A Ficção na Pós-Ditadura - Caio Fernando Abreu, Bernardo Carvalho e Milton Hatoum

    Milena Mulatti Magri

    UNIFESP
    2019
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788555710575
    Português Brasileiro

    Olhar para nosso passado recente, marcado por uma experiência profundamente autoritária e violenta, e estabelecer pontos de conexão desse passado com nosso presente parece ser uma das grandes contribuições dos romances analisados em A Ficção na Pós-Ditadura. Os acontecimentos mais recentes envolvendo o cenário político brasileiro, sobretudo após a interrupção do governo de Dilma Rousseff, reforçam a necessidade de compreendermos de que maneira as diferentes estruturas autoritárias sobrevivem na sociedade brasileira – tarefa que parece receber uma importante contribuição da narrativa brasileira contemporânea. Conhecer os traumas que caracterizaram o período da ditadura – tanto em suas consequências políticas, com a imposição de um governo ilegítimo após a interrupção forçada de um governo eleito democraticamente, quanto em suas consequências humanas, com a perseguição, prisão, assassinatos e desaparecimentos de pessoas que se opunham ao governo militar – revela-se cada vez mais uma agenda imprescindível para que tais eventos não se repitam. Vivemos em tempos de ataques às universidades públicas, a professores e ao pensamento crítico. A Ficção na Pós-Ditadura reage ao mal-estar desses tempos, com ideias claras e organizadas que articulam linguagem e história, contribuindo para elaborar a memória do regime. E essa elaboração é necessária, no espaço público, para que a repressão do passado não irrompa no presente. Este livro vai despertar o interesse de pesquisadores de literatura e história; e neste ano de 2019, ao evocar sombras do passado em obras escritas em período democrático, vai ajudar a pensar com lucidez sobre o momento presente. – Jaime Ginzburg: Professor de Letras da Universidade de São Paulo

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    Berttoni Licarião12/11/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Contam-se nos dedos os estudos publicados em formato de livro sobre narrativas que abordam o período de repressão iniciado com o golpe de 1964. E vários são os fatores que contribuíram para a crítica ter se ocupado de maneira tão insuficiente das relações entre literatura e ditadura: por ex., a presença de ideologias autoritárias nas universidades, a adesão da elite intelectual ao sistema de poder e a quase hegemônica presença de metodologias de análise literária que desconsideram o contexto histórico. Tendo em vista a manutenção de privilégios que acompanha o estabelecimento de cânones e o empenho pela homogeneização dos conflitos humanos presente no discurso universalista da crítica, a inevitável aproximação entre política e literatura sempre foi, e continua sendo, um campo minado para quem pesquisa literatura. . 📖 . Este livro da Milena Magri chega, portanto, para engrossar o caldo de uma discussão que há muito precisa ser restabelecida no ambiente acadêmico, nas rodas de leitura informais, nas estantes de livrarias, no dia a dia deste povo sem memória. Por meio das obras de Caio Fernando Abreu (Onde andará Dulce Veiga?), Milton Hatoum (Dois irmãos) e Bernardo Carvalho (Os bêbados e os sonâmbulos), Magri procura entender como esses romances apresentam uma leitura da experiência política da ditadura a partir da fragmentação, da falha, do discurso alquebrado e traumatizado. Usando um pouquinho dos conceitos de alegoria e do chiffonnier* de Benjamin, a pesquisadora percebe, na tensão entre os narradores e o autoritarismo brasileiro, uma dimensão testemunhal da violência sistêmica que nos persegue até hoje. Apesar de não concordar com a “leitura alegórica” no capítulo final, é com grande prazer que leio textos críticos em que a obra literária respira livre de constrangimentos teóricos. . 📖 . * O chiffonnier é o sucateiro ou trapeiro, alguém que sobrevive daquilo que foi descartado/ rejeitado. Para Benjamin, seria uma figura crítica da sociedade de consumo, emblemática do esforço de recuperação do passado e da memória. . #duramemória

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