Um país levantado em alegria [2018]
Ricardo Viel (SP, 1980-)
Porto, 2018, 180 p. ð
De que tenho notícia, esta é uma obra sui generis. Não conheço outro livro que aborde, meio a título de crônica dos dias meio com rigor jornalístico, os eventos em torno do recebimento de um prêmio Nobel de Literatura. Não surpreende, no entanto, que o gênero tenha começado (supondo que de fato não haja outro igual) com Saramago. Sou suspeito, mas acredito que nunca a atribuição do Nobel foi tão celebrada: a alegria que tomou conta de falantes do português do mundo inteiro e abriu sorrisos [...] nos rostos de pessoas simples e sobrecarregadas com o peso das vidas duras que nunca o leram e agora querem tentar ler um só livro que seja, é a mesma alegria que contagia, ainda hoje, 22 anos depois, quem lê este emocionante registro. ð
Cada passo do recebimento da notícia dos lábios de uma funcionária no aeroporto de Frankfurt às milhares de mensagens que colocaram Lanzarote no mapa confirma um grande espírito à serviço das causas mais justas da humanidade que não era apenas um escritor diferente, mas um fazedor de leitores levantados do chão. Como escreveu Pilar, as palavras de Saramago nos acompanham como se tivessem saído de nós mesmos porque são nossas. Neste 2020, viver um pouquinho no 1998 do escritor foi um alento. E vale lembrar, em tempos de pandemia, um trecho de seu discurso no jantar do Nobel, ao final do qual a rainha Sophia lhe soprou: Alguém tinha de o dizer. Obrigada:
A mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitem os que efectivamente governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia".