Os livros da Patrícia Reis são sempre complexas aventuras, e dessa vez eu terminei a leitura de AMOR EM SEGUNDA MÃO (publicado originalmente em 2006 e agora com uma edição impecável da editora Língua Geral) com uma interrogação gigantesca na cabeça. Vou explicar...
Eu conheci a Patrícia Reis em uma busca apaixonada pela literatura portuguesa, e tinha lido desde então dois livros dela (MORDER-TE O CORAÇÃO e POR ESTE MUNDO ACIMA), e antes de começar AMOR EM SEGUNDA MÃO, pensei que seria mais uma grande experiência. E foi. Primeiro, porque o livro é em outro idioma (português de Portugal é extremamente diferente do português brasileiro!!!), são tantas expressões e palavras que não existem no nosso vocabulário, que nós precisamos ler com extrema atenção para entender o que se passa na história. É quase a mesma sensação que tenho lendo Mia Couto.
Patrícia Reis tem uma linguagem quase poética, como se nós saboreássemos cada palavra em uma prosa deliciosamente fluida. Um único paragrafo diz MUITA coisa. Antes de perceber, já se passaram 100 páginas, mas tudo tem que ser lido com toda a calma do mundo. São obras reflexivas e belas que expõem personagens profundos e reais, ela narra as emoções e sentimentos de um jeito tão delicado que nós sentimos tudo aquilo do livro. Com todas essas qualidades e peculiaridades, a autora já me ganhou no primeiro livro.
AMOR EM SEGUNDA MÃO é um livro complicado de se explicar, porque narra a história de 11 personagens distintos e as suas vidas absolutamente normais em uma cidade grande, e exatamente por isso essas 11 pessoas são tão próximas, por que nós entendemos as suas dores, medos e temos a certeza de que já vivemos aquelas experiências. Logo percebemos que em comum entre todas as histórias, está Julia, uma mulher que vê o seu mundo virar de cabeça para baixo após algumas reviravoltas do destino (que seriam grandes spoilers se eu revelasse aqui).
Entre os 11 personagens, Lourenço foi o meu favorito, e aqui eu aproveito para fazer a minha crítica: apesar de ser um livro antigo, alguns preconceitos me incomodaram porque eu não consegui distanciá-los da escritora. Eu lia aquelas coisas (homofobia, machismo...) e não sabia se eram pensamentos dos personagens ou ideias inseridas no texto pela autora. Foi um pouco confuso, e só no decorrer da história eu percebi que ela tinha boas intenções em escrever sobre assuntos ainda repletos de tabus como HIV ou traição conjugal, só que tudo misturado em uma sopa conservadora.
Vale destacar que essa edição da Língua Geral é linda. O livro parece uma agenda ou um diário que podemos fechar com um elástico, a lombada das páginas é rosa e a diagramação também ficou impecável. É o tipo de livro que temos orgulho de ver na nossa estante.
MORDER-TE O CORAÇÃO continua sendo o meu livro favorito dela, mas isso não diminui a qualidade de AMOR EM SEGUNDA MÃO. São livros rápidos e histórias curtas, mesmo sendo profundas, e se você tem interesse na literatura portuguesa contemporânea, leia Patrícia Reis! Com certeza vai ser uma experiência literária bem diferente.
Nota: 4,0/5,0