Ah, Gabriela, menina mística, que reúne em si toda a graça do bem viver; tem a inocência dos anjos e a malícia das sereias; recreio para os olhos de que a vê bailar, cantar e brincar; irmã dos bichos, ronrona como uma gata e avoa como o pássaro. Alegria, alegria e tristeza contida.
Gabriela é o que fica, o que permanece. Uma força da natureza em sua presença genuína, espontânea; não se esconde em seus movimentos, não se envergonha; nela não há vexame, porque não deve haver constrangimento em ser o que se é.
O resto pode evoluir, avançar e retroceder, progredir como a própria cidade de Ilhéus. Gabriela não; não muda. Não queremos outra. Há coisas que tocam o mistério e são elas que permanecem.
Ilhéus pode ser outra ao sabor do progresso civilizacional, com suas mudanças urbanas, desenvolvimento econômico e transformações de costumes; avanços materiais à força da razão. Efemérides. Gabriela não, ela tem a graça que converge para o mistério, coisas que não mudam, que não estão sujeitas à lei do tempo e da matéria; sem saber, a menina diz muito sobre o amor, a inocência, a graça, o bem-querer.
A Ilhéus de Jorge Amado é um turbilhão social, com seu mosaico de tipos humanos, algo regionalista e cosmopolita; a cidade vai, vai, avança, cresce, enriquece, se transforma.
Em Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado prova mais uma vez o grande contador de histórias que é. Versátil, imaginativo, melódico, folclórico, de mil e um personagens; todos irmanados no cenário dessa terra bem temperada do litoral baiano.
Essa é uma literatura prosaica, abundante no enredo e nos personagens; uma história bem costurada, que retrata a evolução social e cultura de uma cidade provinciana, tendo o idílio amoroso de Nacib e Gabriela como pano de fundo.
Como toda boa literatura, cumpre sua função dentro dos limites do seu tempo, espelhando naturalmente os costumes e valores da época, o que absolutamente não diminui a riqueza e o interesse sobre a obra.