Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia, ensina Liev Tolstói, e essa singela – porém sábia – frase é seguida à risca por Emir Rossoni nos dez contos que constituem Domanda Nísio. Em narrativas muito bem escritas, de medida exata e realizadas com o apuro de um ourives do estilo, Emir mergulha fundo nos dramas e tragédias que constituem a vastidão da experiência humana. Por meio de narradores que criam identificação instantânea com o leitor, seja o menino de Eles não encontravam Juliana, seja o filho pródigo que retorna à casa para descobrir um irmão muito diferente do imaginado em Domanda Nísio, o autor consegue fazer com que cada história não seja somente lida em um gesto despreocupado e distante, mas nos faz sentir a trama como se ela fosse ferro em brasa sobre a pele. Alguns livros lemos para encontrar alívio do cotidiano, outros são lidos para nos divertirmos e existem aqueles que precisamos ultrapassar por obrigação; no entanto, a verdadeira Literatura é a que nos faz questionarmos o próprio estatuto da humanidade, condição com a qual nascemos e que cada um possui a sua maneira de lidar. Em Domanda Nísio, é possível ver um escritor no mais completo domínio do seu estilo, usando textos para apresentar não respostas, mas questões, e esse é o seu maior mérito: transformar a Literatura em um incômodo espelho, um lugar onde conseguimos divisar as nossas maiores qualidades ao lado dos mais desprezíveis defeitos. Não se engane pela aparência desse livro: ele é uma teia de aranha, e você, incauto leitor, está prestes a ser pego pela armadilha de um exímio narrador a tal ponto que irá se apaixonar pela própria arapuca em que se enfiou. Boa sorte. Gustavo Melo Czekster (Escritor)
Domanda Nísio -
Emir Rossoni
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Ver maisNão tenho uma palavra para definir; tenho duas: pequenas tragédias
Eu sou suspeito para falar de um livro do Emir. Fui aluno dele. A César o que é de César, porém: Domanda Nísio é um baita de um livro (e não só porque ganhou o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura de 2018 porque ganhou). Composto de dez contos que ilustram a vida na cidade-natal do autor, Nova Bassano, apelidada carinhosamente de Bassano pelos locais, vemos histórias que não se entrelaçam em questão de enredo, mas sim de temática, todas ligadas não apenas pela localidade, mas também por sutilezas que subjazem à rotina dos moradores da cidade, ou dos visitantes que retornam, como ocorre em alguns dos contos. Mestre no manejo da palavra, Emir Rossoni consegue entremear histórias dentro de histórias: a primeira leitura de qualquer de seus contos jamais será uma leitura completa; há sempre o que desvendar em questão de significados, significâncias, e tudo envolto por uma aura colonial, típica dos descendentes dos italianos que abarcaram no sul do Brasil pouco mais de um século atrás. Não tenho uma palavra para definir Domanda Nísio. Tenho duas: pequenas tragédias. Não temos pirotecnias literárias, como olhos sendo arrancados ou casamentos com a própria mãe, conforme o que comumente nos remete a palavra tragédia, mas tragédias sutis, embora mais realistas, que vão desde a mulher fugindo do marido para conseguir levar o bebê ao hospital até o menino que, faceiro com o prospecto de ganhar uma lapiseira sua primeira lapiseira acaba descobrindo o mundo dos adultos e suas histórias de pescador, isso sem contar o pai que espera que o filho famoso, sabido, e do qual sente tanto orgulho ao contar para os amigos do carteado, não invente uma desculpa para não vir à cidade (dando a entender que esse tipo de coisa pode já ter ocorrido antes), ou ainda o homem que, tendo tornado a Bassano para o casamento do irmão, tem de ir, em vez disso ao seu funeral, onde fica intrigado com olhares trocados, palavras que escorregam dos lábios das pessoas e segredos que se escondem mas não muito, porque a cidade é pequena à vista de todos. O linguajar do interior, rico em expressões italianas, retiradas muito possivelmente da própria vivência do autor, em nada dificulta a leitura para quem, como eu, não é versado na língua de Dante. Emir, talvez imaginando um cenário desse tipo em relação ao seu leitor, compôs um texto que consegue ser claro para quem ignora o idioma italiano sem ser redundante para quem o compreende. O mais importante nisso é o resgate cultural dessa linguagem, rústica porém bela, que carrega uma pureza histórica, sem ser ela própria purista. E quanto ao posfácio, é vivificante ver um autor admirado fazer com sua obra o que todos nós queremos fazer na conjuntura atual: o próprio Emir trata seu livro como um grito de indignação, e ele realmente é. Somos nós os responsáveis por não deixar esse grito que não é só do Emir, é coletivo morrer, por gravar na arte escrita, pintada, cantada, esculpida, como for, as nossas impressões do mundo, sempre únicas, mas jamais irrelevantes. Domanda Nísio é maestria formal e sensibilidade artística. Se puder, quando puder, leia.. E grite conosco antes que o Brasil nos silencie.
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