Matéria de poesia -

    Manoel de Barros

    Alfaguara
    2019
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788556520920
    Português Brasileiro

    A linguagem de Manoel de Barros se insurge contra o convencional, o grandioso e o mercantil. Matéria de poesia é, nesse sentido, um livro revolucionário, um contraponto a tudo aquilo que a civilização rejeita como menor. Com prefácio de Mia Couto e imagens do acervo pessoal do poeta. Todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia. Assim começa Matéria de poesia, livro publicado originalmente em 1974 em que Manoel de Barros explicita do que é feita sua arte. Pois ela é composta de versos que são frases ritmadas ao rés do chão, nascidas da atenta observação do que não é importante. A matéria da poesia une palavras e coisas. Quase um manifesto que reflete o projeto de escrita de Manoel, os poemas reunidos neste volume unem seres e objetos aparentemente inconciliáveis. Nesta que é uma de suas obras mais importantes, se destacam também o apurado trabalho com a linguagem e o olhar para as coisas miúdas da natureza, nomeadas como se estivessem sendo vistas pela primeira vez. Afinal, nas palavras do próprio poeta: As coisas jogadas fora/ têm grande importância. Fala-se muito da capacidade de criação de neologismos do poeta do Pantanal. Creio que o seu mérito é bem mais do que a conquista do novo vocábulo. Manoel revela toda uma língua que não há para nomear criaturas que existem numa dimensão que, sendo onírica, é tão real como qualquer outra. — Mia Couto, do prefácio do livro. A partir de Matéria de poesia, o poeta passa a ser mais metalinguístico, parte de pequenos bichos aquáticos, insetos e ‘inutensílios’ (trastes sem préstimo) para compor uma espécie de cosmologia oculta. — Manuel da Costa Pinto, Folha de S. Paulo.

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    Berttoni Licarião26/05/2022Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Leituras de 2022 | #LeiaPoesia Matéria de poesia [1974] Manoel de Barros (MT, 1916-2014) Alfaguara, 2019, 208 p. A matemática da poesia de Manoel de Barros é uma que subtrai para transbordar, cheia de inutensílios: pedras, poeiras, cacos de vidro, o piado das águas, o marulho dos pássaros. Como advertem os versos que abrem este volume: “todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia.” Aproveitando-se “do que sobrou” após os grandes poetas se ocuparem dos “grandes temas universais” — essa falácia prepotente —, Barros ironicamente propõe a insurgência do banal, do comezinho, dos despojos sem sentido refeitos em versos-palavras, desajustando a sintaxe e desafiando olhares. Como sempre, os poemas são pouquinhos, seguindo o desejo do autor de fazer a experiência de leitura durar na escassez que preenche de sentidos os vazios. Sexto livro na ordem de suas muitas publicações, é aqui, como sugere o título do volume, que se delineia com clareza o que já se vinha anunciado em obras pregressas, uma poética de construção e demolição, de reaprendizado e reencanto, de desfeitura e desensinamento. Ou, mais explicitamente: a matéria de que se ocupa essa poética. Ler Manoel de Barros é um exercício de retorno à novidade: ensina o coração a respirar e o toque das coisas aos pulmões, aos olhos ensina o cheiro das palavras, e às palavras o sonho acordado das coisas nunca nomeadas. Leiam, sempre que possível, Manoel de Barros: [...] Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia As coisas que os líquenes comem – sapatos, adjetivos – têm muita importância para os pulmões da poesia Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia [...]

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