois parece que estou falando de algo vindo diretamente de filmes e séries ou algo relacionado a práticas do mal. No entanto, as bruxas e também as vadias são bem mais do que isso, são apenas mulheres, mulheres oprimidas pela sociedade por demandarem liberdade e poder de escolha.
Se você é uma pessoa com interesse, mesmo que mínimo, sobre o tema das bruxas, e quer ler mais sobre o tema do feminismo de um modo não-convencional e único esse livro é para você. Ele traz referências históricas incríveis, traz definições e analogias atuais e inteligentes, assim como insights sobre temas que ainda são mal vistos pela sociedade. Gostei muito dessa temática e desta leitura e com certeza lerei mais sobre principalmente sobre o Wicca tanto por curiosidade quanto pelo fato de ser algo que é muito abordado e difundido no mainstream. Recomendo de olhos fechados.
"Witches have always been women who dared to be: groovy, courageous, aggressive, intelligent, nonconformist, explorative, curious, independent, sexually liberated, revolutionary"