Casa de boneca para elefantes -

    Patricia Porto

    Editora Penalux
    2019
    136 páginas
    4h 32m
    ISBN-13: 9788558335652
    Português Brasileiro

    Sinopse: O fim da vida traz um filme com as cenas reversas sobre o que vivemos, perpassadas pelo filtro da memória. A morte não seria a banalização da vida, mas sim sua metáfora, um corte, não só na carne, mas também no sistema pulsional humano. Pois leio ao reverso os poemas de Patricia Porto, nos quais ela põe seu ponto final em frases-versos de forma tão cortante quanto concisa. É como se ela trabalhasse o poema do fim para o começo e recursivamente. Usando palavras-chave para estabelecer mecanismos próprios de sua dinâmica estética, Patricia não só fecha muito bem seus poemas como cria uma certa imagem mais alusiva para a palavra-desfecho. Como lançar um projétil no alvo da palavra final? Ela consegue. E fecha e deixa em aberto para a recepção.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos26/10/2019Resenhou um livro
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    A DIMENSÃO SOCIAL NA POESIA DE PATRÍCIA PORTO

    Em “Casa de boneca para elefantes” da escritora Patrícia Porto, recentemente publicado em 2ª edição pela Editora Penalux, há a proposta de uma complexa meditação sobre a calamidade para a qual a humanidade parece caminhar a passos largos, através da elaboração de imagens que procuram dar conta, ao mesmo tempo, da dimensão social e coletiva de nosso desnorteio e sofrimento (voltadas, fundamentalmente, para a representação dos choques e rebaixamentos em ambiência tão hostil) e, claro, de seus desdobramentos. Em verdade há uma dilatação do eu poético que se combina aos demais aspectos da poesia conferindo uma dimensão outra, a um só tempo polifônica e política. Isso é muito bom, sinal de uma maturidade na qual a poeta sai do círculo estreito do seu eu, se abre e se expande até ilimitadas fronteiras a fim de abarcar o mundo exterior. O sofrimento humano. Essa a dolorosa experiência fundamental do tempo presente. E é nessa visada que a poeta abre-se ao caótico e ao imponderável de uma organização social injusta, construída pela opressão e para a opressão. Na maior parte dos 98 poemas reunidos na obra, observamos que sua arte incorpora um conjunto de elementos, que elaboraram o sofrimento como experiência do presente, oferecendo dele – e para ele – imagens e perguntas que problematizam e amplificam as contradições colocadas. São poemas que têm na violência e na devastação suas mais significativas matrizes imagéticas. Tiros, explosões, espancamentos, mortes, tortura, portas que se fecham contra nossas pretensões democráticas: todo o tipo de agressão e de renúncia, formas da degradação transfiguradas em uma dicção – às vezes tensa e entrecortada, outras vezes cadenciada e meditativa – que, em muitos momentos, se avizinha da prosa narrativa. A exposição de um tal estado de coisas, cogita até da desarticulação da vontade e da linguagem – e o tensionamento do corpo social diante do exercício desmedido de um poder que nem sempre mostra quem está por trás. Essa a opção deliberada que a autora leva a efeito, muito conscientemente (como declarou em entrevistas), e que confere a sua poesia uma dimensão ética para além do projeto estético do qual deriva. Vale referir, que dentre outros livros, a autora escreveu “A memória é um peixe fora d´água”- contos, livro que tem na memória profundo referente. Neste “Casa de boneca para elefantes”, para além de elemento balizador, a memória acrescenta os resíduos e a linguagem de um mundo violento, de uma realidade que parece prestes a desabar. Percebe-se em alguns poemas (como é o caso de “Os vidros de 78”), um esforço de memória que procura arrancar do passado os traumas que nele se ocultam e expor à luz do dia os traços da violência e do terror que continuam a se reproduzir cotidianamente. Ainda que trate especificamente da questão da ditadura militar neste poema em particular, a memória tende a se bifurcar para outras vertentes mais relacionadas à memória da dor coletiva, a forma suja e dilacerada que a pós-modernidade sujeita o humano. É então que ela se volta para a recolha de experiências anônimas, de violências invisíveis e das tantas e tantas e tantas vozes silenciadas. “o desterro”. (P. 92). “andei entre homens e vi massacres, mas não / encontrei nenhum mapa. / andei no deserto e vi o sol, a areia, a rotação, o tempo / que se move quente. / não achei o Minotauro nem pedacinhos de pão. descobri que o desfio do território é dentro, algo mais sem fio. Em “atropelamentos” (p. 118), um desabafo de cunho político, que não é só da autora. Milhões e milhões de brasileiros com a mesma dor surda dentro do peito. “há um pouco de cansaço em mim / há uma estrada, sinistra ou sinuosa, / à esquerda do mundo, do peito / do meu país sangrento meu coração à esquerda, estraçalhado, / esmigalhado no asfalto, / à esquerda sangrando / sem aceno sem saída meu país foi comprar cigarros / e não voltou mais” A leitura da obra, nos faz recordar de Walter Benjamin um dos pensadores que mais acertadamente pensaram a onipresença da catástrofe no mundo moderno. Chamou ele a atenção para o fato de que, por detrás da aparente normalidade do mundo burguês e do progresso técnico-científico capitalista, a sombra da destruição serve como lastro (que é ao mesmo tempo fundamento e garantia) da civilização ocidental. Isto faz-nos pensar no poder desmedido – e a capacidade predatória – das máquinas, bélicas ou não, das guerras de trincheira, das drogas, da corrupção generalizada, da pobreza que se alastra. Todo um panorama que atinge o “corpo humano, minúsculo e frágil”, tornando a destruição a única experiência possível num mundo que rapidamente se decompõe. “nosso mundo se foi, / murchando em flores miúdas que me cobrem os olhos”. Poema “êxtase, pg. 30. Patrícia Porto é dona de uma inteligência e uma sensibilidade privilegiadas, consegue construir um espaço de resistência no qual sujeitos (e vozes) desconhecidos, tradicionalmente silenciados, postos em segundo plano nos espaços consagrados do poder e da comunicação midiática, aparecem à tona e se transformam nas fotografias que desafiam, insolentes e precárias, os horrores da História e da nossa indiferença. Sim; mas como não falar de flores também, e de tudo um pouco? Inclusive a posição da mulher numa percepção de que não basta para uma escrita definir-se como feminina, ser apenas feita por uma pessoa que se auto designa mulher. Patrícia consegue nos mostrar como o lugar do feminino requer uma posição que implica a probabilidade de conseguir ver-se no outro. Implica a prática do espelho, não como exercício de miragem de si mesmo, mas de busca dos outros que coabitam na imagem refletida e que produz a reflexão. Mais importante ainda, e repetimos, muito mais importante do que erguer esta ou aquela bandeirinha, é perceber como, e a quantas a humanidade vai se esfacelando em grupinhos e mais grupinhos que não trazem qualquer sentido de conjunto. Mais uma vez deixamos escapar a possibilidade de efetivamente atuarmos para mudar o que precisa ser mudado... “da poesia para consumo” (p. 32). “quando todas as partes cuidarem das partes que / lhe cabem / quantas metades existirão? de qual aparte será o que me cabe, mulher e humana? / de qual parte serei apartada? / com quantos abates se forma uma parte? / de quantas margens precisa o aparto? / onde caberá a parte maior na parte menor? / nas pequenas subdivisões, ramificações, especulações / do mercado / - onde resistirá o amor? / na pequena soma das mortes virtuais? / Nas urnas das / cinzas do mundo / onde apenas mães pobres procuram corpos? / onde venderei minha alma pouca, minha perda / dentária? / meu universo de palavras não desejadas, não / comercializáveis, / o verso que não cabe no copo? a próxima pele será como o incêndio dos não-identificados / a próxima poesia não será televisionada” Dentre os 89 poemas publicados, há aqueles antológicos, somos tentados a reproduzir vários, como “poesia para terroristas”, “carta anônima para os dias difusos”, “bom dia, America!”, “do pau oco”, “quem é a mãe do inseto”, “o fim dos elefantes”, “alguma razão”, e “agulhas”. De fato, o mundo tem mudado muito em nossos tempos. E não estamos a nos referir a séculos e séculos, falamos das últimas décadas. As imagens da devastação multiplicam-se todos os dias, alcançando povos e territórios cada vez mais longínquos. A capacidade das armas e dos efetivos militares aumenta, bem como o extermínio de comunidades tradicionais e a corrupção em todas as latitudes não se detém, segue vitoriosa. O autoritarismo, a tortura e o desaparecimento forçado persistem em diversas partes do globo, somados agora ao imenso fenômeno da imigração em massa e das dificuldades dele decorrentes. Tudo isso parece se combinar num horizonte no qual a miséria, o terror e a indigência são fatos cotidianos, parte integrada de uma paisagem mais ampla, paisagem de terra arrasada em que vamos transformando o mundo a nossa volta. Otras cositas mas. O mundo, na prática, não acredita em Deus. “Pra quê deus nenhum?” Estamos cada vez mais “independentes” a apostar todas as fichas na “inteligência artificial”. Os fatos é que valem. Fazemos muita questão de ortodoxia de princípios, mas pouca daquilo que mais importa, isto é, a retidão. E seguimos muito alegrinhos sem lembrar que passado, presente e futuro estão fatalmente ligados, aí a eterna sucessão de dores e desgraças. É como recolhemos a cada momento as conseqüências de nossos atos. Não tomamos conhecimento da absoluta fatalidade das conseqüências e vamos criando nosso destino de dor. Com avidez, criamos a miséria, com o orgulho, a humilhação, com a prepotência, a derrota. A lei de causa e efeito, de continuidade e de equilíbrio das forças conhecidas no mundo físico e dinâmico, só vale para o mundo material. E tome-lhe topada. Ops! É desculpar o deslize, culpa do meu subconsciente pré-histórico. Ou quem sabe, reflexo da leitura de “poema para rinocerontes e mamutes”, (p.102)? Voltemos ao livro. Os poemas dessa obra apontam para a necessidade da arte, e à poesia em particular, em pensar o mundo conflagrado, mesmo sabendo, (como alguns versos de Patrícia Porto atestam de modo muito evidente), que esse mesmo mundo (como anda), esvazia continuamente, pela reprodução da barbárie, a própria possibilidade da poesia. Resistência sempre, não há alternativas. A autora bem sabe, e nos dá o seu testemunho muito claramente na abertura da obra: “Alguns me dirão que o caminho certo está do outro lado da porta. Prefiro a saída enigmática e desconhecida das ruas. Elas me lembram que há muitos seres como eu, isolados, desolados, desistidos, insistindo, profanando de esperança qualquer matéria de opressão.” 26/10/2019. Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapenalux.com.br/loja/casa-de-boneca-para-elefantes Livro: “Casa de boneca para elefantes” – Poesia, de Patrícia Porto – Editora Penalux, Guaratinguetá - São Paulo - SP , 2019, 136 p. ISBN 978-85-5833-565-2

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